Nada reflete de forma mais direta nossa personalidade do que analisarmos o relacionamento com nossos pais, e nada traz um clima maior de saudosismo do que lembrarmos de como isso se dava durante nossa adolescência. Nosso comportamento diante deles é um grande referencial para entendermos essa tão complicada fase. A turbulência que enfrentamos em casa (para os que enfrentam) é um espelho da falta de tranquilidade de então. Enquanto adolescentes, ainda há essa jornada pelo entendimento: entendimento do mundo, do outro e de nós mesmos. Para alguns, essa compreensão chega no começo da fase adulta, amadurecendo conforme os anos. Outros, entretanto, nunca alcançam. À época, ainda distantes da ciência da percepção interpressoal e intrapessoal, o planeta que somos, tão recente e mal banhado por sol, pede respostas urgentes e famintas. É nessa guerra pela verdade, mesmo não se sabendo como é a verdade, qual sua aparência e gosto, que residimos até essa maturidade entre aspas que nos espera após os dezoito. Spoiler da vida: talvez nunca encontremos essas respostas — e começo a suspeitar que nos tornamos adultos a partir do momento em que cansamos das perguntas. Freaks and Geeks nos questiona de sua forma divertida, nostálgica e exagerada.
Kim Kelly Is My Friend traz os momentos mais engraçados e extravagantes da série até aqui. Há uma cena de jantar, ou melhor, duas, que são imbatíveis no quesito vergonha alheia e já se tornaram as minhas favoritas da série. É de rir se escondendo, se é que isso faz sentido. Lá, o roteiro brinca com o embaraço que é conhecer os pais de alguns amigos e ter que lhes contar mentiras já no primeiro encontro. Quem nunca mentiu por um amigo que atire o primeiro spoiler. Apoiado nessas nossas lembranças, o texto faz uma representação das memórias, assim como faz com todo o resto, mas exagerando nas proporções e trazendo o clima cômico que o drama juvenil transparece. O caos das cenas está diretamente ligado ao caos imaginário da mente frenética de seus personagens. Todo dia é o fim do mundo para os jovens, e é aí que habita o jogo de interação que o roteiro cria entre a produção e o público. Talvez, à primeira vista, o desdobrar das cenas pareça exagerado, mas é justamente esse o objetivo, afinal, Freaks and Geeks é uma investigação da cabeça dos desajustados dos anos 80.
Kim tem sido, pelo menos foi nos três primeiros episódios, uma personagem “sobrando” na série. Nunca gostei de suas participações e acreditava que ela estivesse sobrando diante dos demais. Eu imaginei que essa minha ideia fosse mudar quando vi seu nome destacado no título do quarto episódio, e foi justamente isso o que aconteceu. O problema nunca foi a atriz, Busy Philipps está tão bem quanto todo o elenco, e não canso de repetir isso. Todos estão tão confortáveis e naturais dentro de seus papeis que fica fácil mergulhar na trama e esquecer as câmeras. Minha questão com a garota envolvia sua participação pouco aproveitada — ou necessária. O antagonismo representado por ela se estabelecia em um lugar incômodo e pouco trabalhado, relegado ao posto de falas pontuais e irritantes. Sua redenção se deu aqui.
Investigar a vida problemática de Kim através da amizade pouco provável com Lindsay foi uma decisão muito inteligente do roteiro, e espero que isso ocorra com outras personagens. A interação das duas, sempre mais perto da ofensa do que do elogio, funciona pelo contraste entre as personalidades. Os pais de ambas são usados pelo roteiro para simbolizar dois lados da mesma jornada, pouco prováveis. Não me entendam errado, há lares disfuncionais, mas creio que a questão aqui não seja essa. O que se quer, acredito, é encenar a tragédia ilusória tão presente nos corações de pessoas de sua idade.
Enquanto todos tentam se manter longe dessa loira e de sua constante agressividade, Sam está tentando entender a si mesmo e questiona não só os rótulos que recebe na escola, como a posição desta diante das injustiças que sofre. Os freaks e os geeks se esbarram novamente, dessa vez de forma mais direta, o que proporciona (mesmo de leve para alguns) reflexões sobre o próprio comportamento e o lugar de ser e estar diante do mundo. Não houve nada de muito substancial envolvendo os nerds nesse episódio. Continuamos a acompanhar a saga desesperada pelo crescer, dessa vez de forma literal, assim como vimos anteriormente. O que não sabem é que essa pressa em crescer logo vira arrependimento — algo que os adultos estão sempre a dizer, mas ninguém escuta de verdade.
Freaks and Geeks tem um roteiro que zomba de si mesmo, de suas personagens e presta homenagem aqui e ali (sem torná-lo cansativo) à cultura popular e aos marcos da época em que se estabelece. Sólido e inteligente, ainda é uma ótima receita para esquecer os problemas de adulto e mergulhar por quarenta minutos, ou uma maratona, nas mentes confusas e chapadas desses dois grupos que não têm nada em comum, além de tudo.














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