O jantar foi servido!

Onde estou? Quem sou? O que aconteceu? Bryan Fuller zerou a minha existência, e é somente isso que sou capaz de dizer com absoluta certeza.

A segunda temporada de Hannibal chegou ao fim e me deixou boquiaberta. Agora que a temporada realmente acabou, estou autorizada a dizer que essa temporada de Hannibal foi uma das experiências televisivas mais complexas, satisfatórias e positivas que eu tive em sei lá quanto tempo? Podemos dizer que, da televisão aberta, Hannibal é atualmente a série mais completa?

Sim, essa season finale foi de explodir mentes, independente se foi explosão positiva e/ou negativa. Eu, por exemplo, não esperava nada daquilo que aconteceu e fui totalmente surpreendida pelas situações. Quando o episódio acabou, eu só consegui pensar: “WTF acabou de acontecer? O que eu acabei de ver?”.

Claro que eu precisei assistir à esse episódio duas vezes antes de, ao menos tentar, esboçar qualquer tipo de reação justa. Mas, independente de qualquer dúvida quanto ao episódio ou qualquer surpresa positiva ou, até mesmo, negativa que ele possa ter trazido, nada será capaz de tirar o mérito do resultado brilhante, impressionante e significativo que foi o conjunto da obra nessa temporada. Afinal, quando imaginaríamos que hoje em dia a NBC, sim a NBC, seria a casa de uma série tão progressiva? Quando que imaginaríamos que a NBC permitiria uma de suas séries mostrar uma cena tão perturbadora quanto a cena de automutilação de Mason Verger? Entre tantas outras, claro. Fato é que, gostando ou não, Hannibal, principalmente nessa segunda temporada, veio para jogar a qualidade das séries em exibição, hoje em dia, para outro nível.

Independente de qual tenha sido a sua reação ao assistir essa season finale, não podemos ignorar a qualidade excepcional do contexto visual do episódio. Hannibal é uma série única, justamente, por ser dona de um contexto visual tão rico, detalhado e eficiente. Mas aqui em “Mizumono” Bryan Fuller e sua equipe foram além, muito além. As nuances das cores, dos tons e até mesmo a textura, misturadas ao distinto foco da câmera e uma trilha sonora assombrosa e muito precisa fizeram desse episódio uma experiência totalmente sensorial.

A série toda, na realidade, é uma incrível experiência sensorial, você realmente sente todos os aspectos em Hannibal. Preciso dizer que nessa season finale houve um momento em que eu precisei voltar uns quinze minutos do episódio porque já não prestava mais atenção na história e seus acontecimentos, estava totalmente presa ao contexto visual. A qualidade da fotografia e, principalmente, a dança das cores brincaram intensamente com as minhas emoções e as deixaram à flor da pele. Não há como negar que Hannibal é muito eficiente nesse quesito, misturar todos os seus aspectos técnicos e artísticos e nos deixar em um estado de completa aniquilação emocional. Realmente não lembro a última série que mexeu tanto com todos os meus sentidos emocionais como Hannibal mexe.

Dito isso, sou obrigada a confessar que durante algum tempo, após o término do episódio, eu não consegui formar uma opinião concreta sobre o que eu tinha acabado de ver. Sério, realmente não conseguia entender meus sentimentos em relação ao episódio. Estava tão absorta na experiência e tão perplexa e rendida pela surpresa que no final meu raciocínio não acompanhou.

Então decidi assistir pela segunda vez, e aí percebi que era exatamente isso que eu esperava sentir com essa finale, o domínio da confusão e da perplexidade. Como dizer que foi ruim, no sentido da história, Hannibal ter escapado livre, purificado pela chuva e tomando champagne no avião, rumo a sua nova vida ao lado da linda, charmosa e diva Dra. Bedelia Du Maurier? Por sinal, Dra. Bedelia foi ao mesmo tempo a grande incógnita e a mais grata surpresa do episódio. Nunca, nem em meus mais amplos devaneios, imaginei a possibilidade da Dra. Bedelia e Hannibal estarem brincando com as mentes das pessoas juntos e depois de ver os dois felizes e satisfeitos, digo que fez todo sentido e me deixou com um sorriso no rosto.

