Com Summer, chegou a hora de falar sobre um grande problema entre as Gilmore Girls: controle.

Chegou o verão e o terceiro e penúltimo episódio do revival de Gilmore Girls tem bastante raiva e frustração na sua receita. Era de se esperar… De forma sinuosa, Amy Sherman e Daniel Palladino traçaram os caminhos que levam exatamente ao ponto em que chegamos. Winter foi o momento de apresentar os termos dessa história. Spring consolidou a situação das personagens e plantou dentro de cada uma delas a dúvida. Para que tudo se resolva em Fall, precisamos chegar ao apogeu das crises e esse foi o papel de Summer. Portanto, apesar de algumas decisões aleatórias que foram tomadas apenas pelo fan service, a estrutura de A Year in the Life está muito bem clara e o que essas personagens precisam dizer, bem objetivo.

A estação do calor representa o exato ponto em que as vidas das protagonistas estão desconfortáveis e abafadas. Elas aparecem à beira da piscina, bebendo, fazendo piadas e explorando criancinhas como se fossem personagens de Downton Abbey e Game of Thrones, mas a verdade é que a sensação de desnorteamento de Rory e a de inadequação de Lorelai estão latentes e só serão compreendidas pelo público se analisadas dentro de um contexto geral. Não adianta pegar os acontecimentos de agora e colocar sobre eles uma lupa de julgamentos rasteiros. O que se passa com elas e a forma como elas estão lidando com o presente é um resultado direto de como elas viveram anos atrás. Isso é essencial,  Amy sabe disso e está sendo cuidadosa com suas crias.

Lorelai

Primeiro, vamos deixar de lado isso de achar que Emily e Lorelai estão de “mimimi”. Se eu fosse mulher, tivesse engravidado aos 16, fugido de casa e vivido sozinha por anos a fio – num contexto conservador como aquele – estaria ouvindo piadinhas até hoje. Empatia senhores, empatia… Eu sou gay assumido desde a adolescência, minha mãe já conheceu todos os meus namorados, mas toda vez que eu fico solteiro ela me pede pra considerar um casamento hetero. Então, não se surpreendam com mãe e filha jogando as mesmas coisas na cara uma da outra depois de tanto tempo. Famílias são assim.

Uma outra questão muito importante é com relação ao casamento. Emily usa a carta do “você não está casada” não porque o casamento enquanto instituição seja o mais importante. Ela sabe que atinge Lorelai com isso porque o maior defeito da filha é a mania de controlar tudo. Quem assistiu a série sabe que o problema de Lorelai não é o casamento enquanto ritual, lei, mas sim enquanto abertura de espaço. Ela largou Max quase no altar e sempre foi extremamente inflexível na hora de aceitar qualquer parceria afetiva na própria vida. Ela está cagando para o que o casamento representa enquanto pilar de conservadorismo, mas quando a mãe usa essa palavra contra ela, fica claro que o que está sendo dito é “você nunca deixou ou vai deixar ninguém entrar em sua vida, porque você é tão prepotente e controladora quanto eu, só que em outra esfera”. Isso é domínio de criação, senhores. Lorelai está no lugar certo. Esqueçam esse papo furado de “Porquê Lorelai tem que casar? Isso é tão demodé”. A questão não é o casamento, é a flexibilidade.

Isso ficou muito claro logo no começo, quando Luke fala das coisas que precisa fazer por April e Lorelai fala em ajudar. Ele corta na hora, exatamente como ela faria anos atrás se qualquer homem falasse em fazer qualquer coisa por Rory. Ela se atinge, se magoa, mas ele só está seguindo as regras que ELA estabeleceu. Na briga do restaurante isso é verbalizado e Lorelai sabe que no fundo é tudo verdade. Luke só fez o que ela mandou, sempre, pelo simples medo de ficar sem ela. Essa relação dos dois só dá certo, aliás, porque ele precisa de muito pouco para ser feliz e aceita o que vem. Percebam como todo o plot de Michel querendo expandir a pousada é uma metáfora para a essência de Lorelai: Ela nunca dá mais espaço e prefere perder quem pede do que ceder aos limites que estabeleceu. Até a programação gravada da TV é toda controlada por ela. A questão é que dessa vez ela está vendo isso, está percebendo isso. Ela teve sua epifania ouvindo a canção do musical e resolveu limpar tudo, fazer uma reestruturação e essa reestruturação não significa que “Lorelai tem que ceder ao ridículo do casamento”. Significa que ela percebeu que precisa expandir, abrir espaço. Na vida, na pousada… Casar é o código apenas.

Rory

A essa altura vários de vocês já viram o final e estão julgando a situação de modo imediatista da mesma forma que com Lorelai. Eu já devo ter dito para uma centena de pessoas que  NÃO há nenhuma informação além da que é passada nas quatro últimas palavras e que sair por aí simplesmente decidindo que o final é uma porcaria porque “estamos diante de um novo ciclo”, é, no mínimo, preguiçoso. Eu não vou jogar pedras em Rory ou na experiência do revival porque decidi preencher a falta de informações conclusivas do meu jeito. Há muitas possibilidades e nenhuma delas, na minha opinião, é vazia de positivos significados.

