Escrever sobre o episódio de Grey’s Anatomy dessa semana não é uma tarefa fácil. Como homem, não me sinto no direito de ser parte da conversa tão importante que esta hora de televisão teve com seu público. Foi um daqueles momentos que se tornam clássicos automaticamente, tanto pela relevância do tema tratado quanto pela forma como tudo foi discutido.
Usar o passado de Jo para abordar violência sexual foi algo um pouco injusto com uma personagem que já passou por tanto. Adicionar mais uma tragédia ao currículo dela soa um pouco masoquista até. Porém, a construção do episódio, com ela tendo que lidar com a descoberta de ser fruto de um estupro e lidar com uma vítima logo em seguida, encadeando os flashbacks com os momentos no hospital, tudo ali deu certo. O resultado foi um episódio poderoso, que conseguiu passar uma mensagem bem clara quanto à cultura do estupro que existe em nossa sociedade.
O que essas duas mulheres passaram é algo terrível por si só, mas ver as consequências do terror que é ser violentada e como a sociedade colabora para piorar uma situação já tão assustadora é de partir o coração. O episódio sobre muito bem mostrar como a vítima se sente culpada pela violência sofrida, sempre procurando algum ato, alguma ação que pode ter dado causa à violência. Para nossa sociedade, a mulher tem que se dar ao respeito, se vestir de maneira “decente”, não pode isso, não pode aquilo. A conversa nunca parece ir no outro sentido, de que o homem deve respeitar a mulher, que não é não.
Pelo menos nos últimos tempos vemos um esforço de mudar essa situação. Cenas como Ben conversando com Tucker sobre consentimento e respeito representam bem essa mentalidade. O que impede isso de ocorrer mais nos dias de hoje é o machismo que ainda impera em nossa sociedade. Quando os homens entenderem que tratar mulheres com o respeito que elas merecem não os fazem menos homens e sim mais seres humanos, teremos um mundo melhor.
A forte cena onde um corredor de mulheres se forma para dar apoio à paciente foi um momento especial do episódio. As mulheres todas ali se apoiando e criando uma rede de proteção em um momento tão delicado foi algo muito forte, especialmente com uma execução relativamente simples. Outro momento impactante foi o recolhimento do kit de estupro, ouvir a vítima dar consentimento para a ação das médicas criou uma imagem bastante interessante, com ela tomando de volta o controle sobre seu corpo depois do que aconteceu.
Os traumas causados pela violência sexual também são expostos de uma maneira bastante clara. Do trauma imediato mostrado por Abby ao não conseguir olhar para um homem sem ver o rosto de seu agressor, chegando à experiência da mãe de Jo, que não conseguiu ficar com uma criança que lhe lembrava da violência sofrida.
A conversa entre mãe e filha foi especialmente dolorosa para ambas. Enquanto Vicki tinha que encarar um fantasma do seu passado, Jo tinha que processar tudo aquilo. O ressentimento que ela tinha pelo abandono pela mãe ganhou outra dimensão. Até onde ela podia culpar aquela mulher por ter feito o que fez? A revelação do aborto do bebê de Paul adicionou outra camada densa à personagem e a todo o pensamento dela e Alex terem filhos. As consequências das descobertas dessa semana para Jo ainda estão muito em aberto e o quanto isso pode afetar os relacionamentos dela.
E antes que apareça alguém pra dizer “Ah, mas nem todo homem…”, que fique claro que se você respeita as mulheres e as trata como elas merecem, as críticas contidas nesse texto (e em todos os outros de teor parecido) não são para você. Se a carapuça serviu, talvez você tenha que repensar suas atitudes, mas se você não tem culpa no cartório, você deve ser um aliado e espalhar suas atitudes corretas, mudar pessoas para o melhor.
Por fim, é imprescindível elogiar Camilla Luddington, Khalilah Joi (Abby) e Michelle Forbes (Vicki). As três tiveram performances espetaculares em um episódio muito difícil, que exigiu muito delas em vários aspectos.
Grey’s se separa um pouco de sua narrativa para abordar um assunto socialmente relevante, entregando um episódio perfeito, que conseguiu entregar aquilo que se propôs. Televisão é, em primeiro lugar, entretenimento, mas quando isso pode ser aliado a momentos de conscientização como este é que ela atinge seu verdadeiro propósito.
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