
Seja bem-vinda, Emma!
Bebês são um recurso bastante manjado em roteiros de séries quando a equipe enxerga a necessidade de uma reviravolta na vida de seus personagens. A gravidez de Rachel, semi-anunciada desde o season finale da temporada anterior, não é exceção, e apareceu aqui como um claro sinal de que o estoque de boas ideias para a vida dos nossos seis amigos já estava chegando ao seu fim.
O que não torna o nascimento de Emma um problema ou defeito da série é, como quase tudo em Friends, a genialidade de sua execução em The One Where Rachel Has a Baby (“Aquele em que Rachel tem o bebê”). Obviamente, os grandes protagonistas do episódio são Rachel e Ross, que passam juntos por todo o processo que foi, literal e metaforicamente falando, um verdadeiro parto. E, como se não bastasse a espera absurda para a dilatação (“TRÊS CENTÍMETROS??? Até EU já dilatei três centímetros!!!” é certamente uma das grandes pérolas de Ross em toda a série!), o casal ainda é obrigado a aguentar tudo em um quarto semiprivativo – um ótimo eufemismo para “não privativo”, mesmo – vendo um sem número de mulheres entrando grávidas e saindo com filhos nas mãos antes de Rachel.
Só no fim da primeira parte do episódio duplo somos capazes de compreender o real motivo desse quarto não privativo, e ele atende pelo nome de “Oh… My… God!!!”. Simplesmente genial a participação de Janice nesse season finale! Adoro ver David Crane e Marta Kauffman (que assinam a segunda metade do roteiro) inventando desculpas para trazer uma das melhores coadjuvantes das sitcoms de volta ao seu show. Maggie Wheeler, como sempre, faz um trabalho magnífico transformando em realidade o pesadelo que é ver (no caso, ouvir!) Janice tendo contrações.
Um problema com o uso de Janice, porém, foi tê-la feito enfiar minhocas na cabeça de Rachel quanto à solidez da criação da filha. É absolutamente incrível como, de repente, a mulher consegue mudar tanto a cabeça de Rachel em relação a Ross daquela maneira. Não é um fato isolado essa utilização de Janice como uma espécie de “vilã involuntária”, mas seria muito melhor vê-la apenas como um grande e extremamente eficiente alívio cômico.
O contraponto à visão supostamente pé-no-chão (ou, no caso, pessimista) de Janice é feito por Phoebe, alguém que tem no currículo a forte crença em destino, em almas gêmeas e em todas as “sobrenaturalidades” do tipo. O papel de mostrar a um inexplicavelmente cético Ross que aquela pode ser a oportunidade para que ele conseguisse conquistar o que sempre quis desde os 15 anos não poderia ter ficado em mãos melhores. O diálogo entre os dois personagens foi belíssimo e extremamente bem pensado, fazendo com que compreendêssemos, até certo ponto, a relutância de Ross: agora não eram apenas ele e Rachel quem se machucariam caso tentassem voltar a ficar juntos. A felicidade de Emma também estava em jogo. Ao mesmo tempo, é praticamente impossível não pensar como Phoebe, quase indignada porque os dois não estavam juntos naquela altura do campeonato. E, já com o anel da avó em mãos, era esse o empurrãozinho de que Ross precisava para mostrar o homem que é e assumir a família.
Da mesma forma, a cena em que Monica abre mão do nome que havia escolhido para a própria filha para deixá-lo ser usado por Rachel é, apesar de simples, realmente emocionante. Sabemos muito bem o que ter filhos significa para Monica, e, justamente por termos tanta intimidade com a personagem, compreendemos o tamanho e a beleza do seu sacrifício. Havia infinitas possibilidades de explicações para a escolha do nome de Emma, e nenhuma delas teria sido melhor do que a fantástica ideia de Crane a Kauffman.
As grandes fraquezas de The One Where Rachel Has a Baby residem nos arcos que não têm relação com o nascimento em si. Toda a história de Joey fingindo ser Drake Ramoray para ajudar Phoebe chega a ser incômodo de tão inverossímil, e, apesar da tentativa feita pelo roteiro de nos fazer acreditar no contrário, o próprio romance de Phoebe com o bonitão da perna quebrada não entrega uma sensação de urgência, ou sequer de possibilidade de futuro, que justifique esse esforço todo. Monica e Chandler não ficam para trás, porque passar um episódio duplo basicamente procurando um lugar para transar no hospital não é lá uma das melhores tramas já pensadas para o casal (na verdade, é uma das piores, mesmo). Apesar disso, a decisão de finalmente ter um filho não pode ser ignorada, já que certamente dará pano para a manga nas próximas temporadas.
Voltamos, então, a Ross e seu pedido de casamento. Mas, para isso, precisaremos de trilha sonora. Música, maestro!
Sim, amigos, ele está de volta! O tubarão, tão famoso no nosso texto sobre The One Where Joey Tells Rachel, decidiu reaparecer para nos entregar aquele que pode ser considerado o pior cliffhanger de toda a série (numa disputa muito feroz com o da próxima temporada, vale comentar): Joey pedindo Rachel em casamento SEM QUERER… E OUVINDO UM “SIM”!!! Mais uma vez, afirmo: Joey “furando o olho” de Ross é um erro absurdo, e não há como compreender por que a insistência em uma ideia tão terrível. Mas tudo piora muito quando adicionamos uma dose tão cavalar de inverossimilhança como aconteceu aqui. Santa cena mal pensada e mal escrita, Batman!
Apesar do cliffhanger pífio e de seus notáveis defeitos, The One Where Rachel Has a Baby encerra um ciclo de desenvolvimento de uma nova Rachel, que pode ser resumido como “a preparação para ser mãe”, processo que é um dos principais trunfos da oitava temporada. E, no episódio do nascimento de sua filha com Ross, não há nenhuma preocupação maior do que o natural fortalecimento dos laços do casal-símbolo da série. Afinal, agora eles são oficialmente uma família, por menos tradicional que ela seja.














