
Que coisa feia, Rachel!
Em seu sétimo ano de vida, a premissa básica de Friends é a de modificar um pouco o seu foco habitual. Se a série normalmente aposta em focar em Ross e Rachel e desdobrar os arcos secundários a partir das interações com esse primeiro, durante uma temporada quem ocupará esse posto será Chandler e Monica. Não é um movimento de puramente tentar dar mais espaço a um casal mais popular, mas uma consequência lógica dos eventos ocorridos no último season finale. Se um casamento entre ambos irá ocorrer, nada mais natural do que eles se tornarem o foco durante essa bateria de episódios.
Essa é uma característica marcante em “The One With Rachel’s Book” é um claro exemplo dessa nova dinâmica. Por mais que Joey e Rachel ou Ross e Phoebe, com suas tramas que envolve massagens e pornografia, consigam complementar a trama principal com um foco no humor, no fim toda a premissa do episódio se baseia no obstáculo que surge para a concretização do já esperado casamento.
Quando se lida com a celebração do casamento de um casal do elenco principal, alguns clichês são esperados. Dentre estes, o mais importante é que existirão muitos problemas técnicos para a concretização da festa, os quais podem surgir das mais diversas maneiras. No arco em questão, o problema encontrado foi a falta de dinheiro para que se possa ter o casamento dos sonhos .O acerto desta trama é o de rapidamente retomar a forma como os Gellers tratam sua filha mais nova, para logo em seguida gerar um estudo sobre como Monica e Chandler lidarão com a ocasião. Por mais que esse possa ser um artifício de roteiro batido, Friends consegue a sustentar ao reafirmar a já conhecida química existente entre os noivos e explorar um pouco da personalidade já bem definida de ambos.
O roteiro de Andrew Reich e Ted Cohen é hábil ao lentamente retirar todas as esperanças de Monica para a realização do seu sonho e assim a colocar em confronto com o espírito desiludido do seu companheiro. Afinal, qual seria o motivo de se fazer uma festa colossal com o único objetivo de vender a outras pessoas uma falsa imagem de felicidade? Não é a toa que os únicos casamentos mostrados anteriormente na série são as relações frustradas de Ross, enfatizando que o que deveria estar em jogo é a construção de um vínculo saudável no lugar de se prezar por uma simples cerimônia. É isto que torna o discurso fina de Chandler tão belo, ao utilizar o seu sarcasmo para mostrar à sua noiva o verdadeiro motivo de ter guardado dinheiro tantos anos. Um argumento tão bem colocado que nem mesmo a pessoa mais cabeça dura e controladora do grupo consegue desviar.
No caso de Joey e Rachel, a trama consegue ser um bom exemplo de humor ao explorar a interação entre os novos companheiros de quarto. Matt Leblanc e Jennifer Aniston se encontram em ótima forma para um jogo de provocações mútuas que diz muito sobre a relação que os dois terão durante as próximas temporadas. Fechando o elenco, Ross e Phoebe conseguem utilizar do humor de vergonha alheia típica do paleontólogo para o colocar em uma situação que consegue despertar o riso do espectador, sendo beneficiado por interações com sua amiga que conseguem ser bem-sucedidas ao explorar o modo cético e amargo de um e esotérico e ingênua da outra. Mesmo sendo uma reciclagem de conceitos executados de forma incessante pela própria série, a execução é tão simples que diverte.
“The One With Rachel’s Book” é um típico exemplo de episódio de início de temporada que consegue funcionar adequadamente por não tentar ter uma qualidade superior ao que a sua proposta pode comportar. Pode parecer pouco, mas isso é sinônimo de um episódio incrivelmente agradável de Friends.













