Levanta, Mal! Agora o negócio ficou sério.

Até agora, fomos sortudos ao acompanhar a tripulação da Serenity, vimos como são as relações entre eles e a deles com os diferentes modelos sociais de outros planetas, observamos como essas pessoas podem criar e sair de confusões com a maior facilidade possível… A primeira metade da temporada de Firefly estabelece tudo que “Out of Gas” reafirma, mas, invés de utilizar questões socioeconômicas, o episódio cumpre seu objetivo de forma sublime através de problemas muito mais simples. Essa é basicamente a fórmula que Joss Whedon usa em todas as suas séries, mas que é bem melhor utilizada aqui porque a série conseguiu estabelecer seu universo de maneira muito mais rápida do que qualquer uma das outras séries dele. Nada de conspiração governamental e nem trabalhos ilegais, uma explosão aterrorizante, súbita e sem motivos permite que Firefly faça o seu melhor episódio até agora.

É interessante olhar como todos os problemas apresentados pelo episódio são silenciosos e, consequentemente, mais assustadores. Começamos com Mal caindo subitamente e uma explosão com características semelhantes poucas cenas depois. Não existe preparo, cold open divertida, não vemos os personagens descendo em um planeta e espalhando anarquia, não tem o vilão da semana… A problemática de “Out of Gas” é um defeito* mecânico da nave, algo que não pode ser evitado por nenhuma daquelas pessoas, fazendo com que grande parte do grupo se autoflagele por causa disso, desenvolvendo a um novo nível o amor deles pela nave. O fato de o episódio tirar o controle das mãos daquelas pessoas ao mesmo tempo em que mostra o processo de recrutamento da tripulação e como elas foram agraciadas com um novo lar e uma alta dose de esperança graças a Serenity cria um dos (vários) excelentes paralelos que compõem o episódio.

Todo o ambiente para isso é opaco, obscuro e pacífico ao mesmo tempo, dando forma sinistra ao episódio graças a uma direção que é atenciosa em todos os momentos. A primeira cena, por exemplo, por mais que seja simples, é algo inquietante por não estarmos acostumados com Firefly iniciar seus episódios assim, com a câmera passando vagarosamente pelos cômodos da nave** sem nenhuma aparente razão, mas é essa inquietação associada com os paralelos mostrados, à excelente atuação de Nathan Fillion, à calmaria mostrada por David Solomon nas transições das cenas aqui e outras razões que faz com que “Out of Gas” possua esse senso de urgência GIGANTE em sua história.

Os sonhos dos personagens da série sempre foram uma parte essencial deles, o que é reafirmado em cada um dos flashbacks de como eles entraram na nave. As peculiaridades de cada situação atingem o mesmo objetivo e o discurso de Mal para Zoe no momento em que ele apresenta Serenity para ela encapsula todo esse sentimento. Todas as cenas do episódio possuem sentimentos de amor, raiva, lealdade e divertimento misturados de uma forma que se torna possível passar o que cada uma daquelas pessoas estavam sentindo naquele período ruim. Esse caldeirão de sensações em “Out of Gas” ocorre graças à estrutura sublime que o episódio possui, o melhor da série nesse quesito, todos os personagens possuem a chance de ter um diálogo sobre como eles absolutamente amam aquela nave e o que ela representa. Bem, River apenas comenta que eles morreriam de frio, mas toda regra tem uma exceção.

Por causa da já citada bela construção, o episódio exibe pequenos momentos dos personagens que acabam sendo aumentados quando são jogados em paralelo com a sua função diante da catástrofe ocorrida com a nave, o que acontece justamente com Kaylee, que é mostrada como uma gênia com motores, mas que está contra a parede graças aos problemas da nave. Nota-se como os personagens reagem ao medo, dessa vez com um número reduzido de piadas irônicas e diálogos ágeis, o que não são problemas diante do objetivo que se pretende alcançar. Wash, por exemplo, coloca um “Foda-se!” na testa e assim segue por grande parte do episódio, algo diferente do que vimos dele até agora, uma atitude extremamente positiva para o personagem, pois ele aparentava ser o mais planificado dali até agora.

A narrativa do roteiro composta por três diferentes focos é entendida por todos os elementos do episódio, fazendo com que tudo não apareça como um luxo desnecessário, como os diferentes tons de cores em cada período e os simples planos fechados que predominam ao longo de “Out of Gas”. Tudo que é contado já é de nosso conhecimento, porém, explicar as razões que fizeram com que os personagens se tornassem as pessoas que conhecemos e fazer isso com cenas que são belas não importando nem o que está sendo dito é coisa de gênio. Sabemos que Jayne venderia a mãe por um preço que considerasse adequado, que Kaylee adora motores, que todo mundo ali ama Serenity, mas são sentimentos e fatos amplificados graças a linda poesia que “Out of Gas” é.

Outras observações:

* Particularmente, acredito ser belo o momento em que o fogo da explosão vai movimentando-se até o lado de fora da nave.

** A rima de iniciar e terminar com uma imagem da nave é um belo aspecto do episódio.

– A postura de Mal durante todas as cenas é incrível. Sabemos que ele é um excelente líder, mas as situações que ele enfrenta aqui permitem que ele seja um sincero herói pela primeira vez na série. Sua dureza ao falar com Wash, a delicadeza que ele usa quando trata Kaylee e seu conselho para Inara sobre Jayne são aspectos que provam como ele conhece aquelas pessoas.

– Por falar em Inara, é ótimo vê-la mais uma vez como aquela pessoa inteligente que sabe analisar os outros. Seus diálogos com Simon e Mal trouxeram de volta o melhor lado dela.

No próximo episódio: Simon e River ganham um grande pedaço do holofote, o que compensará a ausência deles nesse texto.

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