
Hora de dar uma repaginada, Girls!
Spoilers Abaixo:
Hannah é um tipo complicado de protagonista. Suas atitudes tornam muito fácil para o telespectador perder a paciência, e há quem tenha até mesmo passado a odiá-la com todas as forças. No entanto, desde o início de Girls, isso tudo foi bem contrabalanceado com o fato de que, apesar dos pesares, era possível se identificar com a personagem. Era algo como ” a moça é cheia de falhas, ok, mas quem nunca agiu feito um filha da puta?” Sobretudo nesta fase de afirmação pessoal que são os 20 e poucos anos, diga-se…
Eu mesmo, desde que assumi as reviews da série e principalmente no início desta segunda temporada, falei várias vezes que sou fã de Hannah. Preciso dizer, no entanto, que até eu enchi um bocado o saco, o que só comprova o quanto Lena Dunham perdeu a mão na condução de sua história (não vou me estender muito neste quesito; para entender melhor o que eu e outros pensamos, basta ler o excelentíssimo artigo do colega Henrique Haddefinir clicando aqui). O fato é que a necessidade crescente de cercar a vida da protagonista de maneirismos e bizarrices, em vez de ilustrar o quão excêntrica e única é a personagem, só serviu para que a criadora de Girls reduzisse drasticamente um de seus maiores méritos: o espelho com a realidade. Hannah, que foi tão bem construída ao longo de 15 episódios (era, de longe, a mais interessante das quatro amigas), virou um simulacro de si mesma. De profunda, passou a rasa e caricata nesta reta final de temporada. E isso é péssimo.
A gota d’água, pra mim, foi esta história do TOC. Quando afirmei, na review do oitavo episódio, que esta trama surgiu de supetão, me alertaram nos comentários que foram dadas pistas em algum momento da primeira temporada. Confesso que não lembro, mas mesmo assim: o surgimento e a condução da doença só aumentaram minha antipatia recente por Hannah. No season finale, ficou claro que, deliberadamente ou não, a personagem usa o transtorno para manipular os que estão ao seu redor. Ela tentou primeiro com os pais, que – já calejados – não caíram na pegadinha. Em seguida, ela fugiu de Marnie, suponho que por saber que a melhor amiga, por conhecê-la tão bem, talvez também não engolisse seu drama. Até Laird retorna, e até Laird dispara poucas e boas contra ela. No fim das contas, sobrou para Adam… Alguém acha, realmente, que Hannah ligou o bendito Facetime sem querer? Muito conveniente ter todos aqueles tiques com o ex-namorado assistindo a tudo, né? De uma forma ou de outra, deu certo, e a protagonista conseguiu alguém para suprir sua carência.
Carência, aliás, é a palavra-chave para o momento experimentado por Hannah. Não por acaso, o melhor momento do episódio é a conversa com Laird sobre o copo de vidro que quebra ao cair no chão. Com um ótimo diálogo, e somente isso, conseguimos perceber o quão solitária a personagem se encontra, e o quanto ela ainda não tem preparo para caminhar por conta própria (em outras palavras, é mimada até dizer chega). É uma passagem curta, mas que mostra o que Girls têm de melhor – tanto que este foi o único instante, no season finale inteirinho, em que eu voltei a simpatizar de fato com a personagem. O que incomoda, contudo, é a sensação de falta de linearidade no percurso trilhado por ela… Em “One Man’s trash”, vimos uma Hannah mais madura, aparentando estar mais esclarecida e preparada, mas nada disso foi retomado dali em diante. Decepciona-me perceber que aquela meia hora tão rica era, na verdade, um puro e simples filler.
Um dos grandes exemplos da imaturidade de Hannah foi toda a situação envolvendo o tal livro. Tudo o que a protagonista desejava, desde o início da série, era se firmar como escritora… E agora, que a oportunidade surgiu, ela não consegue corresponder às expectativas. Pra ser bem sincero, está aí outro plot que me deixou um gostinho amargo… Girls não costuma abordar com frequência o lado profissional de Hannah, algo que vejo como uma falha, e por isso me enchi de expectativas quando a moça foi contratada, no sexto episódio. De lá pra cá, entretanto, continuamos vendo muito pouco do ato de escrever, e em certos episódios isso foi deixado totalmente de lado. Tudo isso para, no frigir dos ovos, ficarmos com um final em aberto sobre toda esta situação… Ela conseguiu colocar algo no papel? Passou a noite com Adam e jogou tudo pro alto? Só saberemos no ano que vem, se isso vier a ser retomado – espero que sim, obviamente.
Falando em Adam, o reencontro dos dois foi… Fofo (sobretudo a parte do “eu sempre estive aqui”), porém meio fora de lugar. Eu gosto de comédias românticas, e não tenho nada contra à maneira exagerada que elas abordam o amor. Aquela corrida meio pastelão de Adam, voando sem camisa pelas ruas de New York, poderia perfeitamente fazer parte da sequência final de um filme do gênero, e seria excelente. Já numa série cujo maior mérito é – repito – ser crua e fidedigna, não pude deixar de achar tudo um tanto quanto deslocado. Ficou-me a impressão de que aquilo era só mais um exemplo do quanto Girls andou desencontrada nos últimos tempos…
E o que dizer de Marnie e Charlie? Sei não, mas o casalzinho continua me dando uma preguiça danada… Até acredito que o rapaz possa, sim, ainda ter sentimentos pela ex-ex, mesmo porque isso condiz com boa parte das atitudes dele. Marnie, por outro lado, não passa segurança nenhuma quando diz amá-lo. E isso pode significar duas coisas: 1 – A trama não foi bem construída, e por isso não é possível perceber com precisão o que ela sente; ou 2 – Marnie realmente não gosta de Charlie, retomou o relacionamento por conveniência e voltaremos a sofrer com este vai e volta muito do sem graça na terceira temporada. Não preciso nem dizer que nenhuma das duas opções joga a favor da série, né?
Já Ray e Shoshanna, pela milésima vez, voltaram a se destacar positivamente. Ao contrário do que acontece com Marnie e Charlie, gosto do casal e torcia por ele. No entanto, acredito que os conflitos entre os dois foram bem construídos. A oposição entre o mundo cor de rosa de Shosh e o universo negro de Ray estava explícita desde o princípio. Além disso, os pega-pega com o porteiro e com o louro escandinavo no finzinho de “Together” deixam transparecer um certo desejo de viver mais aventuras por parte da moça, e isso também é totalmente natural. Se o rumo deste relacionamento não soou ainda mais orgânico, foi basicamente porque o casal teve menos tempo de tela do que merecia ao longo da temporada. Algo parecido, aliás, ao que já havia acontecido com Jessa e Thomas-John, cuja maravilhosa cena de confronto, lá no quarto episódio, só não foi ainda mais forte porque havíamos visto muito pouco dos dois juntos.
Enfim, ler esta review pode até dar a impressão de que achei a season finale um lixo completo, e que estou prestes a desistir de Girls. Não é o caso. A série continua tendo muitas qualidades, e confio que ela voltará a ser tão encantadora quanto foi em sua chegada e em vários momentos desta segunda temporada. Há potencial de sobra para isso. No jargão futebolístico, dá pra dizer que Lena Dunham subiu no salto alto (ou que o sucesso subiu à cabeça, se preferir). Prefiro acreditar que alguns meses de férias para espairecer, sem Girls, pode fazer com que ela volte novamente afiada no ano que vem. Oremos!





















