Quando Friends estreou nos Estados Unidos pela NBC, em 1994, o contexto social do país era diferente do que o que conhecemos hoje: durante os anos 90, a concepção de cidadania norte-americana ainda era vista como um “consenso” e uma identidade individual, acabando por esconder as classes sociais e os grupos sociais marginalizados da sociedade. Com isso, era muito comum que o preconceito contra esses grupos fosse considerado normal e perpetuado.
É dentro dessa realidade que se encaixa Friends, uma das mais famosas séries de sitcom da história da TV e que redefiniu o modo de fazer séries de comédia: inevitavelmente, todas aquelas que foram lançadas pós Friends sentem sua influência. Com um sucesso de audiência assombroso, logo virou febre entre os norte-americanos.
Atualmente, é praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha, ao menos, ouvido falar da série, que retrata a vida de seis jovens amigos recém adentrando na idade adulta em Nova York. Ela se tornou um marco cultural e encontra uma nova audiência a cada geração, justamente por ser extremamente relacionável com as pessoas da faixa etária de 20 – 30 anos.
Apesar da sua força e da capacidade de encontrar um novo público, Friends também encontra novas críticas no meio deste: tendo sido concebida no contexto norte-americano dos anos 90, reflete diversos pensamentos e preconceitos da sociedade da época, reproduzindo-os.
A aversão à reprodução dessas ideias preconceituosas está cada vez mais latente e presente quando se discute a série hoje em dia, justamente pela ebulição e cada vez maior visibilidade à temas sociais como o machismo, a homofobia e o racismo. O que antes era visto como piadas “normais”, agora é visto como degradante.
Como exemplo, podemos citar alguns casos claros de tais pensamentos na série, principalmente nos personagens masculinos – Joey (Matt LeBlanc), Chandler (Matthew Perry) e Ross (David Schwimmer).
Joey é o clássico mulherengo, que faz sexo com diversas mulheres ao decorrer da série e sempre é exaltado como ele nunca liga de volta para elas e até passando a impressão que engana elas para conseguir o que quer: sexo. É um personagem extremamente problemático, com constantes demonstrações de desrespeito não apenas às mulheres com que sai, mas também com as integrantes femininas do grupo – Monica (Courteney Cox), Rachel (Jennifer Aniston) e Phoebe (Lisa Kudrow).
Algumas falas e piadas de Joey chegam a ser assediadoras em alguns episódios – e, em nenhum momento, suas ações são repreendidas por seus amigos ou é feita uma crítica pela própria série a esse comportamento. Muito pelo contrário, seu comportamento é sempre muito exaltado e invejado, principalmente por suas contrapartes masculinas.
Por outro lado, temos Chandler, que foge desse estereótipo mas cai em outro: é constante a indicação dos demais personagens de que sempre pensavam que ele era gay e isso sempre é visto, dentro da série, como algo negativo.
Também existe a storyline de que o pai de Chandler é, de fato, gay e uma drag queen que, infelizmente, é utilizada apenas para fazer piada com o personagem de Matthew Perry e nunca em um sentido de compreensão e conscientização.
Finalmente, temos Ross. Constantemente apontado como o pior personagem da série pelo público por conta de seu ciúmes e possessividade excessiva a Rachel, ele também demonstra seu preconceito contra gays, por exemplo, no episódio The One with the Metaphorical Tunnel (S03E04) no qual seu filho, Ben, quer brincar com uma boneca e ele vê isso como um absurdo.

É comum, também, que todos os traços que são considerados mais femininos aos olhos da sociedade em um homem, são constantemente criticados e julgados pelos personagens – incluindo as femininas, que também muitas vezes não escapam de perpetuar esses mesmos comportamentos e preconceitos. São diversas as falas em que esses aspectos aparecem, como no episódio The One with the Cheap Wedding Dress (S07E17), no qual Monica julga os três personagens homens por fazerem skin care ou no episódio The One with Ross’s Teeth (S06E08) no qual Joey está encantado com as decorações femininas de sua nova colega de quarto, Janine (Ellen Macpherson).


Outra crítica que emerge com a maior visibilidade das questões sociais é em relação à falta de representatividade racial entre os membros do elenco – tanto principais quanto secundários, são todos brancos. Tanto é que essa crítica ficou muito forte já no início dos anos 2000 e foi a causa da entrada da personagem Charlie (Aisha Tyler) na série, para dar mais diversidade ao elenco.

Apesar de todas essas críticas, que são extremamente válidas, é preciso pensar sobre a própria proposta da série, que é ser algo leve e feito para divertir seu público – que, na década de 1990, achava esse tipo de pensamento natural e normal. Friends é, na verdade, fruto de seu próprio tempo e contexto histórico-social e é assim que deve ser assistida e compreendida.
Mas, afinal, por que Friends, com tantas críticas válidas ao seu redor, continua fazendo um estrondoso sucesso e alcançando novos públicos, quase 30 anos depois que seu episódio novo foi ao ar pela primeira vez?
A resposta mais simples é: Friends é extremamente relacionável. Tudo o que aqueles seis amigos passam, como dificuldades financeiras, profissionais, amorosas e pessoais em seus 20 e poucos anos de vida, é algo que todos nós já passamos, estamos passando ou vamos passar.
Friends fez um trabalho majestoso em se aproximar da realidade de tal faixa etária e, mesmo quase 30 anos depois, suas dificuldades são ainda as mesmas que as dificuldades de hoje em dia. Nessa fase de nossas vidas, na qual nos sentimos perdidos e tudo nos parece incerto, nossos amigos cumprem um papel fundamental de apoio. Ao mesmo tempo, a série cumpre esse papel também: nos sentimos amigos daqueles personagens, nos sentimos mais leves ao assistirmos os episódios e conseguimos rir da representação das nossas dificuldades na TV.






















