A protagonista e a coadjuvante. 

A trama já foi apresentada, as personagens já foram desenvolvidas, e os conflitos iniciais já foram instalados. Agora a série tem a liberdade necessária para transitar entre suas tramas, tirando proveito da base sólida que estabeleceu até aqui. O medo da série se perder sumiu com o passar dos minutos, e, mesmo que eu tenha minhas preocupações, estou aliviado de presumir que a temporada será regular. À beira da metade, minha previsão não demorará a se concretizar. Aqueles que conseguiram assistir a todos os episódios em maratona podem confirmar minhas profecias e espantar meus medos, mas, até então, tudo o que me resta é a especulação. Especular, no caso de Grace and Frankie, é uma ação graciosa, que faço com prazer. É um alívio, nesse mar de séries incoerentes e inconsistentes, encontrar uma que possa chamar nossa atenção e cativar-nos o suficiente para elaborarmos em nossa cabeça gráficos bizarros sobre seu futuro.

Grace e Frankie são amigas o suficiente (suficiente equivale a mais ou menos se suportarem) para que isso não seja mais tema central dessa sexta parte da temporada. Por mais que tenham passado pelo mesmo trauma (cada uma de sua forma), ambas estão vivendo momentos diferentes agora. Enquanto a loira rica e fabulosa está interessada em novos encontros (supostamente empurrada por sua filha), a hippie e descabelada quer enfrentar a natureza e sobreviver aos terremotos de seu dia ensolarado. Com histórias tão diferentes para si, não só a nossa percepção sobre a diferença entre elas é aguçada, como a forma como são tratadas pelo roteiro. Destaco a minha estranheza com o modo como Frankie é utilizada para o lado mais bizarro e desfocado do texto. Isso abre espaço para que ela seja diretamente conectada à trama inicial da série, mas não acho que esse seja um bom artifício. É, na verdade, tanto um desperdício de personagem quanto de atriz. No final, quando é retomada uma conversa entre essa história bizarra lhe envolvendo, temos bons momentos. Estes momentos, entretanto, são mais voltados a Sol e o desenvolvimento de sua história do que Frankie. Alivia a negligência com ela, mas não justifica. Nossa protagonista excêntrica e metade-do-tempo-drogada merece mais do que ser deixada em cena como degrau para elevação alheia.

Em contraponto, fico feliz que toda essa situação inimaginável tenha nos levado ao diálogo entre Sol e sua ex-esposa. Não só porque gosto de ouvir sobre primeiros encontros alheios, mas porque sei que é bem assim mesmo que acontece — tenho experiência de campo para afirmações. A traição nem sempre é um plano elaborado, mas, às vezes, um puro acaso. Não vou domcasmurrar o texto, não se preocupem. Não dá para escapar de uma reflexão a respeito, mas meu olhar estava deitado sobre a relação entre os dois homens, tentando desesperadamente ignorar o fato de estarem casados à época. Talvez todo o amor que sinto pelas duas seja responsável por essa implicância com eles. Independente do surgimento desse meu aborrecimento, não consigo silenciar o martelo que faz um barulho absurdo quando Sol e Robert tentam se justificar. Vinte anos é muita coisa! O absurdo do moralismo que me cutuca não é tão importante para essa análise, então deixemos essa confissão de lado, certo? Mesmo assim, por trás dessa neblina de estranheza que me cobre, consigo visualizar a beleza e a dor desse diálogo entre o ex-casal. Frankie é das minhas (aquela raça que gosta de ser masoquista até com o próprio coração) e decide saber de tudo. Afinal, se já perdemos tudo em relação a vida que construímos a dois, por que não perguntar o motivo, como começou, por que não acabou? A paz só é encontrada nas respostas.

Enquanto Frankie nos fazia rir, sua colega de casa descobre as esquisitices dos encontros marcados pela internet. Não foi de primeira que encontrou o senhor elegante e conservador que ela esperava. Se bem que, pensando bem, não acho que seja isso exatamente o que espera. Grace tem um desprezo absurdo por tudo o que é diferente, mas ela é aquela pessoa que todos nós conhecemos, capaz de jogar tudo para o alto quando a aventura bate à porta. É engraçado como a grosseria alheia não a ofende tanto assim — o que a ofende é o medo de ser flagrada em determinada situação. Ela gosta do homem que se impõem, mas não gosta de ser vista como aquela mulher que deixa a companhia masculina ser imposta. Mas, quando sozinha, ela liberta essa vontade de ser caçada e ter o seu orgulho rasgado. Não há orgulho que se fira mais rápido do que o daquela pessoa que acha que tem sua personalidade imaculada, que vive à margem da sociedade, desviando-se da companhia alheia com desprezo, ironia ou sarcasmo (qual das armas lhe couber melhor) em cada situação. Aquela pessoa que não dá direito ao outro de conviver por inteiro, como é, consigo, é a pessoa que mais se sente invadida quando a companhia se estabelece sem sua permissão. No caso de Grace, ela percebe (para nossa surpresa ou não) o desejo que o lado oposto lhe causa. Um elogio grosseiro a incita; uma declaração sobre arrombamento a domina. Vê-la despida quase por completo das barreiras que utiliza para se afastar das pessoas é impagável. Nós tornamo-nos testemunhas de seu deslize, e ela logo se recompõem, como se soubesse.

Para dar uma quebra nos dois núcleos e discorrer diretamente com o primeiro, Robert aparece como empecilho na restauração da convivência entre seu namorado e sua ex-esposa. Todas as reclamações dele são válidas, e essa é uma situação que não dá para enxergar uma saída muito fácil para nenhum deles. Talvez Robert deveria ser um pouco mais compreensivo, porque tirar as amarras que ficaram presas ao relacionamento anterior por mais de quarenta anos não é coisa simples ou questão de dias. Sol tem bom coração e não quer a felicidade só para si — coisa rara fora desse mundo fictício do streaming. Compensar a sua ausência na vida de sua pacífica ex-companheira nunca será possível, mas dá para aliviar os estragos, e é isso que ele faz. Uma atitude nobre, depois de uma desastrosa.

The Earthquake é talvez o episódio mais fraco até aqui, mas, ainda assim, não deixa de cumprir a cota de qualidade tão facilmente preenchida pelos anteriores. O que quase compromete a série é não elaborar tão bem um enredo que seja bem escrito para ambas protagonistas. Ainda assim, ela consegue nos instigar a refletir sobre situações que nunca viveremos (espero) e sobre pessoas que nunca conheceremos (infelizmente). Criar empatia com o telespectador não é a tarefa mais difícil do mundo, mas conseguir ser maravilhosa no processo, isso sim, é plausível.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.