
Flertando com o tubarão.
Há quem diga que Friends nunca chegou nem perto de “pular o tubarão” (para a origem da expressão, veja a expressão jump the shark no nosso Dicionário Série Maníacos). Há quem diga que o pulo do tubarão da série foi o casamento de Chandler e Monica. Eu não concordo com nenhuma das duas afirmações, mas compreendo ambas. Na realidade, Friends nunca fica ruim, mas, nesta oitava temporada, começa a desenvolver uma ideia que faz com que a série comece a flertar perigosamente com o tubarão, pensando “Vou ou não vou? Pulo ou não pulo?” E o melhor episódio para representar essa fase obscura é, sem dúvida alguma, The One Where Joey Tells Rachel (“Aquele em que Joey conta para Rachel”).
Explico: a meu ver, o tubarão no caminho de Friends é tranquilamente a ideia do casal Joey e Rachel. A ideia de Joey todo apaixonado já incomoda um pouco – como lidar com o fim de “How are you doing?” –, mas não é nada que não pudesse ser superado com um bom desenvolvimento. Mas quando essa paixão é por Rachel, que – torcemos – é a alma gêmea (só para fazer uma referência a uma das tramas deste mesmo episódio) de Ross, a coisa desanda de vez. E, vejam bem, isso nada tem a ver com Ross e Rachel ficando ou não ficando juntos. Eles poderiam cada um achar o seu par e viver sua vida, e isso não me incomodaria de fato. Mas botar o próprio amigo pra furar o olho do cara, ainda por cima enquanto a amada está grávida de um filho desse cara e indo morar com ele??? Não, não e não! Tem tanta coisa errada nessa história que é difícil até saber por onde começar a enumerar! E foi justamente esse contexto inicial que, a meu ver, condenou para sempre a chance de Joey e Rachel.
Antes de me deixar em pânico flertando com o tubarão, o episódio me fez dar muitas risadas com a reação de Ross à paixonite de Joey. “Rachel??? Rachel???” (do lado de fora, no vidro) “Rachel???”. Mas o melhor mesmo foi nosso caríssimo Gunther mandando seu próprio “Rachel???” inconformado e assustando Joey enquanto quase me matava de rir. Friends tem lá seus pecados, mas explora muito bem seu próprio universo, especialmente no que diz respeito aos personagens coadjuvantes que aparecem com frequência na série.
A reação de Ross, aliás, me matou de orgulho. O roteiro fez questão de tratar o personagem, que cada vez mais frequentemente age com traços caricaturais incômodos, da forma mais madura e realista possível. Não há maneira de se levar com tranquilidade a revelação de que um de seus melhores amigos está a fim daquela que, apesar dos pesares, ainda pode ser a mulher da sua vida (ainda mais enquanto ela está esperando um filho seu). Essas questões ficaram bem claras e pontuadas pelos diálogos do episódio, tanto entre Ross e Joey quanto entre o primeiro e a irmã. Ainda assim, o que se pode fazer, com todos os envolvidos livres e desimpedidos? Ross compreende isso. Seu tempo com Rachel já passou, e não é justo atravancar a vida alheia só porque a sua não está andando.
Em meio a tudo isso, para não deixar Phoebe e Chandler completamente sem função no episódio, é criada uma pequena trama com “a alma gêmea” de Monica, um britânico bonitão que gosta exatamente das mesmas coisas que ela (inclusive do cardápio do Alessandro’s, criado pela própria). Não foi grande coisa, mas é mais um daqueles pequenos passos do casal Mondler em direção à total e completa fofura, graças ao diálogo em que ambos percebem que acreditam na mesma coisa: almas gêmeas, ao menos nessa concepção romântica da coisa, não existem; o que existe é a disposição para construir uma relação de amor bacana, com todas as benesses e sacrifícios (e bota sacrifícios) que isso implica. Particularmente, acho que os dois estão cobertos de razão, mas não podemos nos esquecer de que estamos falando de Friends, e Phoebe está lá para nos lembrar disso. “Don’t worry, we’ll find you someone else!” foi sem dúvida a melhor fala desse arco!
De volta ao grande acontecimento do episódio, com o apoio de Ross, Joey acaba conseguindo se abrir para Rachel, e é aí que o meu coração saltitava como se não houvesse amanhã. Se Rachel correspondesse, já era: Friends teria pulado o tubarão.
Felizmente, não foi isso que aconteceu na cena que partiu não só o coração do próprio Joey, como também o meu. O personagem é muito querido e amoroso com todos à sua volta quando não está pensando em sexo. Justamente por isso, o fato de Rachel não corresponder à paixão de Joey é realmente o melhor desfecho possível para essa trama, já que, devido à nossa simpatia pelo personagem, ninguém fica incomodado com a postura de ninguém.
Algo bastante importante de ser pontuado em The One Where Joey Tells Rachel é o grau de seriedade de sua trama principal. Os quatro grandes diálogos que a compõem não podiam, de forma alguma, partir para o mau gosto. É por isso que o roteiro, sabiamente, faz uso de elementos relativamente externos às cenas para garantir que o humor não seja esquecido: Gunther, a burrice de Joey com a ideia da mudança para Vermont, a bebida de melão que Ross tem vergonha de ter amado e o divertidíssimo garçom gay do restaurante. Graças a essas interferências, o tom necessário para cada cena é sempre mantido, com intervenções interessantes – mas nunca exageradas – em nome da comédia nossa de cada dia.
Apesar de não ser um episódio realmente engraçado, The One Where Joey Tells Rachel é necessário para dar seguimento a uma trama que não poderia ter sido mais bem resolvida do que da maneira como aconteceu. Todos os nossos amigos agiram exatamente como deveriam, e agora é a hora de seguir em frente. E o melhor: não foi desta vez que Friends pulou o tubarão. Pelo menos por enquanto.














