O que tem para o jantar?”

“Nunca pergunte, estraga a surpresa”

Preciso admitir uma coisa para vocês, é muito difícil escrever sobre Hannibal. O medo de transformar a review em algo extremamente repetitivo é grande. Mas, o que posso fazer se tenho a necessidade constante de entrar na questão referente à gigantesca qualidade da fotografia e da trilha sonora da série? Peguem “Contorno” e “Dolce” como exemplos. Esses dois episódios, foram particularmente além no quesito sutil, e significativo, que as alterações das cores nos trazem. Dark e light. Cores escuras e cores fortes. Vermelho. Preto. Branco. Enfim, assim  fica difícil não mencionar, de novo e de novo, e mais uma vez.

Outro fator que pode levar à essas repetições vem do fato da perspicácia do roteiro com suas mensagens filosóficas e até mesmo subliminares, “to market, to market, to buy a fat pig…. home again, home again… jiggity-jig…”. Dentro do contexto da série, essa simples canção de ninar carrega uma força textual incrível. Sendo assim, posso encerrar meu caso.

No entanto, a maior dificuldade em escrever para Hannibal não está nesse medo de repetição abusiva, e sim no nó que acontece na minha mente depois de alguns (maioria) episódios. De vez em quando eu simplesmente não consigo desatar esses nós, não antes de refletir bem e/ou assistir ao próximo episódio. Foi exatamente isso que aconteceu depois de “Contorno”. Por esse motivo, foi extremamente necessário dar um espaço para a minha mente refletir e assim tirar conclusões mais coerentes.

Quando terminei de assistir ao episódio, fiquei imediatamente anestesiada. Tanto  emocionalmente, quanto racionalmente. O mais impressionante é que eu sei que esse não foi um episódio cheio de reviravoltas e/ou explosões mentais. Muito pelo contrário, eu sei! A questão é que, foi com esse episódio que vimos com nitidez certeira o começo do fim.

Contorno” mais que tudo, serviu para preparar o terreno para o desenrolar do que deverá acontecer de agora em diante, do inevitável. Nos preparou para enfrentarmos o futuro certo, e conhecido, do dr. Hannibal Lecter, e até mesmo a aguardada chegada de um certo Francis Dolarhyde.

Porém, se faz necessário, agora, eu dar o braço a torcer e finalmente concordar com alguns de vocês. O ritmo dessa temporada estava sim mais lento, “Contorno” e “Dolce” foram a total constatação disso. Claro que, como já mencionei diversas vezes, eu entendo essa lentidão. Era importante entendermos e presenciarmos o estado de espírito dos dois protagonistas e daqueles ao redor. Vimos isso, bastante. Era importante entendermos qual seriam as ações e os motivos de Will sem Hannibal. A profundidade da dependência que um tem pelo outro. Com esses primeiros episódios dessa temporada vimos isso mais claramente do que nunca. Hannibal e Will estavam misturados um ao outro. A vida de Will, agora, se divide em antes e depois de Hannibal, e era necessário que ele próprio começasse a entender o que isso significava e como seria viver sem essa sua nova metade. “Eu estou curioso em saber se algum de nós conseguirá sobreviver a separação”, nós também estamos Will! E é exatamente isso que começaremos a entender melhor de agora em diante.

É isso, não adianta mais negar. Hannibal, a série, é e sempre será a história da dependência e do amor entre Will Graham e Hannibal Lecter. Uma relação que mudou os dois. Sendo assim, é preciso dizer que “Contorno” e “Dolce” foram dois episódios feitos para nos fazer começar a aceitar a mudança dessa dinâmica. Hannibal sabe o que virá pela frente e onde é o seu lugar. Ele estava se preparando para isso. Não se enganem, foi o próprio Hannibal quem permitiu a aproximação de seus inimigos. Ele tem a capacidade de sumir para sempre, sabemos disso, mas decidiu não sumir. Tudo acontece como ele quer e planeja. Estamos exatamente onde o dr. Hannibal Lecter quer. Agora, a pergunta que fica é: como Will lidará com isso?

