Quem persegue quem?

Antes de qualquer coisa quero dizer que deixei acumular esses dois episódios de propósito, mesmo assim peço desculpas. Depois de assistir “Ko No Mono” achei melhor esperar pelo próximo episódio para fazer uma análise mais concreta e com visão mais ampla de todas as informações relevantes, afinal era certo que os acontecimentos do décimo primeiro episódio foram somente o aperitivo para o prato principal que seria servido em “Tome-wan”. Fiquei feliz por não estar errada.

Esses dois episódios foram um alento para as nossas teorias e principalmente para os nossos ânimos. Estávamos conscientes dos planos traçados por Will. Mesmo assim, finalmente posso admitir que, em mim, havia uma pontinha receosa quanto ao que de fato estava acontecendo. Afinal, ao se tornar uma cópia eficaz de Hannibal Lecter, se tornaria cada vez mais fácil para Will simplesmente perder o controle e deixar a criação ser maior que o criador. Sim, temi que Will pudesse se perder totalmente e sem possibilidade de volta, sendo assim, uma parte de mim tinha medo que ele realmente tivesse matado Freddie Lounds.

Admito também que esse medo se intensificou um pouco mais quando vi a icônica cena do corpo flamejante descendo a rampa do estacionamento em uma cadeira de rodas. Essa cena, linda, faz parte do livro e do filme e é muito importante para o desenvolvimento da trama. Nela o corpo em questão de fato é do jornalista Freddie Lounds. Foi aí, junto com a constatação do FBI, que meu coração apertou um pouco, cheguei até a pensar: “nossa Fernanda, não é possível que você esteja tão errada quanto a tudo que está acontecendo nessa série”. Nesse momento, finalmente entendi como Alana Bloom deve se sentir a todo o momento. E então Bryan Fuller nos mostrou, novamente, o real significado da palavra “adaptação”. Bryan, cada vez mais, mostra que pega os elementos, os personagens e as situações do livro e faz o que bem entende com eles, de maneira eficiente e que faça sentido. Bryan está construindo sua própria história e por tabela joga em nossas caras que de nada adianta ter lido o livro, nós não teremos total conhecimento do que acontecerá na série. Bravo Sr. Fuller.

De várias maneiras Will é o aprendiz, mais eficiente e produtivo, de Hannibal Lecter. Ao mesmo tempo, vemos que suas ações são feitas para justificar os fins, independente de quais sejam esses fins. Agora não há mais lugar para dúvidas. Freddie Lounds está vivinha da Silva, e divando na presença do FBI. Assim, me obrigo a dizer que a Dra. Alana Bloom deveria cavar um buraco no chão e enfiar sua cabeça lá dentro, afinal, quão vergonhoso é para uma psicóloga, que tem fama de ser brilhante, perceber que não sabe nada sobre nada e que está (quase) sempre  errada sobre tudo ao seu redor? Alana tem uma péssima percepção de caráter. Fato é que ela é a rainha do julgamento precoce e merece se dar mal simplesmente por se achar a dona da razão e da verdade. Mas devo tomar cuidado já que há possibilidades de eu morder minha língua e Alana pode, no final, salvar o dia.

Analisando friamente, “Ko No Mono” foi o episódio mais morno da temporada (desculpa o trocadilho infame). Um episódio feito meramente para amaciar o terreno para o episódio seguinte e, principalmente, para a season finale que está logo aí. Mas, mesmo em um episódio morno, tivemos a entrega absoluta e nítida da ideia do que consiste o relacionamento Mason-Hannibal-Will, e que coisa mais sensacional e linda foi presenciar a dança entre esses três personagens.

Em particular, há um aspecto no relacionamento entre Will e Hannibal, nessa segunda temporada, que sempre me intrigou, e por alguns instantes até me incomodou: mesmo que Hannibal somente dance em volta do assunto de seus crimes, ao meu ver, há sim base para Will prendê-lo e essa relutância, e até mesmo a necessidade que Will tem em estar certo, poderia colocar tudo a perder. A necessidade de conseguir provas mais concretas me preocupava um pouco, não somente por coerência mas também pelos perigos iminentes de personalidades alteradas. Mas ao mesmo tempo entendo que esse é o tom do relacionamento, da dança e do jogo entre os dois, portanto não ousei contrariar e/ou discutir isso.

