A grande pergunta é: você já esteve, realmente, vivo?
Sei que ainda é muito cedo para se envolver, afinal a morte pode ser dolorosa, mas já estou começando a me apegar a Forever. A razão não é um detalhe ou outro que me faz agradar, mas sim o contexto geral, o trabalho que vejo a ser desenvolvido nesta série me traz grande satisfação.
Na review da última semana eu comentei com vocês o fato de que gradativamente, Forever busca acertar a estrutura da série em um ponto agradável e que alcance o objetivo de seus criadores: Janet Lin e Matthew Miller. Aliás, aproveitando a deixa, Miller foi quem escreveu todos os episódios que assistimos, mas foi em Fountain of Youth, que eu o vi encontrar o ritmo do humor no seriado. O episódio apresentou tanto descomprometimento, que facilmente, ganhou uma leveza divertida a ponto, que em determinados momentos, me esqueci que se tratava de uma série criminal.
Eu sou absurdamente fã deste estilo de série, e até por esta razão, sou muito suspeita para avaliar. Mas de todas as estreias que acompanhei até o momento, Forever é a que mais me prendeu, com a chance de que eu vá acompanhá-la em temporadas futuras (se isto acontecer, lógico).
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Um pouco diferente de Look Before You Leap, o episódio desta semana buscou se comprometer em nos oferecer um pouco mais de contexto às histórias passadas de Henry, afinal além de um grande amor, o doutor também conheceu e perdeu amigos, familiares… Esta é a angústia da eternidade, nós sabemos. Mas, (quanto mais cedo melhor), era chegada a hora de impor algumas questões filosóficas à Henry Morgan, como a diferença entre ser imortal e viver eternamente. Pois ainda que possa parecer a mesma coisa, nós sabemos que são conceitos bem distintos.
E foi exatamente tentando provar a diferença dos conceitos, que Fountain of Youth acabou abordando um assunto que o leitor Juliano Augusto comentou semana passada, não exatamente da mesma maneira, mas o contexto da obra casou perfeitamente. O fato de Henry ter 200 anos, mas não ter vivido nada durante este tempo, um indivíduo preso ao passado e à obsessão de encontrar a morte.
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Logicamente, viver é um conceito filosófico e não é porque alguém escalou o Himalaia, que esta pessoa poderá dizer que aproveitou mais a vida do que alguém dentro de uma biblioteca. Mas conhecer o mundo em que se vive é essencial, e o mais importante é aproveitá-lo da maneira como ele se expõe a você. Isso quer dizer, que não há conexão com condições físicas ou financeiras, viver a vida é apreciar as singularidades nas quais o mundo inseri a sua pessoa.
Exagerado? Talvez um pouco poético?
Sim, mas é um fato.
Que o episódio fez questão de abordar com o caso da semana, mostrando meros mortais que buscavam o sonho, ou a fábula da eternidade, o pesadelo de nosso protagonista.

