A morte não é a tragédia, a tragédia é o desperdício!
Em mais um ótimo episódio, Hannibal nos leva além dos joguetes do destino, afinal é certo que, o que vemos aqui é um poderoso jogo, disputado entre duas pessoas formidáveis e brilhantes. Basta olharmos com mais atenção para entendermos que Hannibal é exatamente isso, uma grande partida, de um dos mais bonitos jogos, de xadrez psicológico que eu já vi. Todos ali são jogadores, claro que uns jogam mais intensamente que os outros, mas, absolutamente todos ali estão jogando. Sejam eles peões, cavalos, torres, bispos, rainhas ou reis.
A cada novo episódio, Hannibal nos mostra um retrato preciso e assustador da natureza humana, do limite entre sanidade e insanidade, do certo e errado e até mesmo a diferença, que aqui é retratada de maneira sutil, entre o bem e o mal. Já dizia Carl Jung: “Nós precisamos entender melhor a natureza humana, porque o único perigo real que realmente existe é o próprio homem”.
Meu querido amigo Thiago Lourenço, em um de seus vários momentos de iluminação, definiu muito bem o que a série representa. Thiago me disse que, os seres humanos possuem todos os tipos de pensamentos conflitantes, e o que diferencia uma pessoa da outra, é exatamente o que cada um decide fazer com esses conflitos que podem, rapidamente, resultar em todo tipo de perturbação e psicose. É exatamente isso que a série nos mostra a cada novo episódio. Afinal, a mente de Will talvez não seja tão insana quanto a de Hannibal, mas a diferença, agora, é o que Will decidiu fazer com a parte da sua mente que, de fato, é insana. Sendo assim, não é por acaso que vemos Will se tornar, cada vez mais, aquilo que antes o amedrontava e repelia.
Mas a realidade é que ambos, Dr. Lecter e Will, são severamente egoístas. Cada um, em seu devido mundo e com sua motivação particular (mesmo que bastante conectadas). Não importa quem está no meio do caminho. Will é o objetivo de Hannibal e vice e versa, e nesse inteligente e intenso jogo de xadrez entre os dois, Alana Bloom, Jack Crawford, Beverly Katz, Dr. Gideon e afins são as peças descartáveis desse tabuleiro, os tais peões.
Toda ação tem uma reação e um resultado. O resultado direto das ações de Will Graham foi o relacionamento Alana Bloom-Hannibal Lecter, que já incomodava pela simples ideia de existência, e agora que essa ideia foi concretizada é esperar pelas repercussões bombásticas. Alana se sente traída por Will e busca consolo naquele que, em sua visão, foi igualmente traído. Em sua versão de sofrimento, ela crê que o único capaz de entendê-la, realmente e profundamente, é Hannibal, e assim ela passa a ter uma perigosa conexão e responsabilidade direta no que acontecerá na série, de agora em diante.
Bryan Fuller acertou em cheio ao juntar esses dois personagens, porque além do incomodo para nós que assistimos a série, há o incomodo direto imposto à Will, que agora terá que ser forte e prosseguir com seus ideais , independente se isso passe a ser prejudicial para aqueles que ele antes queria/tentava proteger.
Outra incomodação, precisamente certeira do Sr. Fuller, diz respeito ao Dr. Gideon. Afinal, não basta nos confundir com a beleza dos atos de antropofagia mergulhados em um visual estético arrebator, agora precisamos também nos maravilhar com atos de autoantropofagia. Digo que naquela cena entre Hannibal e Dr. Gideon eu fiquei totalmente rendida e impressionada em ver como o sutil e significativo diálogo entre os dois foi devidamente amarrado em um ato de total brutalidade. Sim, automaticamente, fechei meus olhos no momento em que Abel Gideon ingeriu sua própria perna. Digo que essa reação foi mais significativa que qualquer reação diante de sangue jorrando na tela. Bryan Fuller entende isso, e sabe como poucos o que deve ser feito para pressionar os botões corretos e prender a atenção de sua audiência, eis a prova aqui.
De uma certa maneira os “assassinatos da semana” vêm para fortalecer, cada vez mais, a importância dessa mistura entre beleza e violência que vemos na série. Além de mostrar e conscientizar que, atos puramente brutais vêm de mentes brilhantes e personalidades elegantes. Mas dessa vez, o “homem árvore” veio, também, para acender de vez o barril de pólvora que é a disputa entre Hannibal Lecter e Will Graham. Hannibal decidiu trazer a briga para campos mais amplos e é exatamente por isso que ele decidiu fornecer o necessário para inocentar seu oponente. E que maneira sutil ele escolheu, já que ao colocar pedaços de todas as supostas vítimas de Will em sua obra de arte, ele forneceu todas as ferramentas necessárias para Will entrar de igual no jogo e até mesmo para Jack Crawford atingir a lucidez. Alguém tinha dúvidas que Hannibal não sucumbiria facilmente, ainda mais através de testes da comida servida em seus jantares? Dr. Lecter é uma mente incrivelmente brilhante e competente, e ponto.
Miriam Lass está de volta, deixando ainda mais forte a sensação que, o que Beverly viu antes de morrer foi o frigorífico pessoal de Hannibal Lecter. Por enquanto, direi somente que boa parte do braço de Miriam jaz no estômago de Jack Crawford.
E é assim, misturando toda forma possível de arte (poesia e música) e insanidade, brutalidade e barbaridade que Hannibal escreve, cada vez mais e de forma mais profunda, seu nome como uma eficiente e diferente obra prima televisiva.















