Após seis episódios, Grace and Frankie decide enfrentar de maneira mais direta as consequências do acontecido na season finale passada. Pensando em quantidade, principalmente em uma temporada de treze episódios, o ritmo da série pode soar estranho, mas ele foi conduzido de uma forma tão crível e divertida que não ficam dúvidas sobre ter sido correto o modo como deixaram para tratar desse assunto somente agora. Não houve toda a catástrofe emocional esperada, ou pelo menos ela não foi mostrada. Isto foi bom, pois o mais interessante na série é a forma como os dramas pessoais vão se desenvolvendo, sem a necessidade de partir para o ataque pelo ataque. A força do texto da série está em sua maturidade, nos diálogos sempre realistas e dolorosos, deixando de lado o cataclismo das relações e trabalhando sobre suas veredas.

Grace e Frankie são arrastadas novamente para o relacionamento de Sol e Robert, mesmo quando já estavam a caminho de seguirem sem eles. Esquecê-los não é uma possibilidade, por mais independentes e livres que elas estejam do rancor que lhes guardaram por certo tempo, mas é possível viver além disso — e é o que tentaram fazer nas últimas semanas. É cruel a forma como elas sempre se veem no meio das situações que diz respeito ao casal homossexual, e isso foi bem levantado no texto. Os problemas e prazeres que o casal tem deve ser abordado e tratado entre eles, sem necessidade de voltar para a ex-esposa e sua companheira de casa, porque estas não podem ou devem viver como se suas vidas fossem uma extensão das dos homens que as enganaram por mais de vinte anos. Grace, sempre racional, faz bem em apontar que não se volta para o velho quando o novo não dá certo: resolve-se com o novo.

Uma coisa que a produção não havia tratado até então, mas que aparece aqui, é a relação “diagonal” entre os casais no passado. O relacionamento de Robert e Frankie ou Sol e Grace só apareceu em poucos momentos, mas apenas ligados às questões referentes a traição e seu alcance. Nada fora dito sobre uma possível amizade entre eles. Gostei que esse ponto foi levantado aqui, pois a situação pede, e ele é muito relevante. Os próprios ex-casais tiveram cenas bem impactantes, com destaque para Grace e Robert e a ansiedade que ela estava para lhe deixar saber tudo o que tinha sentido e impedir que ele julgue a moral alheia, sendo que não é a pessoa certa para isso. A maravilhosa Lily Tomlin nos recebe ainda com seu melhor momento até aqui, transformando em lágrimas e em expressões  todo o subtexto que carrega com sua personagem.

Dois outros personagens tiveram bons momentos no episódio. Bud, que esteve muito presente diretamente nos conflitos dos seus pais e dos outros desabafa sobre querer ser a pessoa que todos precisam, mas talvez estar sobrecarregado com a tarefa. É um conflito interessante e válido diante de tudo o que fora apresentado de sua personagem até aqui. Enquanto isso, Jacob consegue ser exatamente o que Frankie precisa: alguém calmo e mais racional. Ele, com seu jeito paciente, sabe exatamente o que dizer e desarma as defesas que ela tem levantadas contra relacionamentos. Ele é uma boa adição ao elenco.

The Boar é o melhor episódio da série até aqui, e o mérito está em seu roteiro bem escrito que, mesmo dramático, consegue dar ares adultos para histórias adultas e sabe desenvolver conflitos que esperaram o tempo necessário para surgir. O episódio é a grande prova de que a segunda temporada conseguiu levar a série para um patamar mais alto que a primeira, sem desgastar sua trama ou perder a própria identidade.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.