
Conhecendo melhor os personagens.
Uma característica muito comum em sitcoms é a abordagem de relacionamentos, entre personagens fixos ou não. Por conta disso, muitas comédias se repetem ao criar tramas muito semelhantes, tratando de casamentos, términos, reuniões, entre outros. No entanto, é preciso ser inteligente para utilizar o tema para criar uma subversão, abordando o tema de forma sarcástica, ironizando os inúmeros clichês do gênero para criar algo único. E se algumas séries o fazem pontualmente, mas sem criar uma justificativa elaborada para isso, Friends cria todo uma estrutura dentro de um episódio para brincar com diversas frases prontas, o que resulta neste ótimo The One with the Thumb.
O episódio, escrito por Jeff Astrof e Mike Sikowitz, trata basicamente relacionamentos. A começar pelo rápido encontro de Phoebe, quando seu parceiro deixa claro, implicitamente, que não a verá mais. O que desencadeia uma conversa sobre frases feitas para terminar relacionamentos, que Rachel desconhecia. Enquanto isso, Monica não quer apresentar seu novo namorado, Alan, para seus amigos, depois do ocorrido com o anterior. No entanto, ela acaba cedendo à pressão, e todos eles se apaixonam por Alan, criando um grande clima de desconforto no momento em que ela percebe não gostar dele tanto assim. Já Chandler, ao ensinar Joey como segurar um cigarro, retoma seu velho vício, incomodando todo o grupo, que quer fazê-lo parar a qualquer custo.
Após gastar dois episódios estabelecendo as dinâmicas entre os personagens, Friends aproveita para, logo em sua terceira semana, extrapolar sua estrutura narrativa, evitando ser minimamente situacional para criar um fluxo fluido de tramas, todas correlatas e importantes para o que virá a seguir. Assim, não é por acaso que The One with the Thumb comece com Rachel aprendendo sobre frases feitas para terminar um relacionamento e termine com um momento em que estas falas são disparadas em velocidade alucinante, como se o próprio “término” do grupo com Alan fosse uma espécie de laboratório para Rachel.
Aliás, a cena em questão é extremamente bem executada, criando um ritmo quase coreográfico entre os personagens, que se alternam para proferir falas de forma que todos participem igualitariamente, transmitindo para o espectador a noção de um grupo falando, sem a necessidade de que todos falem ao mesmo tempo. Por esse motivo, todos os clichês ditos por Ross, Rachel, Phoebe, Chandler e Joey se tornam inevitavelmente engraçados, traduzindo de forma perfeita todos os términos de relacionamentos já retratados em sitcoms. Nesse aspecto, essa sátira é brilhante simplesmente pelo fato de mostrar ao espectador que Friends tem condições de criar algo diferente, sem precisar do típico período de preparação de uma comédia, saindo de sua zona de conforto logo no terceiro episódio.
Não é apenas o relacionamento do grupo com Alan que importa no episódio. O recém-reatado namoro de Chandler com o cigarro também é muito bem explorado. É curioso como o vício do personagem é aproximado pelo roteiro de uma verdadeira relação amorosa, sem romantizá-lo em momento algum. Aliás, essa característica vem do fato de o vício ser muito próximo da paixão, trazendo sentimentos semelhantes. Assim, quando Chandler se recusa a abandonar o cigarro, chegando ao ponto de fumar escondido de todos, o que resulta na belíssima cena em seu trabalho, pontuada por uma trilha sonora precisa, não faz diferente de um adolescente que se rebela contra os pais para ficar com seu namorado. Por sinal, é exatamente essa a imagem que Friends quer nos vender de Chandler: uma criança crescida.
A exemplo de Chandler, The One with the Thumb também permite ao espectador conhecer melhor a personalidade de Phoebe, dedicando a ela tramas mais absurdas, compatíveis com as convicções da personagem. Dessa forma, é interessante vê-la inconformada com o engano de seu banco, o que diz muito sobre ela. E se a história envolvendo o dedão perdido em seu refrigerante não se encaixa com a premissa do episódio de tratar de relacionamentos, esse fato é perdoado por conta de ser exatamente Phoebe quem introduz o assunto, ainda na cold open. Além disso, o episódio ganha muito com o excelente timing de Lisa Kudrow, capaz de adentrar uma cena em andamento e ainda assim chamar os holofotes para si, como quando entra no Central Perk murmurando palavras ininteligíveis, em meio a um diálogo.
Aliás, é curioso como o episódio pouco se fundamenta em personagens específicos, preferindo adotar uma estrutura conjunta, o que é bem-vindo por conta do caráter único do episódio. Note, por exemplo, que são pouquíssimos os momentos em que os personagens aparecem interagindo com apenas um dos outros, apenas com personagens alheios, como a companheira de cozinha de Monica, ou a mendiga amiga de Phoebe (mais uma ideia bizarra proposta pelo roteiro para a personagem).
É de admirar que Friends consiga, logo em seu terceiro episódio, brincar com sua própria fórmula e estrutura e criar um episódio que não apenas explora ainda mais as características únicas de seus personagens como extrapola a ponto de criar um roteiro dinâmico e pouco repetitivo. Assim, The One with the Thumb mostra como a série é diferenciada.





















