Observar ou participar, eis a questão!

“Onde você foi se meter, Bedelia?”. É com essa pergunta, que faz total sentido, que começamos nossa jornada em mais uma temporada de Hannibal.

E que início de temporada, não é? Bryan Fuller mostrou, de novo, que o mais importante não é o resultado e sim a jornada. Nada de Will Graham, nada de respostas concretas para as perguntas deixadas pelo banho de sangue do episódio final da temporada passada. Nada. Ainda.

Por mais que ansiamos por essas respostas, nada é mais justo do que a temporada começar separando a próxima fase da jornada do dr. Hannibal Lecter, agora acompanhado pela deslumbrante dra. Bedelia Du Maurier. Quem será Hannibal sem Will? Afinal, precisamos entender e aceitar que foi exatamente o “amor” entre Hannibal e Will que fez com que ambos se perdessem, um pouco. Sendo assim, é necessário separá-los, possibilitando que eles se encontrem novamente, individualmente, para depois terem o direito ao reencontro fatídico e tão esperado. E enquanto isso, nós acompanharemos os personagens irem, de uma vez por todas, ao encontro de seus destinos. Will e Hannibal. Hannibal e Will. Dois lados da mesma moeda. Tão dependente um do outro e tão nocivo um para o outro. Nas palavras do próprio Hannibal: “Will Graham não foi um substituto adequado para a terapia”.  Hannibal Lecter já era Hannibal Lecter muito antes de Will aparecer, e assim deve ser.

Mas é óbvio que, o que aconteceu com os demais personagens é importante sim. Will e Hannibal juntos é importante sim. Bryan Fuller somente nos mostrou que, nesse momento, o resultado daquela noite deve ser encarado mais profundamente e significantemente com o olhar em Hannibal e Bedelia.

Com isso em mente não foi surpresa logo nos lembrarem  que Hannibal Lecter é um dos melhores personagens, serial killers, já criados. Desde seu passeio de moto por Paris, até a sua entrada naquele salão. Esse é Hannibal, o caçador em busca da sua presa.

Devo dizer que ver elementos tão fortes e importantes dos livros escritos por Thomas Harris aqui na série, sempre me deixam feliz. Dr. Fell, Vera dal 1926 e a própria Europa são peças importantes dos livros. Não, não vou ficar comparando obra literária com a adaptação televisiva, acho injusto. Em Hannibal ainda mais, já que Fuller e sua equipe misturam todos os livros (de maneira positiva e necessária). Por isso digo que, mesmo se esses elementos mostrados servirem somente de “fan service” já fico satisfeita. Por outro lado, também me obrigo a dizer que estou só na espera do inspetor chefe, Pazzi.

Como não se render à uma série capaz de trazer, logo na sua season premiere, um episódio sem nenhuma ordem narrativa e mesmo assim fazer desse episódio totalmente coerente, intrigante e interessante? A desordem narrativa desse episódio vai de total encontro com o momento no qual encontramos Hannibal novamente. Sem controle, sem ordem e sem pudores éticos. Hannibal deixou seu “eu verdadeiro” aparecer, e agora o céu é o limite. Pobre Anthony Dimmond, que resolveu medir forças com um Hannibal livre. O jogo de sedução entre os personagens foi muito bom, mas fato é que, por mais atraente e elegante que Tom Wisdom seja, ele não é Hugh Dancy. Pronto falei! Por falar nisso, o que aconteceu com “Dominion”? Quando começa a segunda temporada?

Sobre a estética visual de Hannibal, o que falar, de novo? Foi super sensorial, intensa, linda e totalmente condizente com o que esse episódio quis nos mostrar? Sim, foram. Mais uma vez a equipe criativa da série foi capaz de, com simples traços e mudanças de cores, nos transportar para dentro da mente de Hannibal Lecter. Foi exatamente isso que esse episódo nos trouxe, de uma maneira ainda mais forte. Como funciona a mente do canibal mais famoso da dramaturgia. Como que, na mente desse homem, crimes tão hediondos e violentos se tornam tão belos, quase poesia pura. Como o próprio Dante Alighieri, genial, difícil, verdadeiro e totalmente necessário. As comparações entre Dante e Hannibal foram sutis, porém eficientes. Hannibal Lecter e Europa é uma combinação difícil de ser superada, isso é fato.

Mais um exemplo da força metafórica combinada com uma impecável qualidade de roteiro, foram as conversas entre Hannibal Lecter e Abel Gideon. Afinal, aquilo que não nos mata nos deixa mais forte, não é esse o ditado? Não é por isso que, muitas vezes, Hannibal come suas vítimas? Lembrando que de acordo com alguns investigadores do mundo animal, o canibalismo tem resultado na evolução das espécies, com objetivo de eliminar os indivíduos menos aptos, por exemplo, provenientes de uma ninhada em que alguns filhotes saem dos ovos defeituosos ou imaturos. Outras culturas acreditam que os atos de canibalismo vêm da necessidade de consumir a energia e características daqueles ingeridos.

