Mocinhos? Vilões? A verdade é que Neptune é composta quase que majoritariamente de vítimas…

E se, na Primeira Temporada de Veronica Mars, Rob Thomas criou um cenário onde todos os personagens tinham esqueletos no armário para poderem figurar em algum momento no posto de suspeito do assassinato de Lily Kane, aqui, nesta segunda temporada, segue um caminho relativamente oposto, expondo fraquezas de seus principais personagens e, com isso, tira o foco do suspeito em si e joga em cima de suas razões.

E certamente, mesmo que não pareça agora, é em “Cheatty Cheatty Bang Bang” que a trama começa a seguir esse caminho, mesmo tendo uma trama bem simplória que basicamente coloca Veronica enfrentando alguns fantasmas recentes quando um suposto caso de traição a coloca na mesma equação que os Casablancas e Logan e algumas dicas – advindas do defunto mensageiro – a colocam no rastro da investigação do acidente com o ônibus escolar, isso tudo, é claro sem falar nas mais recentes dificuldades em desempenhar seu papel de “melhor amiga” de Wallace e em como se portar no mundo dos riquinhos, em sua nova e querida (sqn) aula de Business.

Não tem como negar que, embora a fórmula seguida seja meticulosamente a mesma de seu primeiro ano, os episódios desse início de temporada de VMars apresentam algo de estranho. Algo que não estava ali presente no ano anterior. E credito essa “estranheza” à própria Veronica. A série sempre teve em sua protagonista o seu pilar máximo de sustentação e, depois de tudo o que passou no ano anterior e, tendo em conta o quanto que cresceu, o roteiro absorve isso e toda a visão que temos de Neptune muda, assim como mudou para a própria Veronica.

Aqui por exemplo, não temos como não citar Logan, que mesmo sem ter aparecido com tanto destaque nos dois primeiros episódios, volta a chamar pra si neste o posto de protagonista que merece. Já assumo de antemão que, se existe uma trama que não me anima nessa temporada é o romance de Duncan e Veronica. O irmão de Lilly, coitado, é uma triste vítima do roteiro e perde toda sua importância quando somem seus problemas familiares e psicológicos que deram todo o tom do seu personagem na temporada anterior… E, pode parecer estranho o que vou dizer, mas preferia Duncan tendo crises e deixando de tomar os remedinhos do que vê-lo “in love” com Veronica e sem qualquer problema aparente mesmo tendo tido sua família destruída por tudo o que ocorreu no ano anterior… Talvez por isso, seja um alento cenas como a que ele briga com Logan, pois dá uma razão de ser ao personagem. Bem mais do que ser só namorado de Veronica.

E aqui acho que entendo a minha birra com Duncan. Ele é um personagem secundário da trama. Com um papel importante na primeira temporada, mas ainda assim secundário, numa visão geral. Não tem, por exemplo, o mesmo apela de Logan que, mesmo sendo o mesmo Logan que era antes, deixa transparecer em cada cena o quanto foi atingido por tudo o que aconteceu com seu pai e Veronica e como está agindo quase que pedindo socorro. Logan é profundo e atrai a simpatia e a comoção do público que consegue notar pequenas pistas como seus olhares tristes à Veronica e/ou a “discreta” mensagem de sua secretária eletrônica. Já Duncan não arranca esse sentimento do público e, enquanto ele finge que tá bem, fingimos que acreditamos.

A mesma percepção de protagonistas e coadjuvantes podemos aplicar ao caso de Jackie, afinal, Veronica Mars é uma série que constrói coadjuvantes bem pouco carismáticos – e isso ocorre mais por genialidade de Rob Thomas do que por erro so roteiro, afinal, quando você cerca seus personagens principais de outros completamente sem carisma, você eleva o carinho do público pelos que lá já estavam. – Afinal, por mais que surja com a intenção de criar uma intriga entre Veronica e Wallace e tirar nossa protagonista da zona de conforto, Jackie não é forte o suficiente para destronar a rainha da série e, o máximo que vai conseguir fazer é tirar um pouco do encantamento que tínhamos pelo próprio Wallace. Ainda assim, mesmo sem carisma algum, Jackie pelo menos nos rendeu algumas das melhores narrações em off de VMars nesse episódio.

Seguindo por esse caminho, uma decisão acertada dessa temporada foi elevar a família Casablanca ao posto de protagonistas, pois são personagens com o mesmo peso que outros que nós já gostávamos e, se no começo, Dick meio que carregava sua família nas costas por ser um rosto mais conhecido do público, nesses três primeiros episódios, o roteiro dá especial atenção ao seu irmão caçula, Cassidy. E o nosso querido Beaver tem um de seus primeiros momentos de destaque na temporada neste episódio, quando contrata Veronica para investigar sua madrasta. Um dos primeiros de muitos que certamente marcarão Beaver como um dos mais importantes personagens de Veronica Mars mais adiante.

E se Dick e Beaver foram elevados ao posto de protagonistas, é de praxe que comecem seus Daddy Issues, afinal, jovens em Neptune High não podem ter famílias saudáveis… E, pra falar a verdade, entre ter uma irmã morta ou um pai assassino, começar com um pai caloteiro é até coisa pouco para os Casablanca.

E “começar” aqui é realmente a palavra certa. Veronica, Logan e os Casablanca terão seus caminhos cruzados pelo resto da temporada, pois alguns fantasmas nunca vão embora em Neptune… Como podemos ver no fim do episódio, com o “retorno” triunfal de Aaron Echols mostrando que um acidente de ônibus, um corpo na praia e Veronica Mars podem ter muito mais em comum do que podemos imaginar.

Artigo anteriorDates – 1×02/03: Jenny and Nick/Mia and Stephen
Próximo artigo[Flashback] Friends – 8×08: The One With The Stripper