Criando contextos.

Quando conhecemos Grace e Frankie, alguns episódios atrás, naquele jantar inesquecível, não tivemos muito tempo para sentir empatia por elas. Sentimos automaticamente porque ninguém gostaria de se encontrar naquela situação, mas pouco compreendíamos sobre a personalidade de cada uma. Não tínhamos contexto algum. Encontramos duas personagens arrasadas em seguida, reconstruindo a si mesmas. Nós observamos enquanto elas se deparavam com a nova realidade de divorciadas, aprendiam novos truques, reconfiguravam-se, mas não sabíamos como eram antes, como os relacionamentos se desenvolviam antes do rompimento, quais as vidas que levavam. Criamos algo em nossa imaginação, mas nunca houve a certeza de que isso correspondesse à verdade por trás dessa história. Esse buraco na narrativa é preenchido com o décimo episódio. Tão perto da primeira season finale, a série decide terminar de desenvolver suas personagens, usando o passado como recurso.

Nem sempre usar o passado funciona como os roteiristas idealizaram, mas aqui isso é feito de maneira eficaz, por mais que não tão crível. A desculpa para voltarmos no tempo não foi tão bem elaborada, mas o importante é que esse retorno valeu a pena. O texto fez uma boa escolha ao ambientar seu flashback em um feriado que contasse com toda a família, porque assim ninguém sobrou durante as cenas. Cada um teve sua participação (mesmo que pequena), e nenhum dos recorrentes foi utilizado para preencher tempo na série. Além de um parto bizarro, ficamos por dentro de como o relacionamento de Sol e Robert funcionava antes de ser tão escancarado. É uma forma de compreendê-los; compreender todo o sufoco que viviam, o medo, a ansiedade… O desenho que fazemos de Grace em nossa cabeça também ganhou mais linhas e cores. Depois da visita que ela fez a sua filha no escritório, no piloto, só imaginávamos como ela era quando cuidava de sua empresa de cosméticos; entretanto, só aqui percebemos como sua personalidade e vida profissional atrapalhavam seu relacionamento com a própria família. Para Coyote, essa volta também fez bem, possibilitando que fosse traçado seu perfil destrutivo e inconsequente, além de seu caso não resolvido com Mallory. Brianna, por sua vez, sendo a Brianna de sempre, consegue com seus méritos duvidosos a companhia que no presente dirige de sua forma questionável.

Eu inocentemente imaginei que o episódio se passaria no elevador, limitando-se a explorar uma convivência de horas na claustrofobia do ambiente, como algumas séries e filmes já fizeram. Entretanto, não foi assim, e acredito que isso seja ainda melhor, afinal, a possibilidade dele se tornar enfadonho com essa trama era bem alta. Teríamos que assistir ao previsível pela meia hora que o episódio dura: Grace desesperada, Frankie cuidando dela, Sol sendo irritantemente otimista, e Robert o mais sensato presente. Não, decidiram pular a previsibilidade e assumir uma narrativa não linear, transportando-nos, entre as cenas, até as versões passadas desses senhores em quarentena.

Algo bem sutil, e que pode não ser percebido por todos, é a exploração do lado materno de Frankie nesse episódio tão relacionada à trama no presente com Coyote e sua busca pela mãe biológica. Essa foi uma maneira inteligente de dar sequência àquela história que pareceu esquecida e adicionada sem nenhuma razão. O desenvolvimento da personagem é muito coerente dentro da narrativa que lhe foi estabelecida desde o princípio. Seu relacionamento com Mallory (com sua barriga, para falar a verdade) é crível porque já lhe conhecemos (e amamos) o suficiente para saber o que é típico dela. Sua relação de passividade com Grace mostra-se já datada dessa época, na qual a loira mal sentia a ofensa deixar seus lábios e alcançar as outras pessoas.

Com apenas a cena inicial da série para estudarmos a “amizade” delas, minha percepção era de que eram muito mais ácidas e frias consigo mesmas, o que não é o caso demonstrado no episódio. Lembro-me de Grace falando sobre como exigiu que não tivesse que dividir a casa de praia com Frankie quando a compraram. Aqui, entretanto, ela parece só apática, ausente, e não aquela passivo-agressiva que sussurra maldades aos ouvidos do marido. Talvez os roteiristas tenham mudado os planos no desenvolvimento da temporada, porque, definitivamente, há uma diferença entre o que se deu a entender antes e o demonstrado agora.

“The Elevator” expõe Sol e Robert a partir de outro ângulo. Dessa vez entendemos a ansiedade pela qual passaram estendendo seus casamentos mais do que deveriam. Imaginar que desde essa época eles já planejavam contar a verdade é desesperador: a cena em que estão com o calendário em mãos tentando achar uma data certa para “aquela conversa” nos deixa um gosto amargo; delicada, mas cruel. Não é preciso ter passado pela mesma situação para sentir empatia automática pelo casal de amantes. A conversa final, honesta e mordaz, explica de forma convincente a razão de terem se mantido com as futuras-ex-mulheres por tanto tempo.

A revelação no final, quando mais um segredo é desvendado, foi tratada de um modo estranho e muito ameno. Por mais maçante que fosse assisti-las ressentidas novamente, não é muito acreditável que elas perdoem tão facilmente alguém que sabia de tudo o tempo todo e não as poupou daquela surpresa e vexame presente em “The End”. Esses pequenos pontos me incomodam, mas não acho que mais alguém vá reparar tão bem nesses aspectos.

Mesmo com minhas ressalvas, o décimo episódio contribui de forma coerente à sequência da temporada, e, como esperado, só temos o casamento pela frente. O flashback foi introduzido no momento certo, e agora me sinto confiante no que foi destinado para encerrar a jornada de nossas protagonistas. Com apenas três episódios restantes, Grace and Frankie não me decepcionou em nenhum dos outros, então acredito que isso não está reservado para o futuro.  O que posso dizer é que o desejo de clicar em “próximo episódio” está implorando para ser saciado. Não esperemos.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.