É importante dizer que, mesmo depois de tudo, não vejo uma mudança no ritmo da série. A série é assim. Mas vejo sim uma mudança no ciclo das histórias e seus resultados, como já era esperado. De agora em diante não será tiro porrada e bomba, mas sim veremos o caminho mais claro que levará Hannibal para a sua máscara icônica, para mais longe de Will e mais perto de Clarice (uma pena não conseguirmos ver isso, de fato). Também, precisamos nos preparar para aceitar a a vida de Will depois de Hannibal. Mas vamos com calma, afinal, até lá, ainda temos a passagem do grande Dragão Vermelho por essa história. Mal posso esperar! Vocês viram o trailer da Comic Con 2015, focado no Dragão Vermelho? Sim, morri depois disso!!

Mas fato é que, tudo está em seu devido lugar. As intenções estão mais claras que nunca. As máscaras estão, definitivamente, sendo aposentadas. Cada vez mais vemos que nesse universo não existe uma linha entre o certo e o errado. Pessoas estão sucumbindo de vez à corrupção e à ganância (RIP Rinaldo Pazzi). Pessoas também estão sucumbindo ainda mais à loucura (cof, cof, Mason Verger). Pessoas são jogadas de trem em movimento. Alianças são fortalecidas. Caminhos sem volta são traçados. Mas principalmente, Jack Crawford está ficando cada vez mais badass.

Que surra, ladies and gentlemen, que surra! Que cena linda e bem conduzida. Impressionante como até os banhos de sangue se tornam cada vez mais bonitos em Hannibal. Fiquei boquiaberta, de novo, com a atuação de Mads Mikkelsen e Laurence Fishburne que conseguiram passar com naturalidade e maturidade toda a tensão e todo o rancor compartilhados entre seus personagens. O cuidado com a mistura do belo, sangrento e grotesco me cativa cada vez mais. Nem me importei com o fato de Jack deixar Hannibal escapar, quando estava com ele tão derrotado em suas mãos. Afinal, o responsável pelo destino de Hannibal não tem que ser Jack. Sabemos disso. O responsável pelo destino de Hannibal, tem que ser Will. Independente de quem tenha sofrido por ter cruzado o caminho do canibal.

Com isso em mente, chegamos à “Dolce”, que trouxe a cena mais bonita da série, até agora. Não digo bonita visualmente, mas bonita em seu significado. O singelo reencontro entre Hannibal e Will. Um diálogo cuidadosamente escrito e executado. Para nós que assistimos e para os personagens em questão, essa cena representou o total entendimento do que um é para o outro. É impressionante perceber que, assim como seus personagens, Mads Mikkelsen e Hugh Dancy se completam totalmente.

Como já mencionei, Will entende o quão conectado está à Hannibal Lecter. Como também entende que chegou o momento em que essa conexão precisa ser cortada, de uma forma ou de outra. Will viajou durante dias, tentando conhecer a mente de Hannibal melhor, para entender que esse conhecimento estão nas coisas mais simples, como Botticelli e o próprio sentimento dividido um pelo outro. Uma parte de Will sempre amará Hannibal e vice e versa, ambos sabem disso. A diferença é que Hannibal sabe que a mente de Will é o seu maior bem. Não foi a toa que essa foi exatamente a parte de Will que Hannibal imediatamente decidiu ingerir. Ciclo chegando ao fim. Reciprocidade fazendo a sua parte.

Com isso, entendemos até o propósito da Chiyo. Chiyo não é a Lady Murasaki, sabemos disso agora. Chiyo, de certa maneira também foi aprendiz dela. E sim, a personagem existe no universo literário, não de modo tão expressivo como aqui na série. Essa semana me deparei com uma entrevista que o Bryan Fuller deu em 2014, quando contratou a atriz Tao Okamoto para o papel, na entrevista Bryan diz que Chiyo pegaria emprestado algumas partes da história de Lady Murasaki, bem como algumas características dela, mas que ele precisava dessa personagem para fazer “coisas” que a Lady Murasaki não poderia (aceitação da audiência) fazer. Agora, entendemos exatamente que “coisas” são essas.

