Experimentei e não gostei.
Todo mundo conhece aquela pessoa que rejeita a tecnologia, as configurações do presente e as previsões para o futuro. Aquela pessoa que pensa que o passado soa bem mais amigável. Que sonha em ir ao restaurante e não ver alguém tirando fotos pro instagram, almoçando na companhia de pessoas, e não de gadgets. Essas pessoas tendem a ser mais velhas, né? Em Girls, essa pessoa é Ray. Por quatro temporadas vemos Ray agir como um vovô rabugento que reclama do mais trivial e corriqueiro. É por isso que, por assumir essa “personalidade” de vovô, Ray é também a voz da razão. Muitas vezes vimos os personagens de Girls recorrer a ele para conseguir algum tipo de conselho ou alivio de consciência. Em Cubbies, Ray segue sua corrente de xingamentos e insatisfação com o mundo ao seu redor. Ray é um homem que sempre parece desconfortável, apesar de possuir uma confiança quase inabalável concebida por seu intelecto acima da média. Ainda assim, vemos o personagem à deriva por cenas e cenas, e nesse episódio, junta-se a uma antiga memória para criar novas, derivando pelas ruas de New York.
Shoshanna aleatoriamente segue em busca de um emprego. Girls está tentando mostrar as dificuldades de se conseguir um emprego em New York? Todo mundo sabe que o problema aqui não é a falta de emprego, mas a construção “excêntrica” da personagem. Sendo uma pessoa que fala não apenas pela boca, mas por todas as partes de seu corpo, passar por uma entrevista de emprego é um grande desafio. Parece que Girls tenta aliviar seu tom dramático no arco de Hannah com a leveza de uma comédia absurda, e acha em Shoshanna o caminho mais fácil para fazer isso. Ainda assim, colocar a personagem em contato com Ray é um acerto muito maior que deixar a personagem vagando por salas de reuniões em grandes empresas. O quão desconfortável os dois são quanto estão juntos é visível. Para logo depois estarem conversando e interagindo de forma natural, como quando estavam juntos. O fato de Shosh e Ray serem tão diferentes é o que torna sua dinâmica tão interessante. São pontos de vistas praticamente opostos sobre assuntos banais, e é interessante ver o resultado de seus diálogos.
Cubbies também consegue ser cômico ao colocar Marnie, Jessa e Shosh juntas, trazendo uma conversa descontraída entre amigas soar malvada. Aqui, o sonho de Marnie não é de conseguir o reconhecimento do público, mas de suas amigas. Ao sugerir que a nova música de Marnie e Desi é uma daquelas que a gente odeia tanto que passa a gostar, Girls fala indiretamente sobre a indústria da música e suas shake it off’s e happy’s (lembrando que Dunham é amiguíssima de Taylor Swift). Girls não é uma série sempre disposta a fazer críticas sociais, apesar de sua veia claramente feminista, e no caso da música, também parece procurar ficar de fora de grandes polêmicas e defesas de pontos de vista. Pessoalmente, acho as músicas de Marnie terríveis, e não creio em um sucesso no futuro, mas nunca se sabe, com essa indústria cultural louca em que vivemos.
Mas o que realmente importa nesse episódio é o tornado de emoções que passou por cima de Hannah. Desde experiências ruins como a rejeição do workshop de escritores, passando pela dinâmica que a aproxima de seu pai, até a confusão mental causada pela nova “companheira de quarto” de Adam. Ao vermos Hannah passando pela conversa desconfortável e uma rejeição muito sutil e elegante de seus colegas (mas não da professora), podemos notar claramente que Iowa já não é mais um sonho, e sim um pesadelo. O egocentrismo de Hannah faz até com que suas atitudes de mais boa índole (a carta com pedido de desculpas) se tornem pretenciosas, mas essa é a protagonista de Girls que tão bem conhecemos. Hannah dificilmente escuta outra voz que não a de seus próprios demônios e assombrações. Uma das raras exceções é seu pai: o carinho e a cumplicidade entre os dois é visível, e como qualquer pai, Tad aconselha da melhor forma, sem tentar interferir, mas tentando prevenir mais sofrimento.
A insatisfação eterna de Hannah não é apenas um exagero da personalidade de sua criadora, mas também de toda uma geração de jovens que se acham especiais, porém incompreendidos. Se Iowa não deu certo, é porque talvez eles não entendessem Hannah. É assim que aos poucos a personagem começa a se sentir, seu mundo em New York é muito maior e as coisas são muito mais reais. Talvez a volta para o lugar onde Hannah realmente pertence faça bem para sua escrita (será que a escrita é mesmo sua grande motivação na vida? Girls vende pouco o talento de Hannah, talvez, porque ela não tenha nenhum). Mas o que ninguém esperava é que ao voltar para casa, Hannah fosse encontrar Adam e Mimi-Rose (interpretada pela sempre incrível Gillian Jacobs). A sequência que encerra o episódio é carregada de confusão, emoção e desconforto, porque é mostrada pelo ponto de vista de Hannah. Por parte de Adam e sua atitude de praticamente um sociopata, as coisas parecem no máximo um pouco inexplicadas. Para Mimi-Rose, algumas peças não encaixam. A música que encerra o episódio é de Patsy Cline, uma mestra na arte de compor canções para os de coração partido, e diz: “Eu tenho suas fotos, ela tem você”.