A questão é que estávamos, pelo menos eu, tão focados na possível prisão de Hannibal que não conseguimos ver os outros ângulos/as outras possibilidades. Mas parem e pensem em quão melhor é termos um Hannibal ainda solto para voar e manipular mais mentes indefesas. Hannibal é uma mente incrivelmente brilhante, portanto, nada mais justo ser mais difícil, do que esperávamos, aprisionar essa mente.

Não podemos esquecer que a história de Hannibal na série sempre foi um pouco diferente da história de Hannibal nos livros. Mas agora, Bryan Fuller se libertou totalmente das amarras que o livro poderia trazer no futuro. Fuller sempre teve uma boa parcela de liberdade criativa, agora ele simplesmente multiplicou, de maneira correta, essa liberdade. Com essa segunda temporada, Fuller definitivamente deixou sua marca fortemente impressa no universo de Thomas Harris. Quando que a terceira temporada começa mesmo? O que será que essa mente insana de Fuller reserva para nós daqui para frente?

Aqui na série, podemos dizer que a história nada mais é que a história de amor perturbada, complexa e equivocada entre Hannibal Lecter e Will Graham, e esse episódio foi o momento mais sólido, lúcido e concreto disso. Não saber exatamente  onde morava a fidelidade de Will, de certa maneira, foi a cereja no bolo de uma incrível temporada. Nada foi banalizado. Will ama e admira Hannibal, e ao mesmo tempo luta para preservar seu lado saudável-não homicida. Era uma decisão difícil para Will, decisão essa que nós, a audiência, não saberemos com certeza e clareza, pelo menos não até a terceira temporada. Mas na real, acho que nem precisamos saber, afinal, para bom entendedor meia palavra basta. Bryan Fuller nunca subestimou a inteligência de quem assiste suas séries, e não acho que seja agora que ele começará.

O que precisamos realmente entender é que Jack e Hannibal representam os dois lados da moeda moral de Will. Hannibal é o lado incorreto, o lado cru e, infelizmente, livre, ou seja, o lado insano. Enquanto Jack é o lado recatado e politicamente correto, ou seja, o lado são. Essa é a versão de Bryan Fuller para o “bem” e o “mal”, que aqui se baseia em questões morais. No início do episódio, quando Jack e Hannibal se unem, foi a maneira certa de mexer e mostrar para nós que assistimos que não há como ter certeza qual dos lados realmente prevalecerá. Da mesma maneira que não há como entender qual dos lados do próprio Will prevalecerá. Ou seja, tudo que achávamos até ali estava meio correto ou meio errado, depende do teu ponto de vista.

Quando paramos e analisamos, vemos que essas incertezas contribuem para fazer da série única. Não há lados definitivos entre o “bem” e o “mal”. Não há linha divisória. Há sempre a confusão e a fusão de todas as nossas características e pensamentos. Nenhum ser humano é 100% bondade ou 100% maldade, essa foi a mensagem mais clara passada por Bryan Fuller. O caráter do ser humano é definido por decisões, ações que julgamos certas e por uma mente apta em distinguir entre o correto e o incorreto.

Mas, mais que guerra entre o “bem” e o “mal”, há o amor, e é exatamente isso que Bryan Fuller também nos mostra: como o amor pode nos ajudar a vencer ou então pode, facilmente, nos destruir. Pelo menos é assim que eu decidi encarar tudo que vi nessa season finale.

O amor fica ainda mais em evidência, quando falamos sobre Abigail Hobbs. Doce ilusão a nossa em achar que a mulher que conectava Will e Hannibal era Alana Bloom. Nunca foi. A mulher que conectou Will e Hannibal, tanto emocionalmente quanto psicologicamente, foi Abigail. Ela também foi a grande responsável pela ruína psicológica de Will, Hannibal só precisou dar um empurrão e estar lá para abraçá-lo, como antes abraçou a própria Abigail. Uma família feliz. Para entendermos a dimensão dessa conexão, basta lembrarmos que Will visitou Freddie Lounds, mesmo convicto de sua morte, para garantir a integridade moral de Abigail, para garantir que pelo menos sua alma fosse mantida inocente, já que a real Abigail nunca teria essa opção. Nada mais justo essa relação entre Hannibal e Will começar com Abigail e acabar com Abigail. Vocês também ficaram prestando atenção para ver se ela, realmente, estava sem a orelha?

