Será que Grease: Live! manteve o nível de suas inspirações?

A onda de musicais ao vivo começou com a NBC em 2013, quando o espetáculo “The Sound of Music” foi remontado e adaptado para as telas, com a adição do “Live!” no final. Com o sucesso de 18 milhões de espectadoras, tivemos sequências do formato. Nos anos seguintes, a emissora sentiu o gosto do fracasso com “Peter Pan Live!” e do sucesso de crítica e audiência com “The Wiz Live!”. E não para por aí: no fim deste ano, “Hairspray” será adaptado, e em 2017, é provável que seja a vez de “Bombshell” – musical projetado no seriado “Smash”, mas que nunca saiu do papel.

A FOX viu a oportunidade, e agarrou. “Grease: Live!” foi uma aposta gigantesca. E ousada. “Grease”, de 1978, continua como um dos 20 musicais de mais sucesso da história, sem falar na trilha sonora, que fica pareada com a de “The Bodyguard” nas mais vendidas da história. Foi o grande boom de Olivia Newton-John para o mundo, além de captar John Travolta em sua melhor fase. Diferentemente da versão original, que vem da Broadway, o filme era focado quase que completamente no casal principal – Sandy e Danny. Os coadjuvantes eram participações especiais. Thomas Kail e Alex Rudzinski não queriam isso, e junto ao canal convocaram grandes nomes para os demais papeis, prometendo uma versão mais fiel à original teatral. Mas, como (re)fazer isso sem tirar as músicas escritas exclusivamente pro filme? Na Broadway, não havia “Hopelessly Devoted To You”, “Sandy” ou “You’re the One That I Want”.

Na verdade, a versão teatral de “Grease” tem várias distinções do filme. Num breve resumo, Sandy não ia ao baile de formatura e ficava em casa devido ao mau tempo – daí a música “It’s Raining On Prom Night”, que era um solo da personagem Marty. Esta que, inclusive, tinha muito mais destaque: dava voz também à “Freddy My Love”. Patty e Eugene tinham um papel maior, num leve romance, enquanto nas telas eles nem se viram.

O consenso final foi uma junção das versões. Poderia ter ficado horrível, mas ficou bom. No entanto, esta homenagem pode ficar meio confusa para os que são fãs apenas do filme. Sandy e Danny não se destacam tanto aqui – aliás, o efeito foi completo contrário ao do cinema. Mas isso não é ruim.

O elenco tem seus altos e baixos. Vanessa Hudgens (de High School Musical e Gigi) começa instável no papel de Rizzo, mas da metade pro final consegue chamar mais atenção que os protagonistas e chegar ao seu ápice na excelente rendição de “There Are Worst Things I Could Do”. Vale lembrar que a atriz perdeu seu pai no último dia 29 e dedicou o espetáculo a ele. A performance de Hudgens surpreende em seu saldo final – e agora é fácil entender porque ela aparece nos posters promocionais ao lado do casal. Por outro lado, Carlos PenaVega (de Big Time Rush) falha em entregar um desempenho convincente de Kenickie e faltou química com a Rizzo.

Em outras linhas, Carly Rae Jepsen (de Cinderella) em sua Frenchy foi “ok”. O solo da personagem, “All I Need Is An Angel”, escrito exclusivamente pra esta versão da tv, foi bom, mas não foi tão marcante. Na verdade, a aparição de Didi Conn, que fez Frenchy no filme original, chama bem mais atenção. Aliás, fiquei muito feliz de ver a atriz no especial, com seu sorriso inconfundível – e que continua igual, mesmo depois de quase 40 anos. Aqui, ela fez o papel da garçonete Viola. Quem também esteve no filme e deu uma aparecida no evento foi Barry Pearl, que fez Doody em 1978 – personagem que, nesta versão, tem seu solo em “Those Magic Changes”. Ele é o par romântico de Keke Palmer (de Scream Queens), que fez um trabalho satisfatório em trazer destaque à Marty. Apesar de não ser impressionante, é muito bom ver “Freddy My Love” ser relembrada nas telas.

Por último, deixei os protagonistas. Julianne Hough (de Rock of Ages e Footlose) não tem a sutileza de Olivia, mas trouxe uma nova interpretação à Sandy – e isso é ótimo! “Look At Me I’m Sandra Dee (Reprise)” ser cantada duas vezes mostrou a fidelidade à versão teatral. Até a canção indicada ao Oscar, “Hopelessly Devoted to You”, que poderia ter ficado bastante fora de lugar, se encaixou de alguma forma.

Julianne conseguiu até ter uma química convincente com Aaron Tveit, que ficou em uma situação… delicada, digamos assim. Aaron (de Os Miseráveis e Graceland, sem citar a extensa carreira na Broadway), não imprimiu muito bem o Danny Zuko – nem o do teatro, nem o do cinema. Em algumas situações não ficou natural, pareceu forçado e não convenceu. Além do mais, o ator tem 32 anos e aparenta tal, o que torna mais complicado ainda de imaginá-lo no ensino médio. É fácil deixar passar os 28 anos de Julianne (mesma idade que Olivia tinha na época do filme), mas com Tveit foi difícil. Ainda assim, o ator entregou uma boa performance de “Grease Lightnin’”.

E a audiência, como ficou? 12 milhões de espectadores (1 milhão a mais que “The Wiz Live!”, de Dezembro/15), além de 4.3 na demo – “The Sound of Music Live!”, o maior sucesso da NBC, possui 6 milhões à mais, mas a demo é de 4.6, pouca coisa a mais.

E a crítica, como ficou? Geralmente positivas, mas com olhos pra Vanessa Hudgens. Hoje, a imprensa americana só falava dela e de como ela impressionou e roubou os how – ainda mais com o infeliz incidente de seu pai.

Como um produto/evento em geral, “Grease: Live!” não decepcionou. Eu já sabia que seria muito difícil conciliar as duas versões, que tem grandes divergências, mas os diretores e roteiristas conseguiram fazer isso muito bem. Foi divertido ver Jessie J cantando a abertura, foi nostálgico ver Boyz II Men na ativa fazendo papel de anjos, foi ótima a participação da banda DNCE (Joe Jonas) substituindo a original Sha Na Na. Os números musicais ficaram à altura, e imaginar que aquilo tudo é ao vivo torna mais emocionante ainda. Nem mesmo o mais experiente ator de teatro musical não ficaria nervoso ao cantar, atuar, performar ao vivo num evento televisionado. Por isso, finalizo dizendo que o espetáculo foi uma bela homenagem – ao filme de 1978 e ao espetáculo que tomou conta dos palcos em 1971.

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