Na sua reta final, a sexta temporada de Homeland se consagra como aquela em que o maior inimigo dos EUA são os americanos.
Assim como em 24 horas e também em Tyrant (todos produtos irmãos), uma dramaturgia apoiada em questões de terrorismo sempre gera problemas com a comunidade islâmica do mundo. Por mais de uma vez – e ainda que sempre vilanizem os EUA como forma de absolvição – essas séries foram acusadas de ludibriar o público com versões superficiais dos fatos. Os produtores se esforçavam para buscar equilíbrio, providenciando uma forma elegante de maniqueísmo, mas que ainda assim era maniqueísmo: muçulmanos contra o terror para parecerem bonzinhos e americanos malvadões que só querem explodir coisas. O truque sempre foi um clássico e a gente perdoa porque entende as implicações políticas.
De todas as temporadas de Homeland, essa é, sem dúvida, a mais próxima do universo de 24 horas (dos mesmos criadores) e também a mais distante. Pode parecer absurdo, mas a razão pela qual esse ano segue de forma tão eficiente é justamente porque tenta escapar das narrativas clássicas do “ataque terrorista iminente” e foca mais nas obscuridades da inteligência americana e da manipulação de mídia através das redes sociais, algo que está em plena vigência e representa o maior dos riscos para a saúde do mundo. Ao mesmo tempo, as tramas de traição presidencial já são um clássico do gênero e aparecem recorrentes em todo esse processo narrativo.
Preciso dizer que é uma lástima que naquela que considero uma das melhores temporadas de Homeland em anos, minha cobertura esteja tão precária. Não é uma questão de desânimo com o produto final, mas sim uma reunião de limitações pessoais. Reviews duplas, triplas, tendem a pecar pela falta de detalhes, mas a essa altura eu só preciso garantir que estaremos falando dos acontecimentos, ainda que não de forma completa e abrangente. Por sorte, Homeland tem desenvolvido uma temporada segura e bem planejada e a trinca de episódios que vou comentar serve ao mesmo propósito: o da difamação.
Polarização
Algumas pessoas estão sempre esperando o pior das outras. O tipo que acredita em conspirações mirabolantes geralmente é o mesmo que julga uma mulher mais velha interessada por um homem mais novo se não for para ganhar status dele. Esse tipo de gente espera sempre o pior e sempre cai na paranoia de que governantes sempre querem o mal, seja quais forem ou de onde vierem. É impossível não traçar um paralelo com o que aconteceu no Brasil na ocasião do impeachment da presidente Dilma, quando uma massiva propaganda midiática colaborou fortemente para o crescimento de sua impopularidade. E também é curioso notar que para os canais internos sempre há mais lados de uma questão, mas que o homem contemporâneo, de classe média, continua repassando discursos sem pensar realmente sobre eles.
Eu disse em um dos textos que o que Homeland precisava muito e nem sabia era de um vilão. Dar veio para cumprir essa função e foi bonito vê-lo implodindo lentamente as vidas de Saul e Carrie sem dar nem um grito. Os dois conseguem desmascará-lo e logo depois, são rendidos novamente por razões pessoais: Carrie não quer ficar longe da filha e Saul pode ter sua carreira destruída se souberem do que aconteceu entre ele e Allison. Contudo, ver que essa reta final também faz da “mídia paralela” um dos grandes vilões do show é sensacional.
Milhões de perfis falsos em redes servem aos propósitos de quem quer fazer gente de verdade achar que defende a ideia mais justa. Aquele cara que faz um cartaz e vai para a rua defender a saída da presidente eleita está, de verdade, acreditando que teve os “olhos abertos” para a grande “verdade”. Ele vai para a manifestação, convence amigos de que suas razões são justas, repassa seu discurso apaixonado de “cidadão consciente” e nem sabe que não passa de um simples joguete. Pensar nisso é ASSUSTADOR, porque só o que pode impedir essa manipulação é o exercício do bom senso, o que nos dias de hoje em que a internet dá alvará de estupidez para qualquer um, é um exercício quase desprogramado da essência individual. Sobretudo porque parecer seguro de que “nenhum grande poder te engana” é motivo de orgulho nas redes e delega um específico status. Percebem como é enervante? Há uma propaganda de mídia para te convencer a não acreditar na mídia.
A presidente Keane cresceu muito na série. Ela meio que continua sendo jogada de um lado pro outro pelo que Dar vai soltando no caminho, mas sequências como a que ela vai ao programa difamatório apresentado pelo homem que comanda os perfis falsos na rede, são deliciosas, porque são uma convergência catártica que revelam o bom planejamento da temporada. Essa é uma temporada com um planejamento muito seguro e ver como eles tem sido cuidadosos com Carrie também me conforta muito. Nada de surtos aleatórios só para aumentar audiência.
Quinn ainda está lá – com mais vidas que um gato – e preciso reconhecer a dignidade do roteiro em buscar formas de mantê-lo relevante. De tudo que aconteceu com ele nessa temporada, a coisa que considero mais importante é a consciência de que Carrie tem uma responsabilidade indireta por seu estado físico e mental. Mas, me preocupo com as implicações futuras da permanência dele no show, já que a relação de Carrie com os homens de sua vida é que tendem a enfraquecer as trajetórias. E seria lamentável ver uma temporada tão elegante tomar saídas fáceis e cafonas para encerrar-se. Homeland não tem que ser sempre trágica, mas tem que ser sempre fria, cínica. Esse ano é um ano sobre a manipulação irresponsável de reputações (de todos os tipos) e será um privilégio se terminarmos com ele vendo a da própria série mudar. E para melhor.
Sigo prometendo que teremos textos melhores nessa reta final, mas apesar da minha negligência, esse é um ano muito especial para o programa. É torcer para acabar bem e para quebrar a péssima tradição de Finales absurdas. Homeland merece mais.















