Mistérios complicados e suas simples soluções.

É desafiador atender expectativas. Criar um longo caminho e conseguir chegar ao estágio final dele são duas ações que têm sua importância muita vezes confundida. O que acontece com o segundo caso normalmente mantém-se na memória. Muitos viciados em séries são guiados justamente pelo resultado final, o que pode causar com que todo o sentimento que realmente interessa fique em um segundo plano. Veronica Mars construiu uma fantástica temporada inicial utilizando o esquema híbrido que envolveu um arco dramático prolongado ao longo dos episódios junto ao feijão com arroz televisivo que o roteiro soube aproveitar de forma sensata ao fazer com que em nenhum instante os casos da semana ilustrassem algo fortuito. Por mais que seja necessário por apimentar as explosões que ocorrem durante cada minuto do episódio, a resolução da investigação do assassinato de Lilly Kane está um pouco distante do que “Leave It to Beaver” significa para todos os personagens da série.

Antes de olharmos exatamente para essa segunda direção, é impossível não perceber como toda a construção dramática do principal momento da temporada é elaborada a partir de um conceito perigoso quando colocado nas mãos de roteiristas ruins. Induzir determinada resolução para retirá-la em seguida é um raciocínio complicado porque requer que várias concepções entrem em jogo. Suspensão de descrença, o apego emocional que possuímos com os personagens, aquele irritante costume de presenciar uma história e julgá-la primordialmente pela lógica dos acontecimentos… Tudo isso poderia atrapalhar a ideia de episódio de colocar Logan e Duncan como principais suspeitos para trazer o verdadeiro culpado em seguida, mas em nenhum instante isso realmente acontece. A conexão que Veronica Mars fez entre todos os personagens ao longo da temporada, mostrando sempre uma sensibilidade para as desconfianças entre eles, possibilita essa organização, mesmo também prejudicando um pouco no sentido de colocar uma tamanha responsabilidade que não poderia ser correspondida por uma simples questão de tempo. Weevil, por exemplo, tem seu relacionamento com Lilly utilizado basicamente como um acessório para criar falsas tensões no Season Finale.

Por falar nela, sua presença não poderia ser mais arrebatadora. Vemos em Lilly Kane um conjunto de características apaixonantes que fazem com que o sentimento de carinho que todos têm por ela ultrapasse Neptune e chegue até nós. Um dos melhores feitos de Rob Thomas na primeira temporada foi criar uma vítima que é justamente a definição da superficialidade daquele universo, mas que torna-se carismática por ter suas falhas com uma honestidade que nenhum outro personagem recebeu. O modo como todas aquelas pessoas agem em busca de vingança ou respostas eleva a angústia a um nível palpável.

Afinal de contas, “Leave It to Beaver” é um episódio que trabalha sempre com aquilo que a temporada sempre priorizou, inclusive ao revelar Aaron Echolls como o grande vilão da história, uma ideia acertada porque ele sempre foi caracterizado como o antagonista mais tridimensional da temporada, o que terminou ainda melhor desenvolvido porque essa sua imagem de pessoa má foi trabalhada lá em outro arco dramático antes de ser inserido aqui. As outras prioridades estão lá, exploradas com todo o apelo emocional e respeito no qual o episódio se baseia antes de trazer aquela claustrofóbica sequência de ação no último ato.

Veronica e Duncan unem-se pelo elo que possuem com Lilly, o que não é apenas significativo pelo apelo sentimental que a cena já inicia antes mesmo de entrar de mostrar o grande conflito, contando também como o motor para o gancho que encerra o episódio. Logan atinge o buraco com qual flertou durante toda sua existência na série, o que inspira Jason Dohring a entregar a melhor performance do Season Finale. Sua cena na praia é de um trabalho sublime, particularmente graças ao modo com que ele sempre tenta fixar o olhar para o nada, afastando-se de Veronica enquanto conta sobre suas dúvidas quanto a Lilly com uma intensidade suicida que também é utilizada na ponte.

Essas reafirmações de determinados arcos terminam sendo simples em sua essência, mas isso não impede o seu impacto. O caso mais óbvio é como Veronica e Keith resolvem a dúvida quanto a paternidade. Não existe nenhum mistério gigante em torno da dupla, muito menos diálogos excessivamente melosos. Desfechos de temporada normalmente são o espaço para trazer níveis maiores de ação e Veronica Mars não apenas entrega isso na excelente sequência do combate final, ela emprega isso também para que aquela relação entre pais e filhos venha a tona a partir de atitudes muito mais significativas que qualquer conjunto de palavras.

Depois de passar por vinte e um episódios de problemas que finalmente mostraram-se resolvidos, Veronica deve encarar o seu último desafio: ajudar sua mãe através do único modo possível diante do estado dela, o abandono. Engraçado é como ceder isso é inevitável e pode causar dor, mas o roteiro utilizar o mesmo raciocínio para entregar a despedida entre Veronica e Lilly. Nenhuma cena é capaz de resumir “Leave It to Beaver” como essa, conseguindo ser especialmente abstrata utilizando conceitos tão concretos. Passamos toda a temporada atrás de uma resposta. A trajetória até ela terminou nos proporcionando peças de um quebra-cabeça que são unidas com uma formidável sensatez no episódio que encerra o primeiro ato da saga de Veronica Mars. Agora é esperar para saber quem está na porta.

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