Não é isso que o dr. Hannibal quer? Separar os fortes dos fracos? Ser melhor? O duelo psicológico entre as brilhantes mentes do dr. Gideon e do dr. Lecter, nos mostrou isso. E até mesmo nos faz entender melhor o porquê foi necessário vermos o dr. Gideon se comer (nunca pensei que usaria essa frase de maneira séria e/ou até mesmo sensata). Afinal, ninguém quer jantar sozinho. A questão que Abel levantou foi outro momento brilhante  e sagaz do roteiro desse episódio: “como será, quando tudo isso começar a acontecer com você?”. Nós, que assistimos, também nos perguntamos isso, e podemos ter certeza que essa indagação também passa pela mente do dr. Lecter. Inclusive, é seguro dizer que as escolhas de suas vítimas, de certa forma, o ajudam a se preparar para isso.

Independente da situação, Hannibal Lecter é elegância e sedução pura. Louvado seja Mads Mikkelsen que fez, de novo e mais uma vez, um trabalho fenomenal em nos mostrar como um homem tão podre por dentro pode ser tão irresistível. É justamente esse poder magnético de Hannibal que, de início, atraíram Will Graham, Alana Bloom, Bedelia Du Maurier e tantos outros.

Dra. Bedelia Du Maurier. A maior incógnita, a obra mais abstrata dessa série. Nós temos somente uma pequena noção do por que Bedelia Du Maurier foi de encontro ao dr. Lecter. Ficou nítida a dominação psicológica exercida por Hannibal, mas será isso o suficiente para fazer Bedelia aceitar de vez seu destino ao lado desse homem tão fascinante e perigoso? Fato é que a dra. Bedelia, irrefutavelmente, vendeu sua alma ao diabo. A cena onde ela pede ajuda à Hannibal logo depois de ter matado seu paciente (oi, Zachary Quinto) selou a venda da sua alma, o domínio que Hannibal terá sobre ela. Além de ter sido outra real lembrança de como Hannibal tem tudo sob seu próprio controle, todos devidamente no lugar que ele quer que estejam. Foi ele quem colocou o paciente Quinto no caminho da dra. Bedelia. Todos os movimentos de Hannibal são friamente calculados. Lembrem-se, quem participa não observa e quem observa com curiosidade excessiva, de certa maneira, está participando.

Por outro lado é interessante perceber que a luta de consciência da dra. Du Maurier pode muito bem ser o caminho para duas situações distintas. Um caminho pode levar a dra. Bedelia à sua derrocada total, a transformação em aprendiz que Hannibal tanto quer, ou até mesmo na refeição mais suculenta do dia. O outro caminho pode levá-la a ser aquela responsável pela derrocada do dr. Lecter. É errado achar que, de certa maneira, Bedelia possa estar trabalhando com Jack Crawford (oi, flashback)? E por tabela com Will Graham? Aquele recado, na estação de trem, não foi muito sutil: “estamos aqui FBI, na Itália, estou aqui sentada nessa estação de trem, olhando para essa câmera, só esperando por vocês, vem Will Graham”!

Vou fazer uma pausa nessa review, para jogar uma informação aleatória no universo: dr. Lecter é canibal dos bons, que sabe os truques para deixar a carne humana mais suculenta e mais saborosa. Hannibal Lecter preparando uma mulher como a Dra. Bedelia, e você aí comendo essa carne de panela de ontem!

Tive a necessidade de jogar essa informação, pelo simples motivo de: Gillian Anderson, que mulher!!! Independente do que o futuro reserva para a personagem, a dra. Bedelia Du Maurier é sim, de muitas maneiras, a parceira ideal para o Hannibal. A química entre Gillian e Mads é inegável, e fenomenal. São dois ótimos atores, capazes de, inacreditavelmente, deixar o outro ainda melhor. Gillian e sua Bedelia são as armas mais poderosas e importantes dessa terceira temporada, e com razão. Repito: que mulher!!! Independente se ela veio para libertá-lo ou afundá-lo de vez, a dra. Du Maurier é a cara metade do Hannibal Lecter. A tampa da sua panela, que é de pressão. E o mais importante é que Hannibal sabe disso.

Desculpa Will, ainda te amo! Mas o mais importante é que eu ainda sonho com o dia em que verei a tensão sexual entre Will e Hannibal sair do papel!!! Segurem firme, minha gente, porque essa temporada promete.

Novamente eu decidi não acompanhar notícias mais reveladoras sobre a série e essa terceira temporada. Quero apreciar Hannibal como se deve. Mas sim, não posso deixar de mencionar algo puro, lindo e simples: VEM LOGO FADA DOS DENTES, VEM!!! Como eu te esperei!!!! E Bryan Fuller, sei que você está lendo essa review, portanto eu te agradeço pela genial ideia de escalar o Thorin “Fucking Richard Armitage” Oakenshield como o personagem. Te agradeço com a mesma intensidade que escolho um picolé na praia, no dia mais quente do verão!!! 😉

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