Quando Veronica acerta é bom, e quando ela erra, fica melhor.

As pessoas inteligentes tem um problema: elas são arrogantes. Nem sempre é aquela arrogância declarada, típica dos pedantes ou pretensamente inteligentes, sem ser de fato. Às vezes é uma arrogância que surge da simples constatação da superioridade perante outro indivíduo. As pessoas inteligentes podem ser horríveis, podem ser cruéis, elas podem massacrar tanto quanto a força. Sabemos que a sensação de ser menor nunca poderá resultar em coisas boas.

Julgada como inferior por não ser rica, Veronica Mars responde com humor, sarcasmo, ironia. E ela julga, com a mesma facilidade com a qual é julgada. Para Veronica, aquele é um covil de seres humanos socialmente medíocres, alienados da própria existência, apegados à superficialidade de seus  recursos financeiros. Aquele é um mundo que ela despreza, e do qual quase nunca faz distinção. Um erro que se origina do outro, e apoiado totalmente na ilusão de razão provocada pela inteligência.

Por isso tudo, quando Veronica se depara com “conteúdo” de alguns, ela se identifica e defende. Uma riquinha esnobe nunca será maior e mais nobre do que um professor ciente das desigualdades do american way of life. Esse é um episódio com extrema riqueza de analogias, e que se foca novamente nas falhas pessoais da protagonista. Veronica rouba, invade, mente, usa, julga… Mas ela acha que tudo isso se justifica pela certeza de que “ela é melhor que aquele universo capitalista”.

Amamos a personagem, mas não podemos negar que ela tropeça muito no tratamento com as pessoas. Isso é o que a torna tão especial, inclusive. Rob Thomas tem tanta segurança de sua criação, que pode se dar ao luxo de explorar o pior dela sem medo das consequências. E nessa semana, ele escolheu puxar o tapete de Veronica e jogar na cara dela que inteligência  não é parâmetro para decidir o caráter de ninguém.

Assistir a série agora é como ver um desfile de rostos conhecidos. Dessa vez Leighton Meester aparece linda como sempre, anos antes de viver Blair, para dar vida a uma estudante que acusa o professor de tê-la engravidado. Ainda que ela tenha um histórico de ter difamado Veronica, a detetive iria desprezá-la do mesmo jeito. O Sr. Rooks, um professor competente, se torna a causa martírica dela, que entra em choque com o pai, que de fora da situação, tem maiores condições de entender o quadro completo.

O episódio nos diz o tempo todo: Keith Mars não erra”. Porém, esperamos até o último momento para ter certeza disso. O mundo de Veronica vira do avesso simplesmente porque ela se recusa a ouvir o outro lado, sem julgamentos. A estudante Carrie só estava defendendo uma amiga, assumindo os erros dela para conseguir justiça. Dá um banho de inteligência emocional em Veronica, que precisa colocar o rabinho entre as pernas e se calar.

Quem também precisou se calar e aceitar foi Logan. Ainda que esse plot sobre a mãe dele estivesse deslocado do episódio, é um deslocamento necessário. Duncan parece cada vez mais suspeito e isso vai ajudar a protagonista a reconhecer e admirar a vulnerabilidade do herdeiro dos Echols. Veremos a proximidade entre Veronica e Logan acontecendo lentamente, o que vai ser primordial para torná-la poderosa.

Saímos desse episódio ainda confusos. A imagem que Veronica encontra mostra alguém pulando da ponte, mas o cartão de crédito da Sra. Echols foi usado. Um homem se entregou pelo assassinato de Lilly, mas ele nunca esteve envolvido nele de fato. Essas são portas se abrindo na direção das tensões definitivas, que vão entrelaçar mais ainda o passado parental desses jovens, com seus presentes desequilibrados. Nada será realmente como parece.

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