O início, o fim e seus meios.
AARON BUCHBINDER (1976-2002)
A morte de Aaron, personagem recorrente nos últimos episódios, foi certamente das mais sofridas que Six Feet Under abordou. A agonia de um paciente terminal de câncer, em meio a espasmos, tosses e dificuldade de respirar, enquanto Nate tentava consolá-lo. O inusitado vínculo que fez Nate honrar a promessa que fizera e visitá-lo todos os dias (assim como de apertar o botão do forno crematório) culmina em The Last Time como um poderoso paralelo com a história de nosso protagonista.
The Last Time pode bem ser interpretado como uma season finale do conjunto das duas primeiras temporadas. Se a primeira temporada foi um verdadeiro arrasa-quarteirão, a segunda temporada manteve a peteca no ar, ainda que (ou por causa de?) tenha levado seus personagens às raias do sofrimento e da desesperança. Mas aqui neste finale, encontramos um genuíno termo para a maior parte das histórias desenvolvidas até aqui, prenunciando guinadas para a história de tais personagens.
A morte de sujeitos jovens é sensivelmente mais dolorosa, seja pela sensação de anormalidade ou antinaturalidade, seja pela identificação que ela nos causa. Tocado pela morte de Aaron, Nate decide realizar a cirurgia de embolização da sua má-formação arterial. Rondado pela sombra da morte (hipótese bem factível, quando se fala em cirurgia intracraniana), Nate procura deixar as coisas em ordem.
Ruth era o único membro da família para quem Nate não contara de sua doença. Toda a preocupação de Nate com a fragilidade da viúva Fisher não poderia estar mais errada. Ela reúne a prole em torno de si, segurando todas as pontas. Afinal, não são os filhos que têm que proteger as mães, Nate. Mas as mães que protegem os filhos!!! ;(
Nate também conhece, enfim, a pequena Maya, com quem possui um magnetismo fantástico – que não é verificado quando a interação é com Lisa. Oh, personagem mala!!
A inesperada herança que Federico recebeu de sua “abuelita” teve seu propósito revelado aqui. Como um último suspiro do veneno da Kroehner, Fisher & Sons recebeu uma denúncia que motivou uma inspeção da vigilância funerária (ou algo do tipo). O resultado foi uma multa e a obrigatoriedade de reformas que excedia o capital que Nate e David possuíam. Abre-se então o terreno para o sonho do restaurador portorriquenho: sua herança compra sua participação como sócio na empresa funerária.
O recurso a Federico só foi necessário porque Ruth já havia torrado seu dinheiro com o pagamento da dívida de Nikolai. O que se mostra aqui relativamente infrutífero (relativamente, pois podemos considerar que gestos de amor devem ser desinteressados) com o bendito fim do relacionamento entre Ruth e Nikolai. Toda a excentricidade do russo que tanto nos fizera gargalhar já se esvaneceu, com um homem cada vez mais ensimesmado, fechado e resistente aos apelos de Ruth por mais intimidade. E convenhamos, ela é muita areia para o vasinho de plantas dele.
What a feeling! Ge-ni-al a fantasia de Claire com sua entrevista na escola de artes. De todos os hilários nonsenses que Six Feet Under proporcionou, ela se esborrachando ao som do tema de Flashdance foi certamente dos melhores. Mas a entrevista de verdade teve sua real cota de surpresas. Claire, enfim, assume de forma catártica (no momento mais inesperado) seu luto pela morte do pai, chorando ao se lembrar que começou a produzir arte exatamente após sua morte. Além disso, Claire consegue vocalizar o sentimento de todos aqueles que não experimentaram no colégio os melhores anos de suas vidas e todas aquelas falas saudosistas clichês que não contemplam underdogs e outros losers. Claire grita por liberdade e por autoreconhecimento e estamos prontos a trilhar esta jornada com nossa ruivinha!
Já o destino de Keith não é tão promissor. Após ser expulso da Polícia, Keith se aprofunda na sua espiral de tensão e confusão. Mais sofrido foi ver a perda da pequena Taylor, uma criança perfeitamente abusada e boquirrota o bastante para se sobressair neste mundo de adultos so freak. Se qualquer demissão é dolorosa, imaginem no militarismo, onde os sujeitos são absolutamente conformados a encarar aquele ofício como missão e sentido da vida. Tudo isso reverbera na relação com David e aqui é extremamente salutar que estamos em 2002, o que confere um fabuloso pioneirismo à abordagem realista que Six Feet Under faz da homossexualidade de forma geral e da relação homossexual monogâmica (a.k.a. casamento), com todas as crises e concessões que ela exige.
Se formos justos, concordaremos que David é quem fez mais concessões aqui. Se sua postura ainda vacilante com relação à sexualidade, contrastava com o orgulho e autoestima vitoriosos de Keith [quer maior sinal de autoestima lá no alto do que usar bigode no século XXI??!!!], agora vemos David precisando assumir a provisão emocional do relacionamento – o que é decerto uma perspectiva interessantíssima.
Falando em David, foi de partir o coração a cena em que David lista as instruções de Nate para seu funeral…
Outro momento agridoce para todos nós foi a conversa entre Nate e Brenda. Tão sincera, tão rasgada e tão dolorosa. E que tristeza ver Brenda arrumando suas coisas (sério que tudo cabe em Golf vermelho???) e partindo para um destino incerto. Oh, céus, por quanto tempo ficaremos sem você, Bren?
The Last Time finaliza esta temporada, fornecendo um lindo e tão ansiado (especialmente por Ruth) momento de intimidade familiar, o qual não se deu na vazia formalidade de uma cerimônia de formatura de high school, mas que foi encontrada exatamente na sala de espera de um hospital. Ali a iminência de uma possível segunda morte, o irremediável mal com o qual todos temos de tratar (#AutodaCompadecidaFeelings), o clã dos Fisher dá as mãos em solidariedade mútua e torcida por seu primogênito, o qual, anestesiado, para, enfim, de correr (ou de fugir?) e atenta para um ônibus vazio (como aquele que levou Nathaniel) que estaciona ao seu lado com as portas abertas. Será este o fim da linha para Nate? Ou o começo de uma nova viagem?
RIP 1: A irmã de Vanessa interpretando uma vadiazinha na Warner. Sdds, Warner!!
RIP 2: Acostumados já com os detalhes curiosos do processo de embalsamento para enterro, pela primeira vez, Six Feet Under acabou por nos instruir um pouco da dinâmica da cremação (inclusive com alguns dos acidentes funestos que costumam acontecer por ali).














