Os discursos panfletários que incomodam.

A segunda temporada de Veronica Mars é aquela explosão de personagens e tramas que normalmente ocorrem com qualquer série que possui a responsabilidade de corresponder às expectativas depois de um início fantástico. Existem pessoas fugindo, outras em coma, muitas mortas e aquelas que participam mais ativamente de “Nobody Puts Baby in a Corner”, que une tudo isso a atmosfera sombria de Veronica Mars, que aqui está mais presente do que nunca. É um daqueles belos casos em que um roteiro é capaz de atirar para todo o lado e atingir o alvo em cada tentativa, mesclando o básico da televisão com um nível de surrealismo que consegue o grande feito de fazer com que o holofote sobre outros personagens seja até mesmo mais interessante do que aquele colocado na própria Veronica.

Afinal de contas, sua posição no episódio é bastante simples. As sementes de sua desconfiança diante de Duncan afloram e ela é colocada de lado para que outras noções com maiores relevância para o episódio venham à tona. O seu arco continua naquela posição de amadurecimento através da sua peculiar união com Duncan para investigar um misterioso caso de abuso infantil. Por ser uma série bastante atrelada a imagem da protagonista, existe um sentimento confortante ao vermos como essa história não é totalmente direcionada apenas para algo relacionado a ela. Tudo volta-se para um daqueles coadjuvantes que mais parecem ferramentas de roteiro e o resultado disso é uma bela complementação para um dos casos mais assustadores que vimos na série. Em uma curta sequência, passamos da assustadora revelação sobre a família de Meg até uma das raras ocasiões em que Lamb não é colocado como um antagonista babaca e corrupto qualquer. O melhor é o trabalho de sutileza realizado na construção do episódio, que o coloca no ápice de sua babaquice com sua festa antes de ilustrar todo um trabalho ao redor de uma possível tridimensionalidade para ele.

Para um deleite ainda maior, o caso da irmã de Meg é tratado com aquele raciocínio do roteiro de Veronica Mars onde todas as vertentes possíveis são exploradas. Está lá o típico humor da série das aventuras dela como babá associado com o avanço das suas suspeitas com Duncan, flertando com uma ideia não tão intensa até entregar a reviravolta final. Dependendo do seu nível de percepção para esses aspectos (o meu é péssimo, considerando que raramente me atento a descobrir quem é o criminoso em casos do gênero), a descoberta da criança abusada pode ter sido prejudicada por questões de previsibilidade, mas, mesmo se isso vier a existir, a sequência final continua visceral de doer. Em uma cena que mais se assemelha a um estilo de filme de suspense, cada detalhe sobre o tratamento da criança é passado com uma dolorosa melancolia, uma que coloca Veronica em uma curiosa posição em que ela termina o episódio sem conseguir finalizar a história no território de heroísmo a qual a personagem quase sempre é destinada.

Em um daquelas ocasiões habituais em que tudo possível ocorre, somos ainda envolvidos em todo o drama da família Casablancas. Parte da diferenciação do episódio é baseada justamente no fato de várias pessoas serem colocadas em posições tão diferentes do comum, balanceando uma pura questão de carma (Kendall perdendo tudo) com as tramas da temporada em um segundo plano (Kendall vadiando para cima de Duncan por dinheiro). O simples ato de derrubar uma personagem de um pedestal faz maravilhas para uma série, criando todas as situações cômicas e babaquices no maior estilo Casablancas que podemos acompanhar aqui. Jogaram até falso Complexo de Édipo na mistura, com Dick na estranha posição de ser o personagem que termina por cima no fim de tudo.

Quem sobra na equação é Logan, usando sua própria marginalização a seu favor para ser incrivelmente divertido no processo. Seus comentários pontuais preenchem os diálogos com excelência, mantendo sua aura desconcertada em todos os momentos. E ainda temos a investigação do homicídio, a conspiração que prende o personagem a seu eterno elo com Veronica, uma dinâmica revisitada rapidamente por aqui para continuarmos essa trama.

Enfim, “Nobody Puts Baby in a Corner” não poderia ser associado a outra perspectiva que não fosse a do bizarro, jogando tudo parece um campo metafórico que encaixa-se perfeitamente a medida em que somos sugados a narrativa. Aquela boa e velha bizarrice entranhada que Veronica Mars colocada para fora com vontade para fazer deste mais uma esplêndida adição a essa segunda temporada.

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