E mesmo correndo em caminhos opostos, Henry viu no perfil daquelas vítimas o mesmo problema ao qual ele convive diariamente. A obsessão, o foco exclusivo em um único panorama da história e, acabando por perder todo o geral.
A primeira vítima, Bill Sayle saiu à procura de uma nova juventude com o propósito de esquecer, ou não viver o luto da esposa que falecera. Já na clínica, Morgan encontra outra vítima (não morta), que desejava recuperar os anos cedidos a um casamento fracassado e de traições.
Histórias diferentes, contexto diferentes, mas que resultam na mesma conclusão: Tanto as vítimas quanto Henry montam os cenários de pessoas presentes no mundo, mas que há muito tempo, esqueceram-se de vivê-lo.
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Para enredar a história, (confesso que foi quando me apaixonei pelo episódio), tivemos a oportunidade de conhecer o passado de Morgan antes de Abigail. Para ser mais exata, o passado de Morgan, durante o período em que a tuberculose foi descoberta como doença contagiosa, na Europa. E é aqui que eu faço uma pausa na review para explicar um fato histórico para vocês.
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Não sei se muitos de vocês irão se lembrar, mas durante o colegial, em literatura, é estudado com grande afinco o período literário do romantismo, tanto aqui no Brasil quanto na Europa. Eu também estudei o tema, e me lembro de um professor dizendo que a tuberculose era o “mal do século” (nome dado à segunda fase da poesia romântica). Impressionante o quanto encontrei na internet uma quantidade absurda de textos dizendo a mesma coisa.
Mas graças a Deus, anos depois, encontrei uma professora espetacular que me explicou a história como ela é… O grande “mal do século” foi uma experiência psicológica e não do corpo físico, mais especificamente o tédio. Mas não era um sentimento de chateação, era uma sensação de vazio, de quem acredita já ter vivido tudo e que não há mais nada para se experimentar.
O sentimento é descrito no verso de Baudelaire: “Infelizmente eu já li todos os livros e minha carne está triste.”
A tuberculose era a epidemia do século, sem cura e com uma morte certa. Então, com este sentimento de quem não tem nenhuma vontade de permanecer vivo, os poetas buscavam a doença para encurtar suas experiências de vida.
É deste cenário que surge a frase tão famosa de Álvares de Azevedo: “Foi poeta – sonhou – e amou na vida”. Escrito em sua lápide (após sua morte por tuberculose), que fora extraída do seu poema Lembranças de morrer.
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Após esta pequena aula de história / literatura, sou capaz de explicar a razão por ter me apaixonado pelo episódio a partir deste ponto. Pois Forever não se comprometeu a apresentar apenas fatos, mas sim um conceito filosófico que se apoio no cenário e no contexto inserido no flashback do protagonista. E depois de compreender o panorama da história, torna-se impossível não entender a dor de Henry.
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Além disso, Fountain of Youth trabalhou algo que não é novo, mas que temos o hábito de ver com séries mais veteranas e que buscam renovação. É a diversificação do elenco e a participação mais ativa de coadjuvantes, além da renovação de cenário. Fiquei impressionada ao ver tudo junto, sendo que estamos falando do terceiro episódio da temporada.
Não sei se muitos perceberam mas tivemos diversificadas sequências aonde todos os personagens do elenco principal vivenciaram momentos exclusivos e todos eles ofereceram pistas para a resolução do caso. Talvez, quem tenha chamado mais atenção tenha sido o personagem do legista Luca Wahi, que decidiu entrar no clima engraçado e piadista sem intenção para tornar-se vítima do roubo de corpos, além de ocultar o fato pelo medo absurdo de ser demitido.
Lucas acabou sendo o grande nome para o ar cômico do episódio, sem deixar toda a carga de responsabilidade sobre o protagonista. Eu me diverti muito com a sua tentativa fracassada de interagir com Henry, depois com Martinez, e seu desespero pedindo auxilio ao colega de trabalho. Mas além disso, é justo dar grandes méritos à própria detetive e sua atitude descarada em “seduzir” o Dr. Gardner (ou Harold Price) para conseguir uma digital. Ou até mesmo Henry, quando diz que Jo é gostosa, sem qualquer hesito. Mas Abe foi quem ficou com a medalha de ouro em sua aventura maluca para perseguir Sasha apenas pela adrenalina de sair do cotidiano e “aproveitar o momento”.

Não haveria porque ser diferente, e Forever irá apostar no romance entre Jo e Henry, mas não de imediato. Isto me agrada demais, além de oferecer espaço suficiente para alimentar a mitologia do protagonista, sem desgastes desnecessários. A dinâmica entre a dupla torna-se gradativa, e não obrigatória, uma parceria que tende a tornar-se amizade para então, quem sabe, algo mais.
E isto é bacana, porque as atitudes de Henry com Martinez não são forçadas e nem buscam segundas intenções, assim como a própria detetive aceita, porque sabe disso. O fato é que a série ofereceu um grande histórico para ambos, e isto é suficiente para garantir uma proximidade limitada entre o casal.
O que vejo é uma série cumprido sua cartilha, mas buscando algo mais para seduzir o telespectador, fato que me deixa muito contente de acompanhar. Não consigo ter convicções quanto a seu sucesso, de forma clara. Mas durando uma ou mais temporadas, irei aproveitar seus momentos.
O Poema de Álvares de Azevedo
Acredito que a maioria de vocês já conhece esta obra prima, mas decidi deixar um link para quem ainda não leu, ou quem quiser ler de novo, a mais famosa obra deste poeta. Além disso, acho que a lírica se encaixa perfeitamente ao contexto do episódio. Então, para ler Lembranças de Morrer, basta clicar aqui.














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