No mês de Abril, Tatiana Feltrin, vlogueira literária que eu admiro muito, fez um vídeo chamado “TOP10 Séries Formadoras de Caráter”, e Freaks and Geeks apareceu no ranking. Formar caráter é uma coisa muito delicada de se fazer e falar a respeito, mas, a partir desse segundo episódio, fica mais fácil entender o sentido da coisa. Sutilmente, mas de maneira precisa, com uma invejável pontualidade, o roteiro se desdobra para criar uma atmosfera que não soa caricata ou dramática demais, dois erros que outras séries cometeram ao tentar dialogar com o público. Aqui a conversa se estabelece com muito tato, de maneira contemplativa, mas delicada.

Lindsay, cujo olhar continuamos acompanhado, luta para fazer parte do novo grupo. Há essa estranheza em deixar o passado e se infiltrar em uma nova área, sentida desde o começo. A verdade é que ela não faz parte dessa turma, mas deseja fazer por já não se sentir representada onde estava, e esse é seu conflito. Os rapazes, por exemplo, estão longe de corresponder a suas aspirações idealizadas, comportando-se da maneira que estão habituados e lhe magoando no processo. Sua luta por sair da normalidade e parecer “estranha”, seja pelas roupas que adota ou a postura que se impõe, lembra-me do que temos hoje na mídia quando se trata de música e o conceito visual que muitos artistas adotaram para si. Esse trabalho para não ser ordinário é sempre perceptível, o que tira a naturalidade de um ou outro gesto e denuncia a falsidade dessa personalidade autoatribuída.

O que eu talvez tenha deixado muito de lado, mas que deve ser constantemente mencionado, é o trabalho desenvolvido pela atriz no papel da protagonista. Linda Cardellini, que nas minhas contas tinha vinte e quatro anos então, está bem dirigida e a tenuidade com a qual compõe sua personagem dá ao público o distanciamento necessário para analisar os questionamentos de época, mas a aproximação e empatia perfeitas para a situação. As pausas psicológicas, o respirar, o olhar: tudo está no lugar, e fica muito fácil imaginar que ela possuía a mesma idade da garota Weirs.

Não devo apenas parabenizá-la, pois todo o elenco está bem estruturado e confortável. Não é por nada que a série ganhou um Emmy por escolha de cast. Destaco James Franco e a malícia de seu Daniel e John Francis Daley e a inocência de seu Sam — se bem que eu poderia destacar todos os atores. Vou comentar aos poucos sobre cada um conforme os textos, então.

Beers and Weirs deixou um triângulo amoroso subentendido. A forma como tudo se desenrolou foi muito crível, principalmente porque, caso os rapazes resolvam mudar alguma coisa para conquistar a garota, isso deverá ser feito aos poucos. Eles apenas são quem são. O texto joga muito com a inocência de Lindsay, sua entrega. Algumas cenas são bem realistas e de fácil associação, como aquela envolvendo deixar que o alheio descanse a cabeça em seu ombro.

A festa, que logo sai do controle, foi uma boa maneira de fazer um encontro entre os dois grupos. No Piloto, eles não se cruzaram, mas aqui estão presentes na mesma situação, cada um sobre seu ponto de vista e vivendo suas verdades. A história envolvendo falsos bêbados conversa diretamente conosco, além dos momentos de diálogos constrangedores. Os geeks e os freaks são de universos diferentes, mas paralelos, e há uma ponte entre eles, esperando para ser cruzada. O jogo de aproximá-los nesses embates é interessante, e aposto que seguirá até o final da temporada.

Na produção, há sempre a citação de música e sua importância em nossa vida. É algo que muitas séries deixam de lado na hora de criar a rotina das pessoas de seus textos. Isso me lembra a forma como One Tree Hill cita música o tempo todo. O contexto histórico que se pode criar a partir disso relaciona-se diretamente com a ambientação, com menção a Sex Pistols, Led Zeppelin — ou até Dallas, que ressuscitou em nossa era. A trilha sonora também debocha das cenas, quase como um subtexto, sendo inteligente, mas moderado.

Brincando com o efeito placebo, Freaks and Geeks caminha sólida, falando sobre unicórnios, hippies e Chicago, mas nos direcionando as falas sem nunca errar o alvo.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.