Vilões por motivos diferentes.

Mais um ou dois dias e então… De volta aos negócio.”

 – The Greek

Se Stringer entrasse em contato com Vondas e The Greek a amizade deles seria muito frutífera. Ambos pregam um modelo de negócio muitíssimo parecido: aquele que é totalmente desvinculado de sentimentos pessoais, quaisquer que eles sejam. Honra, coragem e reputação são qualidades inúteis para os gregos. Já para Stringer…

Não que ele queira que assim seja, mas não importa o quão soberano e esperto esse personagem parece, Bell ainda é o segundo em comando. E Avon tem uma visão muito diferente de seu ganha-pão, uma que fica muito marcada nesse episódio de The Wire mesmo que o personagem sequer apareça. Para ele há um elemento de paixão no tráfico de drogas, uma romantização gloriosa semelhante àquela induzida pela série em Omar Little. Reputação e honra são quesitos muitíssimo importantes do negócio, e às vezes sobrepujam até mesmo o lucro.

Recentemente assisti à primeira temporada de Mozart In The Jungle, uma série que explora os bastidores de uma orquestra nova-iorquina. Apesar de conduzir sua narrativa de forma atabalhoada a produção da Amazon delineia muito bem a dicotomia lucro e paixão que existe em todo negócio que envolve a música. Mas você se pergunta, ousaria o reviewer comparar as maravilhas da música ao aterrorizante mundo do crime? Sim. Sejamos nós capazes de entender ou não, pessoas como Avon veneram essa atividade. Elas cresceram ouvindo falar de lendas como Omar ou o recém-chegado irmão Mouzone, tendo como exemplo de vida os grandes chefões do tráfico com suas armas espalhafatosas e olhando para a esquina onde um traficante fazia sua fortuna e a gastava prodigiosamente em carros e mulheres.

Mas não se enganem achando que esse é o foco do episódio. Essa disputa entre Stringer e Avon que envolve a perda de território a fim de receber uma droga de maior qualidade serve como um contraste ao trabalho de The Greek. Ele inescrupulosamente dirige uma operação criminosa cujo único objetivo é o lucro. Ele é um capitalista puro de acordo com a fala do próprio David Simon numa temporada onde o capitalismo vêm engolindo o negócio dos estivadores do porto de Baltimore. A crítica não é nova, mas sua apresentação, como sempre no caso de The Wire, é criativa e expõe todos os detalhes de forma magistral.

Mas não se enganem² pensando que o criador da série vê apenas um lado dessa história. Tratar tudo como negócio, no caso do tráfico de drogas, pode ser uma benção de valor incalculável. A briga por reputação e controle de território causa a morte de um inocente na rara cena de ação que antecede os créditos iniciais do episódio. Stringer enxerga isso e dá um sermão para Bodie, mas não por um motivo altruísta: corpos atraem a atenção de policiais, e isso é mal para o negócio.  Despir o tráfico de seu caráter glorioso e tratá-lo apenas como uma maneira de fazer dinheiro evita todo o círculo de violência que emerge das diferentes gangues e grupos que controlam diferentes partes da cidade e brigam por supremacia.

E se resolvermos aplicar isso no trabalho policial? McNulty já é um ótimo exemplo do que acontece quando um trabalhador se envolve demais em seu trabalho e esquece do mundo ao seu redor. Mas nesse episódio outro tipo de interferência afeta o trabalho dos nossos detetives, sendo ele muito mais danoso: o aparelhamento estatal. Valchek usa a investigação de Sobotka para satisfazer seus desejos pessoais, e a bomba pode explodir a qualquer momento agora que ele descobriu o quão pouco o destacamento de Daniels se concentrou no acusado. Gozado se lembrar que a plot da temporada inteira começou com uma intriga envolvendo o mosaico de uma igreja, não?

Stray Rounds retrata muitas, muitíssimas coisas erradas. Nem sequer falei da infrutífera ação policial de enquadrar metade de West Baltimore para adquirir pistas sobre a bala perdida que matou o garoto no começo do episódio: o velho e enferrujado método que não morre porque ninguém está com vontade de mudá-lo. O clima do episódio não é menos cáustico. Os gregos subestimam o trabalho da polícia, que se aproxima cada vez mais, e podem carregar com eles toda a família Sobotka e as esperanças de reforma do porto de Baltimore junto. Só mais três episódios.

Outras observações importantes: 

– É claro que The Wire nunca decepciona no quesito comédia, mesmo quando seus episódios são tão depressivos. McNulty finge ser britânico (o que é engraçado, já que Dominic West É britânico) e fica em “desvantagem” diante das prostitutas com as quais é reunido em virtude de sua missão policial. Coitado.

– A plot de Ziggy nesse episódio é claramente preparatória: ele combina um negócio com o revendedor dos produtos contrabandeados dos gregos e planeja um assalto aos carros de luxo estacionados no porto. Interessante paralelo entre ele e Avon: ambos não consideram o dinheiro como a única prioridade. Ziggy quer provar para todos que é “capaz”, e por isso não aceita o dinheiro oferecido por Nick no episódio passado. Ele precisa estar na jogada, participar do jogo sujo e provar a si mesmo que consegue.

– Mais uma oportunidade de apreciar nosso querido Bodie. Depois de seu epic fail ao se livrar das armas usadas no tiroteio ele escapa de maiores problemas criando uma armadilha para os policiais quando eles que pensavam ter conseguido incriminá-lo.

– O irmão Mouzone chega com toda pompa a Baltimore, algo digno de Omar, e ainda por cima antes do tempo previsto. Mais sobre ela glamourização dos dois personagens em reviews futuras.

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