O episódio da semana é uma continuação direta dos acontecimentos do anterior e centra a sua trama na tentativa de Jack de salvar a vida de Boone, enquanto Claire entra em trabalho de parto. A clássica máxima do ‘acaba uma vida, começa uma vida’. A metáfora é barata, mas o episódio é ótimo.

A desgraça de Boone é extensa. O espectador sente a agonia lancinante do personagem durante todo o episódio e, por mais que não deseje fazê-lo, preza pelo sucesso de Jack. Os flashbacks do médico, por sua vez, são dispensáveis, porém frisam bem o seu heroísmo, tornando o seu fracasso maior do que as suas conquistas.

Shannon – insuportável como sempre, sempre digno ressaltar – longe num encontro romântico enquanto o seu irmão morre, o desaparecimento de Locke, Jack sendo (convenientemente) o único compatível (mais ou menos) para a transfusão sanguínea, são todos instrumentos para construir tensão.

Instrumentos estupendos, aliás, pois o episódio é completamente perturbador – até porque tem Claire e não há nada que perturbe mais –. Adorei a ausência de Locke. Não só pelas perguntas (será que ele entrou na escotilha?), mas também porque o buraco emocional fica mais profundo ainda.

Do início ao fim, não acreditei na morte de Boone. Primeiro, porque não esperava uma morte tão seca e crua tão cedo. Segundo, porque ouvi dizer que o personagem crescia entre os fãs e se tornava um dos favoritos. Como isso poderia acontecer se ele estivesse morto? Até que lembrei que estamos falando de Lost e que eu sei demais sobre o universo da série para quem nunca a viu.

O parto de Claire foi sofrível. Mais para mim do que para ela. Se não fosse por Kate, Charlie e Jin, não sei ao certo como teria suportado. Só me fez perceber como estou apaixonado por Sun e como Claire tem um toque de Midas reverso e transforma em porcaria tudo o que toca.

Pessoalmente, creio que teria sido muito mais interessante se Jack não tivesse desistido de Boone. Se o doutor tivesse amputado a sua perna (ao som dos seus votos de casamento, para deixar a cena mais chocante) e ainda assim Boone morresse, as consequências seriam extremas.

Prolongar o sofrimento de Boone e vê-lo morrer de qualquer forma não seria uma cuspida na figura mítica de Jack, seria um murro na sua boca. Eu queria uma morte menos gloriosa para Boone, pois despedir-se do sobrevivente de maneira ainda mais deprimente e bárbara mudaria para sempre a ilha.

É isso que espero que Do No Harm traga: mudanças. Mudanças no tom da série. Mudanças nas relações entre os personagens. Mudanças na estrutura narrativa dos episódios. Pois se tudo continuar igual, a morte de Boone terá sido em vão. 

Enquanto isso, no indecifrável epílogo da mente… 

(?): O que será que acontece com a esposa de Jack? Ou melhor, quando exatamente ela deixará de ser Shephard e passará a ser Dunphy? Eu sei que é uma preocupação estúpida quando Locke está perto de entrar na escotilha, mas continua válida. 

(.): Eu me sinto contente e orgulhoso toda vez que vejo Sawyer mais ser mais sociável (sem deixar de ser Sawyer, é claro). 

(!): Enfim uma piada de Hurley me faz rir! ‘You okay, man? You’re looking kind of goth’. Só foram precisos 19 episódios para o alívio cômico funcionar comigo.

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