Explicando brutalmente o conceito de marginalização.
Uma das várias cenas de The Wire que nunca sairá da minha cabeça se passa nesse episódio. Bubbles, enquanto tenta encontrar o sumido Sherrod, acaba trombando com um sanguessuga da pior espécie que o agride e rouba toda vez que se encontram. O ciclo se repete por algumas vezes. A princípio Bubbles resiste, finge que nada aconteceu e continua o seu trabalho. O personagem é forte e cheio de vontade, de outra forma não estaria vivo e trabalhando. Entretanto, quando as agressões não param e seu trabalho é desperdiçado vez após vez ele decide recorrer ao Estado.
Bubbles chama um policial em patrulha e conta-lhe sobre a situação. O oficial descobre que ele vende itens na rua e sua mente religiosamente treinada na burocracia atira: é ilegal, precisa de autorização, não pode. Alguns DVD’s estão no carrinho de Bubbles. Violação de direito autoral! Então, seguindo mais uma tradição policial, ele se apropria de alguns dos itens ilegais e vai embora. É provável que Bubbles sequer saiba o que significa a pirataria e quais as formas de exercê-la, e com certeza não sabe que precisa de uma licença para vender itens avulsos na rua. Ele só sabe que num dos poucos momentos em sua vida que precisou da ajuda da polícia, aquela que ele tanto auxiliou em temporadas passadas como informante, arriscando sua morte, ela não lhe estendeu a mão. Em vários outros momentos Bubbles é espancado no meio da rua e ninguém levanta a mão para ajudá-lo.A marginalização e a segregação é explicada por meio de fatos, sem nenhuma explicação. Não há necessidade: para The Wire o melhor jeito de aprender é empiricamente. Ninguém se importa com o destino de Bubbles, um personagem negro, pobre e viciado em drogas. Percebam que até Greggs, a policial que tinha o maior contato com o personagem, só se lembra dele quando precisa de alguma informação, e isso faz muito tempo dentro da série. Isso até se traduz de forma cruel na vida real. Desde o fim de The Wire o ator que interpreta o personagem, Andre Royo, não consegue sequer um papel de proeminência, seja no cinema ou na televisão. Negro e sem traços atraentes como seu companheiro bem-sucedido Idris Elba, ele fica relegado a papéis minúsculos ou participações em episódios de séries jurídicas e policiais.
Essa aproximação empírica da série é a mesma tomada por Carcetti após se tornar, na prática, prefeito de Baltimore. O vereador resolve iniciar um tour pela polícia local, tentando conhecer melhor os problemas da cidade. O clima é surpreendentemente leve e agradável para qualquer episódio de The Wire, o que imediatamente levanta suspeitas. Onde está a miséria e o sofrimento sempre presentes na série?
Essa mesma onda otimista parece atingir a sala de aula de Prez. Mesmo assim, era razoável supor que em algum momento ele finalmente conseguisse se aproximar de seus alunos. Como Dukie, o ex-policial possui uma genialidade inerente que não é facilmente captada. Lentamente ele absorve a pequena sociedade de seus alunos e começa a inserir em seus ensinamentos matemáticos elementos com os quais eles possam se conectar.
Esse tipo de avanço, entretanto, está longe de atingir o projeto paralelo de Bunny com os meninos das esquinas de Baltimore. Namond e seus colegas possuem uma armadura diferente, cheia de rancor e enfrentamento, quase impossível de se penetrar. A cena em que Bunny tenta conversar com Namond é incrível em transmitir isso: o professor tenta de todas as maneiras conversar com o verdadeiro aluno, mas este não quer se expor e veste não só uma armadura, mas uma personalidade diferente. Na realidade, todos seus colegas agem da mesma forma. O verdadeiro problema não é encontrar uma solução para todas as deficiências educativas desses jovens, mas sim convencê-los a deixar que terceiros tentem ajudá-los. Criados em um ambiente incrivelmente violento, para eles receber ajuda de alguém é um ato de rendição, uma demonstração de fraqueza incompatível com a realidade implacável que os cerca.
Há como culpá-los, principalmente em um episódio que mostra a guerrilha de Omar dentro da prisão? O treinamento que eles recebem é feito sob medida para suportar o banho de sangue em Baltimore, mas não serve para mais nada. Violência gera má educação, que gera mais violência. O mundo de The Wire se move em círculos, nunca escapando de sua realidade doentia. A própria abertura dessa temporada possui uma sequência de imagens relacionadas a objetos circulares.
É nesse clima que acompanhar o progresso de Prez, a pequena aliança de Bunk com Omar para tirá-lo da prisão, as boas intenções de Carcetti e a incrível solução de um caso de homicídio por parte de Greggs são momentos muito suspeitos de alegria. Para aqueles que já assistiram essa temporada, os sinais da tragédia estão espalhados por esse episódio. The Wire só está esperando para dar o bote.