Colocando essas preocupações de lado, esses dois episódios serviram também para nos lembrar o quão inteligente o roteiro dessa série é. A magia, o atrativo e a genialidade de Hannibal não se ampara somente em violência escancarada, e sim, também, em influência inteligente. O Dr. Lecter é ainda mais perigoso justamente por isso, por influenciar com tamanha precisão, facilidade e elegância. Hannibal não precisa, efetivamente, sujar as mãos para ser extremamente letal. Dra. Bedelia Du Maurier, Will Graham, Mason Verger, Randall Tier, Dr. Frederick Chilton, Margot Verger e muitos outros são provas disso. Hannibal brinca de manipular a vida de todos e depois só precisa esperar pacientemente para colher os frutos dessa brincadeira. Esse jogo intricado e essa espera incessante fazem parte de sua motivação, que consiste em analisar a consciência e natureza da mente humana e testar o limite de até onde as pessoas estão dispostas a chegar com a ajuda e com o incentivo certo.

O modus operandi de Hannibal consiste simplesmente em jogar gasolina, acender o fósforo e esperar, confortavelmente, a explosão. O que ele fez com os irmãos Vergers, e por tabela com Will, é prova disso. Ele jogou a gasolina, ao colocar a ideia de um herdeiro na cabeça da Margot e acendeu o fósforo, quando contou essa ideia para o irmão sádico dela. Will, como na maioria das vezes, foi vítima do impacto e ficou bem no meio do fogo cruzado entre Vergers e Hannibal Lecter.

Tudo bem que no final percebemos que a vítima maior sempre será Will. Direta ou indiretamente. Dr. Lecter não permitirá à Will nem ao menos a ideia de uma normalidade e/ou sanidade, e era exatamente isso que uma eventual paternidade poderia trazer. Sendo assim, Hannibal corta esse mal/possibilidade pela raiz. Will é o brinquedo definitivo e Hannibal Lecter não está pronto para abrir mão desse brinquedo.

Dra. Bedelia “Deusa” Du Maurier voltou para, além de nos encantar em cenas de diálogos bem escritos e interpretados, jogar na nossa cara que ninguém manipula Hannibal Lecter. Muito pelo contrário, Hannibal tem seus movimentos devidamente calculados e todos estão exatamente no lugar que ele planejou. Dra. Bedelia entendeu isso da pior maneira possível. Se alguém desconfia de Hannibal Lecter é simplesmente porque ele permite isso, e qualquer noção diferente não passa de uma doce ilusão. Tudo que vemos é o “chicken game” comandado por Lecter. O seu design. Agora, tudo indica que, Hannibal realmente acenderá o fósforo definitivo e quem piscar estará perdido. Mason Verger que o diga.

Will, aparentemente, começa a entender o mecanismo Lecter, e paulatinamente percebe que não precisa sujar, muito, as mãos, basta entrar na dança de Hannibal. E foi exatamente isso que ele fez com Mason Verger. Ao invés de buscar vingança, depois da brutalidade totalmente sádica que Mason fez com a irmã, Will decidiu usar o que tem em mãos em prol do objetivo maior, provando assim que entrou de vez na dança. E como bom dançarino, bastou manipular Mason ou “alimentar seus próprios porcos”, para conseguir a confiança (quase) plena de Hannibal, e assim finalmente conseguir uma “confissão” um pouco mais concreta dele, já que agora ele pretende mostrar um pouco mais do Chesapeake Ripper para o seu amigo, cada vez mais perdido, Jack Crawford.

Pobre Jack Crawford, que se julga um bom pescador quando na realidade não passa de, mais um, peixe. Ok, ele conseguiu achar a Dra. Bedelia, e assim, conseguiu um pouquinho mais de provas. Fato é que, Jack pode vir a ser aquele que mais perderá nessa história toda. Não estou falando somente da sua vida, e sim da sua persona de autoridade, de agente do FBI. Ainda mais quando ele deixou várias coisas fugir de seu controle, e claro, muitas mais fugirão até o final dessa temporada.

