Grace and Frankie termina sua segunda temporada com um episódio chamado The Coup, mas, longe de usar a palavra para chamar atenção à situação política nacional, como alguns atores fizeram em Cannes (e como o resto da mídia mundial tem se referido, para falar a verdade), a série decide encaminhar o futuro de sua trama para seu já confirmado terceiro ano. A temporada foi toda focada novamente na dificuldade de seguir em frente diante desse passado tão recente que as protagonistas precisaram enfrentar. Elas lidaram de forma mais madura (na maior parte do tempo) nos últimos doze episódios, mas, ainda assim, estão descobrindo aos poucos como é estar solteira tendo rótulos e formas de tratamento frias de uma sociedade que já não as considera da mesma forma — ou de forma alguma. O décimo terceiro episódio foi perfeito para fazer essa ruptura, por mais mirabolante que ela se torne dentro dessa narrativa que brinca com os limites do embaraçoso e escatológico na sua forma de fazer humor.
Centrado na festa de aniversário de uma das personagens secundárias, o episódio prova, dessa forma, como a série aprendeu a usar seu elenco de reforço nesse segundo ano, diferente dos erros e incidentes ocorridos dentro da narrativa bagunçada do ano passado. Nessa temporada, os atores que completam o quarteto (e suas respectivas personagens) foram usados como participação dentro das subtramas, como suporte, não fugindo da proposta da série ou recorrendo a truques fáceis e equivocados para preencher tempo em tela e desviar a atenção daquilo que realmente gostaríamos de saber.
Mesmo estando em situação parecida, no que diz respeito a terem sido abandonadas depois de quarenta anos de casamento, Grace e Frankie são bem diferentes e lidam com conflitos diferentes. Além disso, a visão de mundo delas é bem oposta, o que influencia diretamente na forma como resolvem (ou não) seus problemas e os problemas que o mundo lhes empurra.
Frankie, sempre a ponto de fazer algo muito artístico ou muito louco, é abraçada pelos familiares e cercada de carinhos inoportunos, que, na verdade, são mascarados por preocupações que não fazem tanto sentido, mostrando apenas o grau de condescendência com a qual uma mulher de sua idade pode ser tratada pelos filhos ou pelo marido. A pintora descobre de forma cruel uma mentira muito bem intencionada do ex-marido, que, desesperado por lhe fazer acreditar em si mesma, fez a única coisa que vai no sentido oposto a esse pensamento. É compreensível a explosão dela, e a torcida é de que busque distanciamento de toda a falsa bondade que Sol vive tentando lhe propor. Gostei também do desabafo com o filho e o modo como deixou a entender que, sim, sabe muito bem o que ele pensa dela. Condescendência disfarçada de carinho também é uma forma de desrespeito.
Grace, por sua vez, mostra uma surpresa não muito bem compreensível ao descobrir que o marido não era tão espontâneo quanto parecia. Desde a primeira temporada, seu casamento com Robert (desde a primeira cena, na verdade) sempre fora mostrado como algo gelado, controlado com muita precisão e frieza por ela. Grace não gosta muito de Robert, nem ele dela, tendo ambos mantido o casamento por tanto tempo apenas por comodidade. Nesse caso, por mais difícil que seja descobrir novas mentiras dele, não entendo a paranoia dela. Claro que esse é um daqueles casos em que nossa análise fica tão distante quanto se é possível analisando uma obra de ficção, e só passando por isso mesmo para saber. Sinto, mesmo assim, que a protagonista precisa desapegar de tudo de bom ou de ruim que possa vir de seu ex-marido e focar apenas na sua vida.
Para finalmente seguirem em frente, e dessa vez de forma definitiva, as duas amigas, em primeiro lugar, assumem alto e claro a amizade e os benefícios de uma ter a outra. Nas situações boas e ruins, a convivência entre elas tem se mostrado cada vez mais solidificada. O negócio referido durante a cena de explosão final (uma das melhores da série) deve mesmo ganhar espaço na próxima temporada, e aposto que gerará momentos bizarros.
Grace and Frankie termina sua segunda temporada intacta, inteira e deixando a entender que ainda pode render muito. A série foi de bons a ótimos episódios, nunca permitindo que seu ritmo caísse e alternando entre drama e comédia de uma forma exemplar. Com um elenco inquestionavelmente competente, a produção fecha seu ano já pronta para o próximo, e nós ficamos com essa vontade de querer mais e mais episódios, para maratonarmos e assistirmos com a pressa que a série requer. Mesmo com seu ritmo devagar no decorrer de seu enredo, Grace and Frankie é urgente, necessária e fala sobre assuntos que já deveriam ser pautas, se não estivéssemos preocupados demais tornando pessoas da terceira idade invisíveis.
ps: alguém dá um prêmio para a Lily Tomin, por favor!? obrigado!






















