O imaginário chinês é repleto de lendas fantásticas. Esse apreço por histórias mirabolantes é refletido diretamente no cinema produzido no país, principalmente nos anos mais recentes. Com esse viés fantasioso apresentando tanta força, não é incomum que grandes marcos históricos sejam revestidos de uma camada de conspiracionismo, dando origens irreais a monumentos e pessoas da história real. O que fica reforçado pela cartela de informações logo no início do filme: “Essa é uma das lendas acerca da Grande Muralha da China”.
Lenda ou não, o filme de Zhang Yimou necessita de um notável desprendimento de crença para que funcione, com seu fantasioso roteiro que mistura várias referências claras e outras nem tanto, numa obra de inegável apelo visual (típico do diretor), mas que escorrega aqui e acolá em alguns pontos da narrativa. Fica difícil, para não dizer quase impossível, comprar a grande ameaça do filme em uma primeira visualização. Os Tao Tei, grandes “lagartos” com olhos nos ombros (que remetem as esculturas de jade típicas do Império), se assemelham bastante aos kaijus e outros monstros típicos de outro país asiático: o Japão. Essa é apenas uma das referências mais obvias, já que de “Independence Day: O Ressurgimento” a “Game of Thrones”, dando uma paradinha em “Attack on Titan”, o filme recorta e cola diversos desses aspectos visuais fantásticos advindos dessas obras para construir uma ação potente, mas um tanto quanto estranha, culpa de um roteiro escrito a seis mãos baseado numa história igualmente escrita a seis mãos.
Falando em visual, como todo bom filme de Yimou (quem já viu “O Clã das Adagas Voadoras” e “Herói” sabe bem do que falo) o visual é de tirar o chapéu. Dos cenários grandiosos aos figurinos magníficos, tudo salta aos olhos. Ainda mais quando esses elementos se unem nas melhores sequências de ação, embalada pela trilha de Ramin Djawadi, que direcionada a um público mais oriental, acerta nos momentos de euforia e de drama. O elenco chinês, repleto de estrelas locais, não faz feio, com destaque para Tian Jing (verdadeira protagonista do filme, devido sua força narrativa e cênica) e Andy Lau.

No elenco ocidental as coisas complicam mais um pouco. Não que as atuações de Matt Damon e Pedro Pascal sejam afetadas, longe disso, mas a necessidade deles na narrativa é facilmente refutada. Tirando o plot da busca pela pólvora, a história deles poderia muito bem ser reduzida ou até mesmo excluída, já que todo o núcleo chinês poderia muito bem sustentar o filme por si só sem maiores problemas. Talvez isso tenha sido feito na intenção de, ao usar uma figura reconhecível, aproximar o espectador ocidental de uma trama majoritariamente oriental. A sensação de um “white savior” sendo empurrado goela abaixo, em pôsteres, trailers e todo material de divulgação pode, no entanto, deixar um gosto amargo para alguns.
A Grande Muralha é visual acima da narrativa, forma acima da função. É necessário estar disposto a compactuar com as liberdades tomadas pelo roteiro para achar o filme compreensível. Passado esse obstáculo, a diversão está garantida do começo ao fim. Yimou continua entregando seu apelo estilístico característico, desta vez numa obra que soa atípica dentro do conjunto de sua filmografia, por sua roupagem levemente sci-fi envolta numa bela reprodução histórica. Nada que o mercado chinês, já habituado com as fantasiosas histórias, não salve da bancarrota total, como uma muralha protegendo o império da destruição certa.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Universal Pictures Brasil
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