A mentira e a ilusão constroem ou destroem um relacionamento?

Não é fácil se manter apaixonado se você não consegue contar mentiras”

Todos têm uma receita para dar certo. Todos têm uma receita para fazer funcionar. O problema é que o que funciona para você pode não funcionar para os outros. Aquilo que coloca seu namoro em atividade pode não dar muito certo para os outros. Aquilo que coloca seu namoro em movimento pode parar o namoro alheio. É que a nossa egocêntrica vontade de estarmos certos sempre não percebe muitas vezes que o elixir que usamos na nossa vida de casal pode ser veneno em outras bocas. Alguns dizem que o ciúme é necessário. Em muitos casos, entretanto, ele é o foco maior nos programas sensacionalistas que invadem nossas casas à tarde. Tendo nossa fórmula pessoal utilizada por tanto tempo, fica complicado quando encontramos alguém com quem não podemos dividi-la. Mesmo quando ela não dá certo, não é fácil se acostumar a não usar os mesmos truques. Nós às vezes nos acomodamos com uma forma de amar e uma forma de ser amado. Se acontecer de forma diferente, não parece amor, não há prazer. Não é só questão de gosto, de sensação, mas de como nossa vida amorosa nos educa — ou a falta dela.

A teimosia está enraizada nas pessoas. Dizemos que brasileiro não desiste nunca (e isso sempre soa como elogio), mas acho que essa é uma característica mundial. Se bem que isso soa como se eu, na minha falta de experiência com o exterior e o interior dos outros, soubesse mais do que sei. Enfim, eu vejo séries, e, assim como todos, creio que isso já me qualifica para contemplar até o mais profundo da alma do ser humano, certo? Não? Prossigamos.

A mentira e a ilusão estão na receita de muitas pessoas. Elas acreditam que é impossível manter um relacionamento quando se mantém a sinceridade o tempo todo. É preciso condensar todo o amor que sentimos com aquela mentira casual, pequenininha. Sabemos que nem tudo é perfeito, mas devemos fingir que é. Devemos fingir que gostamos de certas coisas, que estamos muito-bem-obrigado com outras, deixar que outras aconteçam, afinal, amar não é abrir espaço? Amar não é deixar que o outro invada um pouco de si? E, se no final não der certo, o que fazer se casamento é justamente isso? Tivemos uma visão parecida ano passado no cinema. O mocinho quase inocente fala “Eu te amei, e tudo o que nós fizemos um com o outro foi nos ressentir e tentar nos controlar”. A mulher, muito esperta, logo responde “Isto é casamento.” É quase a mesma afirmação que Grace faz ao fim do episódio, quando Robert reclama da dor de cabeça que planejar o casamento lhe traz. Nessa dança de se enganar e se mentir, Grace and Frankie chega ao seu nono episódio.

Dessa vez, o texto é mais sóbrio, mais pé no chão. Diferente de outros episódios, o texto não se apoia em nenhuma trama maluca para fazer uma conexão entre ela e os sentimentos das personagens e seu desenvolvimento. Fico feliz com isso, porque é uma prova de que os roteiristas sabem que a comédia que usa de extremos para construir seu humor não funciona o tempo todo e logo perde o fôlego. Às vezes é hora de conversar sobre os conflitos desenvolvidos, as problemáticas vividas por suas personagens e tramas. Nesse aspecto, “The Invitation” funciona muito bem. Mesmo que ele ainda traga algumas bizarrices em seus diálogos, a preocupação maior é trabalhar sua história para nos preparar para o restante da temporada. Trabalho este conduzido da melhor maneira possível.

Ambas protagonistas lidam com a possibilidade de um novo relacionamento, cada uma a seu modo, é claro. Além disso, precisam encarar a realidade do casamento dos ex-maridos. Parecia ilusão até que o convite para o casamento chega. É bem assim, na vida real. A percepção final de que acabou só finca a bandeira em nossa mente quando vemos o passado andando de mãos dadas com outra pessoa. A pessoa pode ter morrido para nós, só que sua existência continua (às vezes até melhor que a nossa), por mais que ela já não esteja tão ligada ao nosso existir. Enquanto Grace se alimenta da mentira, Frankie desfruta da ilusão. Grace quer construir seu relacionamento pensando nas coisas em comum que duas pessoas precisam ter para firmar compromisso. E já que seu namorado é um aventureiro que gosta de coisas exóticas, tudo o que lhe resta fazer é inventar, mentir e inventar mais um pouco. Não dá muito certo, e logo sua consciência (leia-se Frankie) a acusa de edificar a base de seu namoro com mentiras que não o sustentarão… Ou até irão, mas que lhe deixará infeliz. O que adianta, no fim das contas, cultivar a felicidade alheia se isso nos deixará em miséria emocional? Pensar primeiro nos outros, eu sei, mas esse meu lado samaritano precisa ser melhor trabalhado. Para Frankie, amar é construir felicidade mútua — para mim também.

Frankie, por sua vez, não consegue criar uma solução tão fácil para seus problemas como faz com os da amiga. Não consegue sequer enxergar a negligência com a qual trata Jacob. É só quando o namorado/paquera desabafa que ela percebe a indiferença com a qual lhe tem tratado. Indiferença é o pior. Como Jacob apontou, ela deve resolver sua situação com Sol, determinar os limites sobre os quais tanto fala. O lado bom disso tudo é que sua vontade de sequer ir à cerimônia fala mais alto dentro de si, e ela lhe presta o devido respeito. O clima de amizade entre o quarteto está sendo construído com leveza e sutilidade, mas não podemos deixar de imaginar o quão doloroso deve ser para elas; e para Frankie principalmente. Para não pensar na ida ou não ao casamento, ela se entope de ilusões que, se pararmos para pensar, é o que faz desde o começo. O problema com viver em um mundo de ilusões é que só basta um sopro de realidade para que tudo desmorone.

Sol e Robert chegam ao ápice de seu conflito, o que é bem cabível com o casamento tão perto. Eles querem a felicidade, querem o casamento, mas, ao mesmo tempo, querem coisas diferentes. Querem começar essa vida juntos de modos diferentes. Um quer a companhia da antiga esposa, o outro não está se importando muito com isso. No final sempre acham o equilíbrio, assim como qualquer casal sensato. Na vida real, são essas pequenas discussões que vão desgastando a relação (e é bom lembrar que eles têm mais de vinte anos juntos), mas não sei como será no mundo do streaming. Torço sempre a favor deles, claro.

Se tratando de um episódio tão pautado por um enredo mais sério, ganhamos Brianna para as cenas avulsas e recorrentes. Brianna sempre funciona bem e aqui seu acréscimo (por mais que discutível) foi bem utilizado. Ao contrário do que aconteceu em outros episódios, toda a história com o lubrificante natural, que formiga e tem um cheiro forte, cumpriu com seu objetivo de ser um intervalo para as crises da dupla protagonista.

Grace and Frankie instiga à reflexão, por trás de toda a vergonha alheia que causa, e não é toda série de comédia que consegue; nem sequer toda série dramática o faz. Nada de moralismo piegas, aqui as lições são aprendidas na dor e realismo. A produção não fabula para si verdades inverossímeis só para tranquilizar nosso coração. Ela não nos mente, ela não nos ilude, e, só nesse terrível momento de assistir ao definhar de corações fictícios, é quando percebemos a falta que isso nos faz.

ps: O verso que dá início à review é de Norah Jones.

ps2: O filme ao qual a review faz referência é Gone Girl. Caso não tenha assistido, fica a recomendação: assista com aquela pessoa. 

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.