Em épocas como a nossa, não preciso iniciar o texto destacando o poder dos símbolos sobre a cultura na qual são criados e reproduzidos. Não só porque nossa rotina de consumo consegue associar rapidamente desenhos às marcas e às qualidades que lhes atribuímos, mas também pelo resgate que tem se feito de algumas figuras que a humanidade deveria ter deixado registradas, mas não repetidas e idolatradas. O símbolo aqui, também associação diretamente à destruição, não importando de qual lado se está, entraria nesta categoria. Após desenhá-lo e seguir os outros passos, a pessoa evoca uma criatura que lhe fará justiça de alguma forma. Não a justiça que acertas as coisas, seja lá o que isso signifique. Mas a justiça que derruba para se fazer ouvida. A justiça da queda.

Ghoul é um monstro da cultura árabe, trazido aqui como a representação do demônio, muito associado com o mito. Como em diversas tradições, não há um consenso geral sobre a criatura. Aqui nós a vemos em seu lado mais perigoso, ocupando o lugar do vilão: um espírito interessado na carne de suas vítimas. Para chamá-lo, as personagens cumprem um ritual de sacrifício com o desenho antes mencionado e com o próprio sangue, repetindo as instruções dentro da crença utilizada no enredo. Logo na primeira cena, encontramos quem teria feito o chamado e só depois encaramos as consequências de tal ato.

Ghoul - Trama Demoníaca
Ghoul – Trama Demoníaca

Ghoul – Trama Demoníaca (!) é a segunda produção indiana original da Netflix, vindo pouco depois de Sacred Games, série criminal que chegou em julho. Esta chegou pouco mais de um mês depois, no final de agosto. Em três episódios de quarenta minutos, a minissérie mistura alguns elementos para compor sua história. Começamos por uma distopia, em um futuro próximo, no qual há um regime fascista que combate “terroristas”. Entre aspas porque nunca fica muito claro o que estão combatendo ao queimar livros ou prender pessoas que não nos parecem ameaças. Neste clima, acompanhamos um grupo de militares-torturadores que usam sua base secreta, onde todas as janelas e aberturas são fechadas ao ponto em que não é possível saber se é dia ou noite lá dentro, para buscar respostas de modo prático.

É dentro deste contexto que encontramos Nida Rahim, interpretada pela atriz Radhika Apte, que esteve presente no citado primeiro projeto do serviço de streaming no país e pode se tornar uma figura mais conhecida entre nós. Aqui, ela é uma comprometida militar que acredita no sistema que governa o país e tem a fidelidade que todas as pessoas ligadas à profissão almejam ter. Uma prova disso nos é mostrada quando ela descobre material considerado ilegal nos pertences do pai e decide denunciá-lo ao governo.

Ghoul - Trama Demoníaca
Ghoul – Trama Demoníaca

Não classificaria, mesmo com o motivo acima, nossa protagonista como anti-heroína. Nida é apenas obcecada pelo papel que desempenha neste mundo estranho de regras que não conhece tão bem, mas que se comprometera em seguir. Não concordamos (espero) com seu posicionamento sobre tortura e os métodos que parecem tão familiar às práticas de tal sociedade, mas reconhecemos um empenho, uma fé por uma causa. Talvez a série dê algumas pistas de que os oficiais estão do lado errado conforme o enredo se desenvolve, mas somente em um contexto maior poderíamos tentar aplicar nossos princípios para debater a situação com mais precisão.

A principal pista está na leitura que podemos fazer do cenário onde os fatos se desenrolam, após a introdução que nos apresenta este mundo e esta protagonista. Vemos essas pessoas, a protagonista, seu chefe, os prisioneiros e os outros guardas, presos dentro de uma espécie de purgatório, onde a única prova da passagem do tempo está em suas ações. Neste lugar, longe da realidade do dia e da noite, a sensação é que nos afastamos da sociedade, trazendo apenas aquelas pessoas que a compõem para que se confrontem, se excluam e se anulem no mesmo jogo de autoridade, hierarquia e degradação que representam lá fora. Aqui, eles trazem a culpa, os defeitos e os princípios que regem suas vidas e os levam aos destinos mais terríveis que a criatura pode lhes dar.

