
Um episódio que é perfeição.
Existem momentos no universo das séries em que simplesmente podemos apontar o dedo e dizer “Uou! Isso aqui tem muito potencial!” quando terminamos de assistir determinado episódio. Algumas séries históricas demoraram certo tempo para chegar a esse ponto (Seinfeld precisou de mais de uma temporada, por exemplo) e outras conseguem ser bem objetivas e mostram sua verdadeira face imediatamente. Friends posiciona-se no segundo grupo. Tudo nessa série estava bonito e divertido, mas ela apresenta a capacidade de atingir outro nível absurdamente hilário com “The One with the Blackout”.
É sensacional a maneira como o roteiro se preocupa com a estrutura do episódio. Começamos com uma cold open simples, porém bem divertida e capaz de estabelecer o blecaute como o objeto em que o holofote será posicionado. A partir disso, percebe-se que a narrativa corre com uma sutileza e fluidez que poucas séries de comédia são capazes de desenvolver. Entretanto, o mais interessante que podemos observar em ““The One with the Blackout” é o estabelecimento sublime de duas linhas narrativas opostas, bem definidas e com questionamentos semelhantes, mas com objetivos completamente diferentes.
A primeira, que carrega grande parte da carga cômica do episódio, está relacionada à insegurança de Chandler com mulheres, uma tecla que a série vem batendo inúmeras vezes nesse pequeno período de sete episódios. Para dar continuidade a esse “arco” criado quase que por acidente, aspecto que traz ainda mais interesse para esse lado da história, a série joga o personagem em outra situação em que ele é forçado a se relacionar com alguém do sexo oposto. É louvável o modo como a série vem abordando isso constantemente sem parecer repetitiva, no caso deste episódio, grande parte dessa armadilha é contornada graças ao incrível desempenho de Matthew Perry, que parecia estar escondido nos episódios iniciais, pois seu personagem ainda não tinha recebido uma responsabilidade tão grande como a exibida aqui.
Aliás, a responsabilidade individual dos personagens é outro aspecto muito bem abordado. Observe como cada membro do grupo ganha algum tipo de grande cena, algo que remete também a questão da estrutura que foi destrinchada anteriormente. Isso é importante, pois vemos como eles reagem individualmente à determinada situação, fazendo com que o melhor do episódio seja descoberto: todos funcionam perfeitamente ali. Olhe como Joey alterna entre um sábio mulherengo e conselheiro de Ross para o idiota que conhecemos quando ele escuta a história de Monica sobre sua pequena queda por ele no início. Isso abre um leque extenso para o personagem aqui, que constrói pequenas histórias auxiliares ao longo do episódio para complementa-lo de forma bem divertida. Aliás, a simples revelação de Monica e o quanto nós nos importamos (e rimos) com isso já é uma pista de como a série está funcionando na hora de fazer seus personagens conectarem com o público.
O episódio, além de mostrar como cada uma dessas pessoas se comporta, apresenta-se como um excelente modelo de como criar histórias semelhantes com recursos e finalidades diferentes. Chandler, como vimos anteriormente, tem problemas com as mulheres e sua relação com a modelo gera uma cadeia de eventos vergonhosas e extremamente hilárias, como sua briga com chicletes, algo que tem seu efeito ampliado graças a seus pensamentos, um recurso que pode causar certa estranheza inicial graças a sua peculiaridade, mas acaba funcionando naquele ambiente. Enquanto isso, vemos Ross possuindo uma situação análoga quando ele procura o momento perfeito para abrir o jogo com Rachel, entretanto, essa segunda parte possui um tom mais sério do que qualquer outro momento que a série criou até agora*. Sim, existem momentos divertidos como as aleatoriedades de Phoebe, mas durante todos os vinte minutos o episódio esclarece como aquela situação não funcionará para Ross, o que deixa o público ainda mais inquieto ao vê-lo em um jogo que ele não pode vencer no momento.
* Pode parecer conspiração, mas talvez isso explique o porquê de o espaço dos acontecimentos de Chandler ser mais light do que a casa de Monica durante o blecaute.
Para completar, entra em cena um italiano qualquer cujo nome é Paolo, personagem que possui certo semblante até mais estranho que os outros e que possui uma história que não é de interesse de ninguém nesse momento, pois é deixado claro que o dilema de Ross é o ponto chave daquela história, o que a série entende perfeitamente. Paolo não fala inglês perfeitamente, o que retira grande parte do fardo do roteiro ter que apresenta-lo, abrindo espaço para que os personagens possam fazer piadas sobre o assunto e que Ross deixe evidente o seu ciúme diante da situação. Várias situações embaraçosas surgirão a partir do momento em que Paolo entra em cena, pois sua única função será ser um obstáculo temporário para o casal principal. No episódio, o roteiro trata esse aspecto de forma adequada, desenvolvendo gradualmente o ciúme de Ross até o momento em que ele explode, gerando um contraste entre sua personalidade esperançosa do início de “The One with the Blackout”. Será que a série continuará bem nos episódios seguintes? Bem, é complicado dizer, pois esse tipo de narrativa normalmente cria aquelas situações que se tornaram conhecidas mundialmente como “lenga-lenga”.
Enquanto não chegamos aos próximos episódios, apenas gostaria de ressaltar como os diálogos são impecáveis nesse episódio. Ocorre um sistemático bombardeio de piadas que desenvolve um ritmo extremamente acelerado, permitindo que sejam incluídas buscas por donos de gatos, Monopoly, o descontentamento de Phoebe por ser sempre a última a saber e uma ótima piada de encerramento por parte de Chandler e que se crie um senso de urgência para acontecimentos simples como a busca pelo dono do gato. Tudo isso é o que Friends vem mostrando, mas que aqui funciona perfeitamente graças à exploração máxima de uma já excelente premissa.
Até o próximo episódio!
Para quem já assistiu a série toda: quem pensou em Smelly Cat no início?