Mas vamos falar do que realmente interessa hoje? Mason “Fucking” Verger. Eu digo para vocês que uma determinada cena de “Tome-wan” foi muito difícil de assistir. Nem lembro quando foi a última vez que senti tamanha angústia ao assistir uma série. O que mais me impressionou nessa cena, foi perceber o quanto eu queria fechar os olhos e ao mesmo tempo não queria e não conseguia. Estava totalmente hipnotizada pelo que estava assistindo. Devo dizer que, após a cena fatídica, eu pensei muito em como e quais eram os motivos que fizeram eu achar algo totalmente macabro e nojento, simplesmente formidável. Fiquei espantada me perguntando como, no final daquela cena totalmente horripilante e claustrofóbica, eu fui capaz de esboçar um sorriso. Sim, minha gente, a mente humana realmente é imprevisível e bons diálogos em uma série fazem toda a diferença. Mas na realidade é fácil entender o porquê há atração por cenas assim em Hannibal, já que a série consegue misturar, com qualidade e inteligência, situações totalmente “gore” com situações sem uma gotinha de sangue e ambas possuem o mesmo efeito aterrorizador em quem assiste. Não é somente violência gratuita e sem significado. Esse é um dos grandes trunfos de Hannibal, e faz da série única e especial.

Quero deixar claro, que quando o episódio acabou eu levantei e bati palmas lentas para Michael Pitt, que de maneira fantástica mostrou a mistura de insanidade e de charme que Mason tem. Ao mesmo tempo que Mason é totalmente insano ele mostra uma inteligência e uma aura de poder que é magnífica de ver. O destino de Mason na série foi similar aos livros. No livro, Mason também é convencido por Hannibal a cometer automutilação, claro que em circunstâncias diferentes. Mesmo querendo ver bem mais desse relacionamento doentio entre Mason e Hannibal, digo que achei propício Bryan Fuller nos trazer essa evolução rápida. Como eu já disse, Bryan Fuller consegue pegar os elementos importantes do mundo de Thomas Harris e faz desses elementos seus, o seu design. Basta entendermos  se, e como, Mason seguirá de agora em diante.

Mas o importante mesmo é ter a noção que Mason sofrerá um bocado na mão de Margot. Vocês também notaram o brilho nos olhos dela ao ver o irmão tão frágil e incapacitado? “You go girl”! Claro que o futuro desses dois personagens tem tudo para ser brilhante, principalmente Mason, que partirá em busca da sua vingança. Foi exatamente por isso que ele escondeu a verdade de Jack Crawford. Mason quer ser a pessoa que atormentará e aniquilará Hannibal Lecter, e não admitirá ninguém além dele fazendo isso.

É então, nesse momento, que eu dividirei com vocês minha pequena “aflição”. Quando será que veremos os Vergers de novo? Hannibal foi renovada (obrigada NBC, não te xingarei durante um ano) e a tendência agora, é Bryan Fuller entrar mais nos acontecimentos do livro “Dragão Vermelho”, já que o que vimos até aqui foi uma espécie de prelúdio desses acontecimentos. Mason executa sua vingança a partir do livro “Hannibal”, então, como ficará o personagem nesse meio termo? Sim, eu mesma disse diversas vezes que Bryan Fuller usa elementos do universo e faz o que quer com eles, inclusive a timeline dos acontecimentos está totalmente livre, mas há um breu de acontecimentos que não precisam da presença de Mason, até mesmo porque ele precisa amadurecer mais. Mesmo assim, espero que Fuller continue usando ambos os Vergers, já que ele conseguiu deixá-los ainda mais interessantes, principalmente a Margot. Espaço na história, creio eu, eles têm. Mas eu confio em Bryan Fuller e a verdade é que, se a terceira temporada trouxer  o “Fada dos Dentes”  não precisarei de mais nada, me sentiria igual à uma criança em véspera de Natal, ou uma criança na Páscoa, ou uma criança vendo Harry Potter pela primeira vez, bom, vocês entenderam como eu me sentiria.

A season finale está aí, batendo na porta, e Hannibal continua traçando seu fantástico caminho de qualidade televisiva. Que venha a season finale, que venha a terceira temporada e que seja tão boa e consistente quanto essa segunda.

Não podemos esquecer de parabenizar Bryan Fuller por finalmente quebrar sua maldição de duas temporadas. Por enquanto me despeço de vocês com essa singela mensagem dos patrocinadores:

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