Chiyo foi a tentativa número um. A cobaia número um. Ela não é a Lady Murasaki, ela foi o primeiro projeto de Hannibal. Aquela que o preparou para Will. Sendo assim, passamos a entender as similaridades, e principalmente as diferenças, entre Chiyo e Will. Chiyo está totalmente fundida à Hannibal, enquanto Will ainda tem aqueles que tentam puxá-lo de volta.

A questão é que agora, não há mais volta. O destino está traçado e sendo executado. Dr. Hannibal Lecter e Will Graham são joguetes na mão do excêntrico milionário Mason Verger. E agora, quem poderá nos defender? Sabemos que, infelizmente, os delírios gastronômicos de Mason não se concretizarão, mas até lá, o que será de Will e Hannibal?

Mason Verger cada vez mais insano, querendo um filho para passar como herança essa sua insanidade mental. Mason é um personagem sem igual. Estou totalmente rendida à ele, cada episódio que passa, o Mason da série fica mais parecido com o Mason do livro. Ele é um personagem que aparece, dita o rumo de outros personagens, causa umas confusões, solta umas verdades que precisam ser ditas e vai embora, com toda a elegância do mundo. “Eu poderia ser muito bom para uma criança”, como não amar esse sarcasmo sutil do personagem? Quase esquecemos que Mason Verger é um pedófilo que gosta de beber Martini misturado com as lágrimas das crianças que ele abusa. “Vamor ter um filho, Margot?”. Assim, de novo, encerro meu caso.

Agora, por favor, você aí que está lendo essa review nesse momento: levante e bata palmas para a dra. Bedelia Du Maurier e para a dra. Alana Bloom! Essas mulheres de Hannibal só nos dão orgulho. Uma mais forte que a outra. Uma mais dissimulada que a outra. Uma mais vingativa que a outra. São personagens que mostram que guerra/jogo mental é sim lugar para mulheres. Inclusive, elas mostram que combatem com toda a força, sem perder o charme e a elegância.

Bedelia Du Maurier, mulher cheia de elegância e inteligência. Ela é praticamente um Hannibal de saia. Astuta e dissimulada, sabe muito bem como entrar e sair ilesa (ou quase) de situações comprometedoras. Sim, ela também foi corrompida por Hannibal, ela também está presa à ele, mesmo assim vemos que a personagem não é fraca, muito pelo contrário. Bedelia Du Maurier exala uma força sem igual e, meu Deus do céu, como Gillian Anderson é sensacional (rimou). Por mais que eu tente entender, ainda vejo Bedelia como a maior incógnita da série.

E então chegamos à Alana Bloom. Estou totalmente impressionada como essa personagem foi capaz de me fazer mudar de opinião tão radicalmente, em apenas quatro episódios. Enquanto ficamos aqui debatendo se é Chiyo, Bedelia ou Will o maior erro (ou acerto, depende do ponto de vista) de Hannibal, acabamos esquecendo que esse lugar pode, muito bem, ser disputado também pela dra. Alana Bloom. Não existe mais nada daquela Alana sonsa, cega e politicamente correta. Hannibal desconstruiu Alana, e a nova construção é simplesmente arrasadora. Já estou na torcida pelo final em que Alana e Margot Verger dirigem um carro conversível em direção ao pôr do sol, vingadas, gargalhando e com todo dinheiro, e herdeiro, de Mason Verger. Palmas lentas e de pé!! Estão shippando “Margana” com todas as suas forças? Eu estou. #<3Margana.

Para terminar, quero fazer uma conexão entre Doctor Who e Hannibal, minhas duas séries preferidas. A canção de ninar, brilhantemente mencionada pelo dr. Lecter, também foi mencionada pelo Doctor no episódio “The Rings of Akhaten” (7×07). Nas duas ocasiões foi uma representação dos lugares em que as crianças (ingenuidade) se escondem e claro, com a volta para casa/lar:

To market, to market, to buy a fat pig,

Home again, home again, jiggety-jig.

To market, to market, to buy a fat hog,

Home again, home again, jiggety-jog.

To market, to market, to buy a plum bun,

Home again, home again, market is done”

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