Para o seu sexto episódio, Grace and Frankie decide dar uma abordagem mais divertida com outros pesos, aqui foram retratados de modo que o humor pudesse contornar suas problemáticas. Alguns temas são delicados e correm o grande risco de cair em um drama exagerado, o que cansa tanto o enredo, quanto o telespectador, então sou a favor dessa abordagem mais despretensiosa. Isso não significa que não há profundidade nas cenas, afinal, mesmo o humor pode ter seu lado reflexivo e intrigante. As protagonistas são novamente separadas, cada uma com seu drama pessoal e assistimos a apenas alguns encontros pontuais em que se atualizam, e nos quais ganhamos com os embates em diálogos afiados e sarcásticos.

Grace precisa arrumar uma tarefa para si. Ela, que tanto teve de se ocupar durante a vida, perdeu não só as funções ligadas ao casamento, como o império que criou e as amizades que fez. Como ser proativo que sempre se mostrou, não poderia se deixar apenas ser e ficar. A história de ser mentora é bastante propícia ao que já vimos da personagem, tão acostumada a mandar de sua forma autoritária e arrogante. Suas interações com Billie foram ótimas, por mais estereotipada que essa última tenha sido escrita. Espero que ela se torna recorrente ou faça algumas participações futuras, pois suas discussões com sua quase tutora foram impagáveis. No fim das contas, a saga para arrumar o que fazer e o porquê de fazer continuam para Grace, e sabemos que não é uma tarefa muito fácil. Ela lida com a problemática de se sentir invisível e de ser tratada dessa forma, como já vimos em algumas ocasiões. Sair das sombras não é tarefa fácil, principalmente quando as sombras andam junto consigo e são fornecidas pela sociedade.

Frankie, por sua vez, não só tem de cuidar do seu futuro como empresária e assistente de produção de seu lubrificante à base de inhame (!), mas lidar com Jacob e o caos que este traz para sua vida amorosa. Nos episódios anteriores, ela fora mostrada como a mais frágil, a que ainda lutava para aceitar o absurdo das situações na qual fora inserida, então é crível essa luta que ela demonstra para deixar outro homem entrar em sua vida. Não acho que haverá um dia em que ela estará pronta, porque há sempre a possibilidade de seu coração ser despedaçado, por mais segurança que o parceiro possa trazer. O que precisa ser repensado é se quem te oferece a mão vale o esforço. O medo é um instinto natural, mas não pode ou deve servir de desculpa para impedir o salto dentro de uma relação — ainda mais quando se está pendendo tanto para o sim. Lily Tomlin está excelente nesse episódio!

A trama com consequências mais cruciais para o desenvolvimento da série se relaciona, finalmente, com Robert e Sol. Chegamos ao momento da revelação, em uma cena honesta, onde vimos claramente o segredo tentando chegar a ponta da língua e sufocando a garganta. Não dá para apontar dedos ou tentar se colocar na situação, pois é um momento delicado e que está bem longe de nós para avaliarmos. Gostei da forma madura como a situação foi construída, o cansaço levantado pelos atores diante dela e espero que esse modo de conduzir o enredo permaneça. A notícia é de difícil digestão, mas espero que a história não se torne dessa forma também.

The Chicken, mais leve em alguns pontos, não deixa de ser menos cuidado e menos desenvolvido que o restante. É talvez a respiração necessária antes de embarcarmos em questões mais complicadas. Mais complicadas do que ensinar Frankie a forma certa de se limpar uma cozinha, pelo menos.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.