Hannibal, no passado, disse o seguinte:

Occasionally I drop a teacup to shatter on the floor on purpose. I’m not satisfied when it doesn’t gather itself up again… someday perhaps, that cup will come together”.

Com essa frase conseguimos entender bem mais o que realmente foi a dinâmica Will-Hannibal, o jogo mental entre eles. Will foi a xícara de chá que Hannibal derrubou esperando juntar-se de novo. Will, de certa maneira, se juntou e até mudou, mas mesmo assim o resultado final não foi satisfatório para o Dr. Lecter. A cara de dor e decepção dele ao perceber que Will nunca foi, e muito menos tinha como ser, tudo aquilo que ele esperava foi de partir o coração.

Em momentos assim, em que amor e insanidade se encontravam, que o roteiro brilhou mais intensamente. Frases como: “Now that you know me, see me, I gave you a rare gift, but you didn’t want it…”, fizeram toda a diferença entre o total desgosto e a absoluta admiração. Sempre podemos confiar no roteiro de Hannibal, com seus poderosos diálogos. O que foi toda a cena entre Hannibal e Bella Crawford? Toda a metáfora de redenção, amor e até mesmo desejo? Então nós percebemos que, o que realmente moveu cada um desses personagens, foi a necessidade de sentir. Cada um com seu devido sentimento e motivo e em sua devida direção. Bella Crawford definiu precisamente:

Love and death are the great hinges in which all human sympathies turn…”

A Dra. Alana Bloom começou perdida e terminou perdida, isso é fato. Mas agora, ao menos, posso dizer que senti um pequeno indício de compaixão por ela. Afinal, quão difícil é a vida de uma mulher que ama dois homens que, na realidade, só tinham olhos um para o outro? O final de Alana foi, de certa maneira, o mais trágico. Jogada ao destino, digo pela janela, agonizando na chuva enquanto foi obrigada a ver seu maior engano sair livre, e mais ainda, livrando-se de seus pecados na chuva. Pobre Alana. Será que ela morrerá? Não sei, mas espero que sim.

Na realidade, eu não faço a menor ideia do que esperar de agora em diante. Quem morrerá? Quem merece morrer? Onde estou? Será que lembrar que a Alana ligou para a polícia antes de entrar na casa e decidir ser valente ao invés de continuar cega, faz alguma diferença? Mesmo assim, ponto para você Alana, que conseguiu fazer mais coisas certas em cinco minutos finais de um episódio, do que em duas temporadas inteiras.

Enquanto Will descobre, com a pequena ajuda de Garrett Jacob Hobbs, que o veado sempre foi a forma com a qual ele próprio se viu, durante o processo de sua transformação, Jack Crawford começa a colher os frutos de seus próprios erros de julgamento. Na review passada eu disse que Jack teria mais a perder que qualquer um, inclusive sua própria vida. Nesse episódio vimos exatamente isso. Jack perdeu qualquer tipo de poder que algum dia teve. Poder profissional, emocional e principalmente psicológico. Vemos com clareza que Jack foi um personagem totalmente perdido no meio de seus sentimentos de culpa. Culpa em relação à Will e à própria esposa, e no final essa culpa dominou todas as suas ações. Nessa season finale eu passei a admirar Jack, e compadecer com o quão perdido ele também estava durante todo esse tempo. Pacientemente esperamos por doze episódios para ver o desfecho do duelo Jack-Hannibal e no final não teve desfecho nenhum. Pode isso? Foi tenso!

Algum tempo atrás Bryan Fuller, influenciado por um de seus fãs brasileiro, deixou um recado no twitter. Hoje decidi compartilhar esse recado aqui, já que antes ele não era tão verdadeiro e propício quanto agora:

Assim só me resta dizer “até logo” e obrigada a todos que acompanharam as reviews, obrigada a todos que dividiram comigo o amor pela série, obrigada a todos os elogios e, até mesmo, a todos os xingamentos nos comentários e, finalmente, obrigada a todos que não gostam da série, mas que mesmo assim fazem questão de ler a review toda só para comentar como ela (a review) e a série são ruins e como não concordam comigo em nada. Sério, obrigada mesmo por me ensinarem muito. Até a próxima temporada, e que seja tão bela quanto essa foi.

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