Facepalm.

Uma característica bem sutil que se pode observar nos dois primeiros episódios de Friends é o quanto ela é uma série divertida (o que não é surpresa quando olhamos o grande sucesso que a mesma obteve), pois vemos os roteiristas priorizando totalmente o estabelecimento de Ross e Rachel como aquele casal que pode ficar junto no futuro ao invés de entrar de cabeça no funcionamento daquelas pessoas como um grupo que necessita um do outro. Isso é necessariamente um problema? Faz mal para os outros membros do grupo? Absolutamente não. Conhecemos muito pouco de Chandler, por exemplo, mas é difícil não criar compaixão por ele quando o próprio aborda sua sexualidade e compara bebês com alienígenas atacando a Enterprise. Esse estilo meio opaco que é mostrado por basicamente metade dos personagens (Joey, Chandler e Phoebe) contrasta perfeitamente com os estágios da vida dos outros (Ross, Monica e Rachel), fazendo com que as piadas disparadas pelo primeiro grupo consigam ter um efeito bem sucedido graças à ingenuidade (e o sarcasmo, no caso de Chandler) de quem está do lado de fora da situação. Tudo que acontece quando os personagens estão juntos é tão casual aqui, como no caso da cold open, um simples caso de divergência de visões entre homens e mulheres que torna-se bem divertido graças as analogias que beiram ao ridículo e só são capazes de ter esse caráter cômico por causa do primeiro grupo citado anteriormente.

Mesmo possuindo esse lado extremamente simples, que é, consequentemente, mais engraçado, “The One with the Sonogram at the End” é um episódio cujo foco é bastante audacioso para uma série que está se apresentando pela segunda vez ao telespectador, o que é positivo porque vemos como tudo funciona, não importando se é cedo demais. Os paralelos criados entre Rachel e Ross são perfeitos para estabelecer como eles se completam caso a série decida seguir com um arco amoroso entre os dois*.

* Apenas um recado: as reviews tentarão evitar comentar sobre acontecimentos futuros da série, limitando-se apenas ao determinado episódio ou aos anteriores. Por favor, se for comentar sobre acontecimentos futuros, explicite que fará isso. Resumindo: Um pouquinho de cuidado na hora de soltar spoiler!

Ross destacou-se imediatamente no primeiro episódio e o segundo aproveita logo esse fato, pulando rapidamente para um processo de continuidade que bate contra o típico humor que a série apresentou até aqui, mas que acaba funcionando graças às razões antes citadas. Enquanto os outros personagens ainda tentam achar o seu caminho, Ross aparece perfeitamente definido logo no segundo episódio, o que seu interprete é capaz de transmitir de imediato. David Schwimmer é perfeito para mostrar como seu personagem é miserável, mas explosivo com aquele olhar de cachorro maltratado que ele solta na cena entre Ross e Rachel sozinhos no Central Perk e sua gesticulação nas conversas com Susan e Carol.

Aliás, é com Ross que a série retira humor de situações entre familiares, algo marcante para um segundo episódio. Logo nas primeiras cenas, podemos ver como é a relação dele com sua mãe, seu pai, a ex-mulher e a mulher da ex. A lógica básica de uma sitcom é exibir como aquelas pessoas são incapazes de conviver com as diferenças, o que a série faz muito bem com os comentários da família Geller durante o jantar, trazendo características dissimuladas de Ross, sendo a analogia Monica/vacas um dos momentos mais divertidos de “The One with the Sonogram at the End”. Com Susan e Carol na consulta médica, o que vemos é o lado mais inconveniente do personagem, o que é um elemento ainda mais importante para que ele se estabeleça como o melhor do grupo justamente por receber tanta atenção por parte do roteiro, o que faz com que já se crie uma confiança de que os roteiristas podem fazer o mesmo com os outros.

Enquanto Ross descobre que sua EX-mulher LÉSBICA está GRÁVIDA, uma situação que por si só é engraçada, e dá passos importantes para frente, Rachel e sua relação com Barry é enterrada para que ela possa seguir com sua vida. Apostar nas desgraças dos dois personagens é uma excelente estratégia para correlaciona-los, e Rachel ganha momentos que, mesmo não sendo necessariamente engraçados, são importantes para ela. De realmente interessante desse lado do episódio observa-se a maneira como a série utiliza uma situação onde ela deveria sair por cima para fazer com que a personagem fique em um estado pior, gerando uma cena final ótima onde ela agora Barry e Mindy. Vemos Rachel preguiçosa e mimada por ela se considerar melhor que os outros, reduzir tal característica dela irá fazer maravilhas para a série.

Outro fator que faz com que possamos ter confiança em Friends é que o pouco que conhecemos de certas pessoas já é suficientemente necessário para vermos que essa série tem futuro, sendo Phoebe e sua história na cidade grande a melhor piada do episódio e ainda uma das primeiras características de sua vida que chegamos a aprender.

Mesmo não sendo perfeito, é evidente que “The One with the Sonogram at the End” segue a lógica de aprimorar outros aspectos mais importantes do que piadas em si, o que é feito de maneira espetacular e será essencial para os episódios seguintes.

Para encerrar:

No próximo episódio: Gabriel Oliveira estará com vocês mostrando Friends apostando em algo diferente do que ela vem fazendo até agora em termos de narrativa. Será que funciona? Bônus: polegares encontrados em latinhas.

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