O primeiro episódio duplo de Friends.

É inevitável que comédias de muito sucesso façam episódios duplos em algum momento. E o fazem de forma verdadeira, criando um capítulo de uma hora inteira com tramas que duram por toda a extensão. Esse tipo de abordagem é geralmente um risco muito grande corrido pelos roteiristas, que precisam alterar a estrutura padrão de sitcoms para que seus arcos funcionem e não tornem o episódio excessivamente segmentado, já que comédias possuem apenas meia hora pelo motivo de suas piadas precisarem ser ágeis e evitar repetições desnecessárias, o que é mais difícil quando o tempo é dobrado. Assim, nesta primeira investida de Friends em algo do gênero, a série não consegue escapar de alguns problemas, mas se sai muito bem em criar humor neste bom The One With Two Parts.

O episódio, escrito por David Crane e Marta Kauffman, não se foca em nenhum assunto específico, deixando as tramas de seus personagens fluírem naturalmente. Chandler, por exemplo, vive uma situação inusitada, onde se vê obrigado a demitir uma empregada que acha muito bonita e que nitidamente gosta muito dele. Enquanto isso, Joey conhece a irmã gêmea de Phoebe, Ursula, e se interessa por ela, o que deixa a amiga visivelmente incomodada, já que não se dá bem com a irmã há muitos anos. Por sua vez, Ross faz, com Carol e Susan, aulas para contribuir com o parto que está por vir, deixando o futuro pai inseguro quanto à sua preparação para a dura tarefa. Finalmente, Rachel e Monica, após uma desastrada tentativa de tirar as luzes de Natal, vão ao hospital e fraudam o seguro de saúde para que Rachel não tenha que pagar por seus exames.

Repare que, em toda a premissa do episódio, nenhum dos personagens se vê envolvido diretamente em mais de uma trama. Essa estratégia do roteiro é importantíssima para evitar a segmentação das duas partes, aumentando a fluidez da narrativa a partir do simples fato de que cada personagem recebe um único arco, tornando os quarenta minutos de exibição mais coesos e compactos, raramente permitindo grande distinção entre as duas partes. É comum que roteiros trabalhem a abordagem inversa, definindo rigidamente tramas para que o espectador perceba estar assistindo praticamente a dois episódios distintos, o que pode ser interessante para a exibição de reprises, mas prejudica seriamente a experiência do espectador.

Assim, The One With Two Parts cria uma cadência narrativa extremamente eficaz, promovendo um grande rodízio que jamais passa a sensação de que uma trama está se tornando demasiado longa. Por exemplo, a história envolvendo Chandler e Nina é perfeita ao criar o humor atrapalhado típico do personagem, com situações desconfortáveis e fazendo uso eficiente do timing de Matthew Perry, mas jamais funcionaria se durasse todo o episódio, ainda que os acontecimentos não sofressem nenhum inchaço. Dessa forma, Chandler se vê livre para servir de apoio a outras tramas, como a de Ross e Marcel, já nos minutos finais.

Aliás, o episódio se foca tanto em ser extremamente igualitário para todos os seus personagens que acaba soando ligeiramente disforme em certos momentos, que acabam recebendo menor atenção do que em um episódio comum, por exemplo. O crossover com Mad About You é prova disso. A cena em que Jamie entra no Central Perk e confunde Phoebe com Ursula é um excelente encontro de duas grandes comédias, mas é tão curto que acaba desaparecendo diante da tonelada de acontecimentos propostos pelo episódio.

E Ursula acaba sendo o grande destaque do episódio, nem tanto pela aparição da personagem, que é relativamente pequena, mas pelo talento de Lisa Kudrow em interpretar dois papeis completamente diferentes, mas com um núcleo semelhante. Tanto Phoebe quanto Ursula possui uma característica pausada e indiferente, mas a segunda cria um humor mais seco e direto, enquanto Phoebe é engraçada por ser sonhadora. Assim, Kudrow consegue, em um mesmo episódio, compor as duas personagens com perfeição, tornando-as tão distintas que o espectador consegue afirmar que é Phoebe quem “termina” com Joey logo nas primeiras linhas de diálogo, fato que seria impossível caso a atriz fizesse dois papeis genéricos, como boa parte dos atores de comédia. Um Charlie Sheen, por exemplo, seria incapaz de tornar esse pronto reconhecimento possível.

Essa mesma trama é capaz de evocar o talento de Michael Lembeck como diretor. No momento que Joey confronta Phoebe sobre sua aprovação, note como Lembeck cria um plano em que todos os seis amigos estão na tela, com Joey e Phoebe em pé, em posições diametralmente opostas, com Rachel, Monica, Ross e Chandler sentados à mesa, entre os dois, o que revela com sensibilidade a situação constrangedora dos quatro, bem como o conflito entre os dois brigados. É curioso como comédias, especialmente multicâmera, raramente exploram o conceito de passar mensagens através de imagens, preferindo apelar para o excesso de descrição, que sempre prejudica o ritmo e o humor.

Ainda que não tenha o mesmo peso da dupla Joey/Phoebe, Monica e Rachel conseguem criar momentos satisfatórios. Especialmente pelo fato de a série explorar ao máximo a grande amizade das duas, que conhecem uma a outra como ninguém. Assim, a cena em que os dois médicos assistem, atônitos, a uma guerra que aparentemente não faz sentido algum, se torna naturalmente engraçada, por ser inusitada e por colocar o espectador em uma posição superior à dos médicos.

Já Ross acaba dono da trama menos engraçada de The One With Two Parts. Não pelo seu começo, que funciona bem ao revelar o extremo desconforto do personagem com a situação que vive, o que é compatível com a natureza de Ross. Mas todo o conflito emocional sobre ser um bom pai acaba não funcionando como deveria, especialmente porque a trama acaba se tornando excessivamente longa. E embora passe por uma cena particularmente divertida com Jack, termina de uma forma ligeiramente piegas e clichê, não trazendo a carga emocional que o Crane e Kauffman pensam estar trazendo.

Mesmo assim, é inegável que The One With Two Parts seja um episódio que funcione por grande parte do tempo, criando uma narrativa formidável que é a base para as próximas investidas do tipo de Friends, que são incrivelmente superiores. E, mais do que isso, é um episódio que mostra que o talento de seus roteiristas para criar piadas ágeis e das mais variadas formas é absurdamente grande.

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