Gilmore Girls: A Year in the Life: Summer
Gilmore Girls: A Year in the Life: Summer

A jornada de Rory é da percepção de que ela não é perfeita, de que todos erraram dizendo isso para ela desde sempre. A disfunção da relação com Logan é um grande exemplo disso. Assim como viu  a mãe fazer a vida toda, Rory não é muito bacana com os homens que querem se aproximar, preferindo a virtualidade de uma relação idealizada. O que ela faz com Paul é execrável, mas o que Logan faz com ela também. Karma is a bitch… Ela quer fingir que não liga, mas liga. Ele pode mudar tudo com um gesto, mas é babaca o suficiente para não fazê-lo só porque ela recusou um pedido de casamento precipitado (ele devia agradecê-la por isso e não fazer um tratamento de psicologia reversa ao marcar casamento com outra e mantê-la como amante). O grande problema – e eu já disse – é que Amy valida o comportamento de Logan e de Rory através de um artifício lúdico (que veremos em Fall) que não representa as verdadeiras cores dessa relação. E não, não sou um partidário da teoria Logan é o Chris e Jess é o Luke.

Com exceção disso, a luta de Miss Gilmore para encontrar seu caminho é muito bem acentuada. Ela se sente decadente, nada mais natural que cuidar de um jornal decadente. Até a Gangue dos 30 e poucos anos surgiu como uma sacada ótima do roteiro para confrontar não só a personagem como nós mesmos, com o pavor de nos vermos distantes de onde sonhamos estar. A aparição de Jess é pontual porque ele sempre foi a porção artista da vida de Rory, um homem das palavras, escreveu um livro antes dela… Faz todo sentido que venha dele a pulguinha da inspiração que a faz pensar em contar a própria história. Rory sempre foi uma escritora e escritores sempre se usam como matéria-prima. Nada disso é aleatório.

Gilmore Girls: A Year in the Life: Summer
Gilmore Girls: A Year in the Life: Summer
Stars Hollow

No calendário de eventos da cidade, vimos o musical escrito por Taylor ocupar boa parte do episódio. Não posso culpar aqueles que acharam a coisa toda descontextualizada. Acho que esses argumentos são justos… Funcionou para mim, porque a cidade sempre fez coisas loucas enquanto a série esteve no ar. O tempo de duração está ligado a natureza dos números e ao tempo de tela dado a Sutton Foster (que trabalhou com Amy em Bunheads) e a Christian Borle, lendas da Broadway que cantaram músicas escritas por Amy e Daniel; e musicadas por Jeanine Tesori, uma real ganhadora do Tony Awards. Foi uma liberdade criativa admirável, bem pensada e divertida (com suas letras toscas e coreografias ingênuas).

Se não pela sua execução, o musical ao menos serviu para o lindo momento em que Lorelai se emociona com a letra de uma canção que lhe diz algumas coisas. Lauren estava realmente entregue ao momento e conseguiu me arrancar algumas lágrimas. Repito que acho muito importante que a personagem tenha sido contemplada com essa epifania, porque nunca tinha acontecido antes da forma como aconteceu – e acontecerá – agora. A decisão de fazer a caminhada de Wild (o livro, não o filme) está dentro dessa proposta de reestruturação. Não é algo que ela faria e todos nós sabemos disso. É hora de Lorelai se expurgar de si mesma, é hora do livro que Rory escreverá expurgar as latências negativas daquela história, é hora de Emily buscar a nova ordem da própria vida, simplesmente porque a ordem antiga não se aplica mais.

Summer acabou com as três meninas Gilmore precisando de um tempo sozinhas. Fall será o ato da compreensão e da convergência. A Year in the Life está cumprindo com o que me prometeu: está sendo divertido, comovente e com uma razão de ser. Está transformando e revirando personagens. Está sendo relevante. Voltou de uma caminhada com Reese Whitherspoon e provou que sempre dá para surpreender e melhorar.

> Entrevista com o elenco de 3%!

Lorelai’s Notebook: Um exemplo de como esses roteiros são bons é a maneira como eles são planejados dentro de um sistema de características que nos guiam numa mesma atmosfera. A coisa toda dos outros personagens falando como se Rory tivesse “voltado para casa” é um exemplo disso. Isso contorna todo o episódio.

Lorelai’s Notebook 2: Chocado com como Vanessa Marano retomou April inteirinha. Deu medo até.

Lorelai’s Notebook 3: Lorelai tentando ver séries com Luke: eu com todos os meus namorados.

Lorelai’s Notebook 4: Carole King dando uma palhinha e levando coió, hahaha.

Lorelai’s Notebook 5: Rory citando os White Walkers e querendo ser chamada de Khaleesi: <3.

Lorelai’s Notebook 6: Simplesmente APAIXONADO pela ideia do Secret Bar. E como foi bom para o Michel que Sookie não tenha podido aparecer. Maravilhosa a cena dele com Lorelai.

Lorelai’s Notebook 7: O pianista do musical era o Brad, de Glee, que vivia revoltado com os pedidos de canções vindos do nada, hahah.

Agora vou pedir licença a quem não assistiu ao último episódio ainda e fazer uma pequena observação. Então, terminem aqui se ainda não viram.

Lorelai’s Notebook 8: O destino de Rory após dizer as últimas palavras tem pelo menos mais TRÊS possibilidades além da óbvia: Wookie, Paul e a que eu considero A MINHA PREFERIDA: Paris trabalha numa clínica de fertilização e isso, para mim, definitivamente não é uma coincidência. Rory pode ter dado um puta presente para a mãe (que enriqueceria ainda mais seu livro) ou, simplesmente, encontrado uma forma de ganhar dinheiro. Eu defendo e me sinto confortável com essa ideia. Acho que Amy deixou aberto para que as pessoas preenchessem a lacuna com aquilo que lhes toca por dentro. Para mim Rory não repete ciclos, para mim GG não é sobre quem dorme com quem, para mim essa série é sobre mulheres que tomam decisões. E a decisão que minha Rory tomou foi essa. Por si, pelos que ama, pela vontade. Tô me despedindo feliz. Muito feliz.

Que delícia falar de Gilmore Girls e espero que vocês todos voltem para a última review, que voltará com a voz da Camis Barbieri. FOI LINDO!!

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