Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais”

Não acaba até que haja indiferença; desprezo também. Não aquela indiferença de birra que treinamos diante do espelho, tão ligada àquelas frases que nos dizemos dezenas de vezes para acreditar. Não, eu falo de uma indiferença sem esforço, que existe sem permissão; sem percepção. Só essa indiferença estranha, que escala nossas costas e guia nossos olhos para não enxergarem mais o valor que em certo momento atribuímos ao ex-amado, é o marco da nova fase. É o marco da superação. Não é a distância que cura, porque esse desamor criado pela barreira do lugar não conta em nada. O que adianta conseguir desgostar com todas as forças estando longe, se, ao chegar perto, seu coração ainda despedaça todas as vezes? Não falo do desprezo imposto, de virar nossa cara com esforço. Falo daquele dia que se acorda e percebe que passou. É o finalzinho da “aceitação” naquela escada de cinco degraus que todos nós fazemos quando matamos um sentimento. Mas, para chegar nesse estágio derradeiro, é preciso passar pelo cheio e pelo vazio; pelas nuvens e pelas derrapagens. É indo nessa direção, com a calma que a idade lhes pede, que nosso quarteto tragicômico se encontra em um enterro, prontos de uma vez para enterrar definitivamente aquilo que viveram juntos: enterrar as mentiras, enterrar os insucessos; enterrar a decepção e a amargura. Só não enterrarão suas próprias verdades, as quais levarão para casa e conviverão até que a indiferença chegue, entrando pela janela sem pedir licença, e acorde-os para uma nova fase de suas vidas. Metáfora visual dita as regras desse quarto episódio de Grace and Frankie.

The Funeral é um episódio menos carregado de absurdos (eles estão lá, claro, mas não na mesma dose que os anteriores), que se preocupa mais em explorar o desenvolvimento psicológico de suas personagens que colocá-las em situações bizarras. Até os homens, que até então viviam de preocupações bobas, abraços e sorrisos, agora deixam transparecer suas aflições. Depois de quarenta anos convivendo com a elegância, ou com o despojado, precisam se adequar rapidamente ao andar e vestir do outro. Para parceiros de longa data é estranho que essa percepção das diferenças só tenha vindo agora, mas vamos relevar esse delírio do roteiro. A discussão levantada, de qualquer forma, é muito válida, e fica a reflexão sobre como parece fácil o convívio na teoria, mas a dificuldade e estranhamento que ele causa quando finalmente nos propomos a encará-lo. Robert então se abre, demonstrando não ser somente aquele advogado frio que calcula muito bem a hora certa de bloquear o cartão de crédito alheio, mas uma pessoa que sente o peso de uma convivência forçada e deixa isso transparecer porque não tem a força necessária que um fingimento requer.

Grace, fabulosa e elegante, traz à tona o jogo do Quem Perde Mais e aponta seus dedos tão incisivos e pontuais para seu ex-marido. Ela saiu perdendo muito, é verdade, e toda vez que ameaça chorar é de partir o coração. O incrível é que sempre conseguimos enxergar, através de seus discursos debochados e amargurados, toda a dor que ela sente e deixa escapar nas entrelinhas. Fico feliz por assistir enquanto ela se recompõe, aos poucos, mas se recompõe. Não se adaptou por completo à presença de Frankie, mas é questão de tempo, porque percebeu aqui que não só perdeu o marido (e boa parte da atenção dos filhos), como alguns parentes e a metade das pessoas de seu convívio.

Falando em filhos, acho que esse episódio comprova como a série ganha força quando se apóia nos ex-casais e não na aparição deles. É o típico caso da série que não precisa ter um elenco com mais de cinco pessoas. Não estou tentando tirar o emprego de ninguém, não me entendam errado. Pensando no que funciona na série, é muito mais prático ver essa troca de dinâmica de Grace x Frankie, Grace x Robert e por aí vai. Não estou fechado para a participação alheia, desde que ela venha como decoração, e não como mais um alicerce.

Uma ferramenta muito bem utilizada no roteiro da série da Netflix é sua sutileza. A série não vive de ridicularizar ao máximo o absurdo da situação que estão vivendo, mas trabalhar em pequenos detalhes para mostrar o incômodo e sofrimento dela. A cena do carro, por exemplo, quando Frankie, por deslize, tenta fugir do lugar usando o atalho errado, é um exemplo claro disso. Muitas cenas que ficam marcadas em nossa cabeça, ficam justamente marcadas pela delicadeza com a qual são pensadas e executadas. Isso não teria tanto efeito se tudo não fosse apoiado por atores tão competentes e expressivos que não carecem de material vasto em relação a texto para nos presentearem com um desempenho incrível.

Ao fim de The Funeral, a sensação é que estamos caminhando para algum lugar. Passos lentos, mas prudentes, bem pensados, donos de si. Não creio que a série pretenda fazer sua primeira temporada nesse jogo de dois contra dois (divertido, por sinal), então já tento enxergar o fim dessa viagem, espiando pela janela por cima do ombro de Grace — que grita mais ao telefone que as crianças ao fundo do ônibus. Quase não dá para ouvir a discussão de Frankie com um garotinho que tenta passar na sua frente para usar o banheiro. Quem se importa com o destino, afinal? Essas duas já fazem valer a pena o passeio.

ps: a abertura da review é de Chico Buarque.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.