Ghoul - Trama Demoníaca
Ghoul – Trama Demoníaca

Por mais bizarro que isso pareça no primeiro momento, talvez o tal demônio seja o símbolo da justiça dentro da história. Vemos os militares abusando da posição que ocupam diante dos prisioneiros —um deles está ali por acaso, descobrimos, e testemunhou uma brutalidade ser cometida com sua família. O monstro, então, faz frente aos humanos e sua violência, combatendo fogo com fogo como se lhes gritasse em resposta que está trazendo a todos o que as pessoas parecem procurar o tempo todo. Esse tipo de interpretação também se liga ao fato de que é o grupo de resistência que chama a criatura. Seria o sobrenatural a única saída em uma situação de reclusão extrema? Para este povo, ferido, parece valer a pena abrir mão da própria carne e entregá-la a quem equilibrará o jogo entre os dois lados.

O roteiro de Patrick Graham, que escreve e dirige os três episódios, utiliza daquilo que temos como tradição do horror no cinema, o que faz a minissérie se parecer muito com um filme, que era o plano inicial para contar sua história. Com poucas inovações, ele esbarra nos erros que diversos filmes do gênero esbarram, como o excesso de personagens, motivações duvidosas e pouco desenvolvimento daqueles que não aparecem muito.

Ghoul - Trama Demoníaca
Ghoul – Trama Demoníaca

Mesmo assim, há uma boa divisão entre os três episódios. No primeiro, depois de uma introdução nos vinte primeiros minutos, conhecemos o local, suas pessoas e esta realidade distópica. Para o segundo, vemos as consequências da chegada do último prisioneiro, alguém importante para os chamados terroristas. No último, finalmente encaramos a criatura de frente, temos cenas de perseguições e um banho de sangue que vai diminuindo a quantidade de pessoas ali. Neste terceiro, temos aquela brincadeira tensa de tentar descobrir quem é o possuído da vez, pois o Ghoul se disfarça de outras pessoas. Isso rende bons momentos.

> SÉRIE MAIS IMPORTANTE DA HBO!

Enquanto as personagens aqui pagam penitência pelo que fazem lá fora ou vieram fazer aqui dentro, nós somos as testemunhas de diversos tipos de violência. Podemos usar este momento para nos perguntarmos aonde leva a violência em tela. Isto é, onde coloca o telespectador, o que provoca. Nessa nossa rotina de pessoas que voltam para casa tão exaustas que dormem nos transportes públicos, o que significa ter um grupo de militares que afirmam entre si, com naturalidade, que uma das formas de tortura será não permitir que o prisioneiro durma? Esses constantes diálogos com nosso cotidiano, que no horror como gênero dificilmente são ao acaso, valorizam a trama. Outro ponto positivo do enredo é no ciclo que propõe: há uma surpresa que fecha bem a história e não demanda outra temporada ou novos episódios, pois a lição está toda ali.

Ghoul - Trama Demoníaca
Ghoul – Trama Demoníaca

O bom trabalho da atriz Radhika Apte se junta a outros pontos para tornar a saga de duas horas divertida. Vamos de uma história sobre violência a uma jornada pela culpa. Para nos acompanhar, temos muito sangue, muitas cenas gráficas e a cultura oriental ao fundo. A alguns, pode divertir ao tirá-los de sua realidade para ver humanos sendo perseguidos por um monstro que eles mesmo evocaram. A outros, os mais atentos, os que decidirem fazer paralelos, os que estiverem bem acordados, Ghoul é uma série com todos os dentes em nossa realidade — e isso, no fim das contas, é o que a torna mais assustadora. Bem mais assustadora.

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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
ghoul-trama-demoniaca-horror-netflixGhoul é uma série com todos os dentes em nossa realidade — e isso, no fim das contas, é o que a torna mais assustadora. Bem mais assustadora.