
Go On poderia ter voltado bem melhor.
Spoilers Abaixo:
Geralmente é após o hiato de fim de ano que uma comédia se estabiliza de vez, partindo para uma segunda metade de sua temporada de estreia muito superior à primeira. Acontece com grande parte das séries, mais recentemente com New Girl e Community. Obviamente, se exceção à regra não significa fracasso iminente, mas inevitavelmente causa um tom de leve decepção no espectador, principalmente no caso deste gênero, historicamente gerador de mais complicações na busca por um ritmo ideal. E, com os competentes episódios no final de 2012, seria de se esperar que Go On retornasse ainda mais em forma. Mas Win at All Costas acaba por se tornar um exemplar particularmente frustrante.
Escrito por Seth Raab e Nicholas Darrow (os mesmos do bom The World Ain’t Over ‘Til It’s Over), o episódio já se inicia com uma irregular cold open, em que Ryan recebe uma ligação de seu ídolo no campo do jornalismo esportivo, Bob Costas. A sequência se inicia com a artificial paralisia do personagem, que tenta emular o contentamento com a ligação, ao ponto de sequer ouvir o restante da mensagem. Entretanto, a piada se torna mais elegante conforme vai passando, mostrando um Ryan exibindo, orgulhoso, a mensagem elogiosa do jornalista para quem quiser (ou não) ouvir.
Se logo na abertura Win at All Costas se mostra irregular, o restante do episódio não consegue mudar esse estigma. Durante todos os 20 minutos de exibição o roteiro alterna entre piadas competentes e outras absolutamente artificiais, alternando de maneira caótica o estilo de humor, que não parece conciso e decidido como em outras ocasiões. Pelo contrário, Go On parece voltar ao seu dilema dos primeiros capítulos, em que procurava encontrar as piadas que mais se encaixariam com o panorama traçado por Scott Silveri. Assim, é natural estranhar que a engenhosa piada sobre a ligação de Costas dê sequência a uma tirada sem sentido sobre o fato de palmas poderem excitar Mr. K.
Mr. K que perde grande parte de sua graciosidade no episódio, graças à decisão de fazê-lo perder sua essência. No último capítulo de 2012, o vimos assumir um papel relevante na trama sem que suas piadas deixassem de ser pontuais e ágeis. No entanto, aqui ele se torna um elemento mais presente, estendendo demais as situações envolvendo o personagem. Dessa forma, quando o vemos, em um primeiro momento, fazendo uma lasanha de cereais para Ryan para em seguida entregar ao amigo um almoço composto de fotos de comida, vemos apenas uma situação aborrecida causada por uma piada que passa do ponto. O que mostra que Mr. K é um personagem que necessita de tiradas rápidas, sem grandes delongas.
Aliás, ele ainda traz um dos maiores problemas de Win at All Costas: a falta de cuidado com características dos personagens. Repentinamente, Mr. K se torna um cientista de foguetes, tentando criar um efeito inusitado que fracassa por conta da total incoerência. Mais que isso, o episódio ainda investe em explorar uma característica de seu protagonista que nunca esteve presente. Em certo momento, Steven afirma que Ryan é secretamente burro, e a partir daí, cada frase do personagem tenta ilustrar esse ponto. Além disso, não duvido que nas próximas semanas essa falta de inteligência suma misteriosamente. É como se o roteiro tentasse fazer o espectador de idiota, convencendo-o de qualquer mudança é válida e não necessita qualquer embasamento.
Já em relação à trama envolvendo a festa da sobrinha de Fausta, a situação não melhora. Primeiramente por expor um estranho conflito entre ela e Anne, ainda que Go On nunca tenha dado a entender a possibilidade de tal incômodo (ao contrário das tiradas de Mr. K com Yolanda, por exemplo). Além disso, o episódio decide resolver a briga de forma incrivelmente repentina, ignorando o fato de que o espectador precisa compreender os porquês da solução. E o que vê é uma Anne revoltadíssima com a exclusão, invadindo a festa para depois se arrepender da atitude, e encontrar uma Fausta ciente de que a colega é uma boa pessoa como se a discussão anterior nunca tivesse existido.
Ainda assim, Win at All Costas traz alguns momentos bem executados, como a afirmação da relação entre Anne e Ryan, que parecem cada vez mais próximos, ou mesmo o ataque de pânico deste em frente às câmeras, que embora seja exagerado, é feliz em entregar uma cena puramente cômica, baseando-se na característica do personagem de Matthew Perry de ser alguém muito acostumado a se ater a uma rotina ou sequência. Hoje, que conhecemos Ryan King melhor que no piloto, é mais crível vê-lo surtando por um pequeno detalhe estar fora de seu controle. Além disso, a própria expressão no rosto de Perry nos dois momentos é hilariante, ressaltando a principal qualidade do ator, que é ser expressivo sem ser caricato.
Sem entregar um episódio com qualidade próxima ao seu antecessor, Win at All Costas dá alguns passos para trás na evolução de Go On como comédia, e precisa que seu showrunner saiba admitir qual era o caminho correto e procure retomá-lo.











