Quem aposta na educação?
Tony Gray aposta na educação, e não por acaso é o candidato à prefeitura de Baltimore mais irrelevante para a história dessa temporada. Carcetti não está errado ao apontar os erros da administração de Royce em relação à criminalidade e pedir por uma polícia mais eficiente. Entretanto, esses problemas não deixam de ser rasos em comparação com a cultura criminal que permeia a cidade e arrasta seus novos habitantes para seu próprio buraco.
Nesse episódio vemos Marlo passear por West Side distribuindo dinheiro aos jovens do local. O objetivo? Criar um nome, uma lenda, um exemplo a ser seguido. Funciona. Qual seria a saída disso? A escola.
É essa escola que criou um sentimento muito grande de antecipação quando assisti pela primeira vez a quarta temporada de The Wire. Nesses primeiros episódios vemos Prez chegando ao local, conhecendo esse novo ambiente e recebendo conselhos dos professores mais experientes. A maneira como eles se comunicam é quase um presságio agourento dos horrores que o esperam dentro da sala de aula. A conversa é tão focada em disciplina e controle que eles sequer tocam no objetivo principal da escola: educar.
A antecipação é adequada. As férias estão prestes a acabar e a ferramenta mais importante de combate ao crime, como Gray aponta no debate, será posta a teste. Está Prez preparado para uma classe cheia de alunos às portas do tráfico de drogas, indisciplinados e desinteressados?
Conhecemos um pouco mais sobre alguns desses alunos nesse episódio. Namond é, surpresa, filho de Wee-Bey! Uma pena (ou não) que os genes do crime não foram transmitidos de um para o outro. É em Michael, entretanto, que Marlo enxerga essa capacidade. Numa das cenas mais incríveis da temporada o garoto recusa o dinheiro do chefão do crime e o encara diretamente quando é confrontado a respeito do assunto. Marlo não se sente ofendido, mas ri ao reconhecer o olhar frio e destemido do moleque. Ali está o talento nato.
Outro personagem que recebe grande atenção, e que continuará recebendo a partir dessa quarta temporada, é Bubbles. Ele recruta um jovem das ruas para ensiná-lo a conduzir seu negócio, abraçando um desconhecido e mostrando-lhe um caminho que, embora ainda seja de miséria e sujeira, é mais digno do que o que ele e Johnny faziam em temporadas passadas. O tema da educação volta a aparecer quando Bubbles decide levar o garoto à escola para aprender um pouco de matemática e ajudá-lo no serviço. A situação é desesperadora. Conhecimentos quase nulos, repetência crônica e um atraso absurdo. Como reerguer uma estrutura dessas sem qualquer incentivo externo? Onde está a prefeitura de Baltimore quando ela deveria recrutar esses garotos à beira da ruína, a um passo da overdose e da prisão?
É difícil lembrar que essa temporada aborda outros assuntos além da educação. O tema da política é aproveitado para fazer as sempre brilhantes comparações entre micro e macro que a série sempre traz. Alheios ao que ocorrem no “grande esquema das coisas”, preocupados apenas com os seus mundos, personagens como Cutty e Namond não se interessam pelo que acontece no debate político. O mundo distante dos engravatados não diz nada para eles. Infelizmente aprenderemos no decorrer dos próximos episódios que o micro e o macro de Baltimore estão sempre conectados, e o que acontece lá em cima sempre traz consequências lá em baixo. Um exemplo? O detetive Norris atende uma ligação no escritório de Homicídios após uma pequena aposta entre os colegas sobre qual seria a ocorrência. Acabam descobrindo que a vítima era uma testemunha em outro caso em andamento. Norris informa Landsman. Landsman informa Valchek. Valchek informa Carcetti e subitamente a vítima desconhecida vira um curinga político no debate televisivo entre os candidatos à prefeitura de Baltimore.
A investigação a Marlo também continua, embora dessa vez Lester, o líder não oficial da MCU (Major Crimes Unit, nada a ver com o Marvel Cinematic Universe), resolve sacudir o âmbito político com algumas intimações provenientes das evidências que Stringer Bell deixou ao morrer. O episódio resulta em algumas cenas hilárias, como Greggs e Sydnor tendo o prazer de intimar alguns figurões da cidade que estão acostumados a violar a lei sem qualquer punição e Daniels rachando de rir com os problemas de sua amada Rhonda.
Como sempre, não há um sentimento de propósito ou direção muito definido nesses primeiros episódios. Algumas das plots principais da temporada sequer apareceram. Sigamos em frente, pois a diversão (e o horror) de Prez está prestes a começar.
Bullet Points
– The Wire sempre cria pequenas histórias permeando suas tramas importantes, como uma coleção de crônicas e contos. Como essa impagável plot de Herc inadvertidamente flagrando seu chefe, o prefeito de Baltimore, recebendo um blowjob de uma mulher desconhecida.
– Carver continua a crescer como personagem. Em uma cena emblemática ele inicia uma perseguição contra os garotos que roubaram uma Escalade (!!) e depois desiste. Ele os conhece. Sabe onde moram e onde costumam ficar. Pra que perseguí-los?
– Momentos estranhos de The Wire: Bubbles e Prez se esbarrando. NUMA ESCOLA.
– Sheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiittt
















