
O clube dos esquecidos.
Por qualquer que seja a razão, os personagens de Veronica Mars nunca sabem de nada. Desde uma básica investigação até os inúmeros problemas pessoais enfrentados, todos eles tendem a permanecer em um estado de dúvida que consegue se sustentar tão bem ao longo dos episódios que acompanhamos até agora. Inclusive, essa é uma das razões que fazem com que a série torne-se tão viciante de ver, apoiando-se em uma grande leva de mistérios para muitos personagens e unindo todas essas dinâmicas com habilidade nos episódios. Ninguém realmente sabe para onde está indo e esse sentimento é palpável em quase todas as diretrizes vistas em “Ahoy, Mateys!”.
Duncan é aquele cujo comportamento entra em um estranho tipo de encruzilhada. Seu caráter dúbio diante da sua vida amorosa transpõe claramente e engloba todo o sentido do episódio a um nível mais pessoal, utilizando Meg como o centro de uma narrativa que liga-se bastante ao conceito de esquecimento. Por mais impopular que o personagem seja graças a sua personalidade insossa, ele mais que atende uma necessidade da protagonista, o que é bastante aceitável quando os detalhes da sua vida não entram tanto em jogo. O episódio em questão consegue com eficiência criar toda uma atmosfera ao redor da fragilidade que o personagem ilustra, entrando em um campo metafórico com visões que atendem mais a personalidade dele do que qualquer conjunto de diálogos terapêuticos poderia fazer. Em certos casos, silêncio é uma forma quase que preguiça de se arquitetar certa profundidade sobre uma decisão como é a de ler a carta, mas Veronica Mars administra isso com competência ao tratar do tema com cenas curtas e diretas, como as visões que fazem a rima temática da história. Talvez poderíamos passar desse estágio sem estar tão no escuro quanto ao que está escrito na carta, mesmo sendo inegável que o gancho é deixado de uma das formas mais sensatas possíveis. Meg se faz mais presente justo quando está mais distante, flertando com uma ideia de crescimento que Duncan não sabe como responder.
Nas áreas que “Ahoy, Mateys!” explora com mais afinco, estão lá alegorias sendo atiradas constantemente para essa questão do esquecimento. Várias pessoas vão mostrando-se cada vez mais ligadas a um estudante de Neptune High, um efeito da morte que funciona tão bem aqui para servir como sustentáculo da mensagem transmitida. Enquanto Duncan se encontra preso em sua própria passividade, outras pessoas não conseguem ter a mesma resposta (o que também poderia ser justificado pelo fato de Marcos estar morto enquanto Meg se encontra… bem, em coma), tomando medidas cada vez mais drásticas para superar uma perda. A investigação também traz Mac de volta, uma auxiliar que termina funcionando muito melhor no papel do que o sumido Wallace (desculpa, fãs dele). Os diálogos delas conseguem se destacar mesmo em um ambiente tão sério daquele exibido no episódio, ironizando a própria tendência de Veronica a fazer perguntas. A grande ironia da dupla é que elas passam uma sensação de amizade diante da ideia do quão estar próximo de Veronica é exigente, impulsionando todas aquelas piadas com Q e 007 que transbordam a partir do carisma das duas.
O esquecimento de Logan termina trazendo consequências em um campo mais literal e físico do que qualquer outro. Se no episódio passado estávamos diante do cidadão que usa altas doses de sarcasmo como meio de proteção, ele encara seus problemas com uma seriedade mais do que necessário nesse ponto. Como evidenciado logo no início, Logan não tem saída de Neptune, continuando preso e não deixando de enxergar si mesmo como o centro de tudo. Veronica Mars torna-se cada vez mais séria com o passar do tempo, armando seus personagens contra o perigo que ela mesma cria e usando essa lógica para elevar a tensão em instantes pontuais. “Ahoy, Mateys!” tem dois picos específicos que terminam tensos mesmo diante da solução previsível do momento. Sabíamos que Logan salvaria Veronica dentro do bar e que Weevil estava participando do julgamento dele, mas ambos os instantes incrementam apreensão a partir de simples ações como o saque de uma arma, o que, considerando o que poderíamos acreditar ser normal, esclarece logo o estado do indivíduo em questão.
Se o instinto natural de Logan é explodir diante a adversidade, o de Weevil é tratar tudo com uma estratégia mais aprimorada para conseguir respostas. Ele também está abraçado a possibilidade de ficar para trás que serve como uma sombra para a conduta de vários personagens. O seu histórico é claro ao fazer com que exista sempre a incerteza ao redor de qualquer decisão em torno dos PCHs. Agora podemos apenas esperar para ver como essas duas personalidades lidarão com a investigação da morte de Felix.














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