Ziggy, a brincadeira acabou.
Malaka”
– Double G
Malaka é uma expressão grega que em português pode significar “idiota” ou “imbecil”. Sei disso porque pesquisei sua origem, mas Ziggy nunca soube o que o xingamento queria dizer. A questão é que, invariavelmente, não importa. Double G usa a palavra com uma conotação de desprezo que ultrapassa barreiras linguísticas, e o próprio fato de que Ziggy não consegue entender o que o contrabandista diz só aumenta sua raiva. O herdeiro da família Sobotka sempre foi o alvo das piadas e, embora ele tenha com o tempo aprendido a manipulá-las a seu favor, a raiva gerada por ser atingido por elas ainda persiste.
É por isso que Double G deliberadamente lhe paga metade do que foi combinado. Ziggy tem uma marca invisível na sua testa que diz “fraco”, e todos ao seu redor se aproveitam de suas fraquezas. Double G paga-lhe metade do combinado porque ele não leva Ziggy a sério e não se preocupa com uma possível retaliação. Ele é uma piada. Como dizer que ele está errado, considerando que o próprio personagem não se leva a sério?
Mas nesse ponto tudo atinge um limite para o nosso personagem. Ele está cansado. É aí que sua fúria se acende, e todas as atitudes ridículas e descuidadas que ele já tomou na série culminam na maior das imbecilidades: ele volta para a loja e atira em Double G e seu funcionário numa cena curiosa que é gravada do ponto de vista do agressor, sua mão erguida e munida de uma pistola no centro da tela. Quando ele volta para o carro a máquina para pagar o estacionamento apita: TEMPO ESGOTADO. Acabou a brincadeira. Chegaram as consequências.
A tragédia de Ziggy para mim se assemelha em alguns pontos ao que ocorreu com Wallace na temporada passada: uma pessoa inexperiente, nascida dentro de uma comunidade que não valoriza suas qualidades e sem qualquer orientação termina sua história com um acontecimento catastrófico. Essas duas histórias são as alfinetadas que David Simon dá no conceito de meritocracia. Não importa o quanto você se esforça, às vezes o universo resolve enganá-lo e você nasce em um lugar não tão agradável quanto desejava. Um lugar que o arrasta para dentro de seu buraco negro contra todos seus esforços. Ou também no caso de Ziggy, uma família que o esquece em favor de interesses maiores.
Esse é um dos momentos que dói na narrativa dos Sobotka. Nick vai até o escritório do sindicato e conta ao seu tio o que aconteceu com Ziggy. Frank agarra-o pelo colarinho e faz uma série de perguntas, acusando-o de ser o primo do garoto, a pessoa responsável por ele. Nick simplesmente joga na cara do personagem sua paternidade, aquela ligação genética que Sobotka colocou de lado para tratar dos negócios do porto. Wallace nunca teve um pai para guiá-lo. Ziggy teve, mas ele negou-lhe o apoio.
Enquanto o momento do juízo já chegou para o garoto, o julgamento de Frank Sobotka se aproxima cada vez mais. A cena antes dos créditos iniciais avança a galope. Daniels e sua equipe conseguem a cooperação do FBI na investigação, mas aparentemente Frank só será pego porque é um peixe pequeno. Vondas e The Greek, os reais comandantes, possuem um contato dentro do FBI que os avisa dos movimentos do destacamento em Baltimore. A escuta morre, mas nossos policiais habilmente descobrem o novo método de comunicação dos gregos e já trabalham para monitorá-lo.
Não é o suficiente. Enquanto mandados de busca e apreensão são preenchidos pelos investigadores os criminosos se livram das evidências. No final do episódio a montanha de burocracia atrasa o trabalho policial e as provas do crime se perdem. Spiros e The Greek não são tão cautelosos quanto a equipe Barksdale, mas quando a sirene apita eles não tardam em agir. Para ajudar, Valchek não larga o osso e continua a ameaçar todo o trabalho de Daniels com sua vendeta pessoal contra Sobotka.
Enquanto toda essa trama se revolve convulsivamente ainda temos várias novidades no território de West Baltimore. A “falha de comunicação” entre Avon e Stringer gera atrito nas ruas, e Proposition Joe resolve agir para assegurar seu lucrativo contrato que troca drogas por território. Nesse ponto é que Omar entra na jogada. O personagem sumiu dos últimos episódios e agora sua aparição é contrastada pela chegada do Irmão Mouzone em Baltimore. Ambos recebem um tratamento diferenciado da série: o realismo costumeiro de The Wire é deixado um pouco de lado (apenas um pouco) para criar cenas memoráveis e estabelecer ambos os personagens como lendas urbanas. Alguns podem questionar esse método, mas é inquestionável a presença desse tipo de história no ambiente da série. E se alguma dúvida restar, basta lembrar-se das melhores cenas de Omar e imaginá-las excluídas para mudar de ideia: The Wire é muito boa fantasiando seus personagens, e nós os amamos sendo eles realistas ou não.
Agora faltam apenas dois episódios, e o próximo é o fantasmagórico clímax escrito por Pelecanos em todas as horas que antecedem cada final de temporada. Preparem seus corações.
Outras observações importantes:
– Ziggy não é o único a explodir nesse episódio. Prez também se cansa da visão míope de seu sogro e seu descaso pelo que ele enxerga como o modo certo de conduzir uma investigação policial. Resultado? Um delicioso soco na cara de Valchek. Obviamente ele terá consequências. Estamos falando de The Wire, afinal.
– O companheiro do Irmão Mouzone, Lamar, é na verdade DeAndre McCollough na vida real. Sua história foi contada pela minissérie The Corner e David Simon ofereceu-lhe o trabalho como ator para mantê-lo fora do tráfico de drogas. Por um tempo deu certo. DeAndre morreu em 2012.
– Mais um crossover entre o mundo “normal” e o mundo das drogas. East Side e West Side dividem território e uma concorrência surge. Bodie logo percebe o problema, provavelmente adotando alguns pensamentos de seu líder Stringer Bell, e abaixa o preço de sua mercadoria para atrair o comprador (nesse caso, Bubbles). Negócio feito!
– The Wire não é uma série que se destaca por suas grandes atuações, mas sim pelo desenvolvimento de suas narrativas e as críticas que elas trazem à nação americana. Mas são é por isso que momentos brilhantes protagonizados por bons atores não aparecem. Vejam Greggs nesse episódio: sentada ao lado de Cheryl ela nos transmite com perfeição seu desconforto com a situação a que é submetida. Sua companheira está excitada por ter conseguido uma gravidez, mas sem precisar dizer uma palavra sabemos que Greggs não está nem um pouco interessada em ser mãe e que provavelmente prefere bater algumas cabeças pelas ruas de Baltimore.
– É inevitável, às vezes a série é datada. Como nos momentos em que os policiais discutem as mensagens de texto como se fossem tecnologias avançadas, alguns nem mesmo sabendo o que são. Felizmente e infelizmente ao mesmo tempo, os temas da série continuam tão atuais quanto eram na época de sua exibição.















