
O que você faria pelo melhor personagem de sua série?
Quem assistiu: Pegue os lencinhos.
Quem não assistiu: Cuidado com os spoilers abaixo.
Se um dia você estiver passando por uma rede social qualquer e ver alguém falando que a quinta e última temporada de Angel é a melhor coisa que Joss Whedon já fez, não fique muito surpreso. Enquanto essa afirmação é bastante subjetiva, é impossível desconsiderar essa temporada de Angel na “Greatest Hits” de Whedon. É bastante irônico ver um episódio tão dramático aparecer depois de um que tem um tom mais leve e é uma das obras mais criativas que a televisão viu, o que acaba sendo o grande trunfo de “A Hole In The World”, que consegue transformar toda a conhecida atmosfera sombria que sempre foi um dos destaques de Angel para um novo nível de terror, o que acaba fazendo com que a sequência final de episódios da série possuam um efeito ainda maior sobre o seu público. Com Joss é assim: Em um episódio, um casal fica junto e no outro a mulher cospe sangue e cai nos braços do homem durante o que aparentaria ser mais um dia normal de trabalho. Simples.
Não é novidade para ninguém que os personagens dessa série não se amavam, mas tinham que permanecer unidos para um bem maior. A gigante exceção dessa regra era a doce Fred, que conseguia trazer certa calma e tons de humanidade para toda aquela confusão que tomava conta dos escritórios de Wolfram & Hart e das ruas de Los Angeles. E o mais importante que se pode tirar da maneira como ela faleceu nesse episódio é que agora não existe mais aquele pequeno indício de arco-íris que Fred colocava dentro das nubladas mentes dos homens da série, fazendo com que todos cheguem a conclusão de que ela é a peça mais importante daquele quebra-cabeça e que sua falta será literalmente um BURACO no mundo. Joss Whedon* sempre soube utilizar a morte de personagens importantes como uma alavanca para trazer questões que o resto dos personagens não tinham coragem de enfrentar e para impulsionar um sentimento de vingança (inicialmente de luto, mas que torna-se vingança com o passar do tempo) que os levam a lutar**. Gunn descobre que o sarcófago chegou até W&H graças ao seu upgrade e Angel e Spike têm a escolha de destruir o mundo para salvar Fred, mas ela não teve escolha e tudo de ruim que acontece com ela ao longo da série ocorre graças a sua inocência, uma grande ironia que Whedon utiliza durante o episódio.
* Joss ainda utiliza a morte para maltratar o seu público de uma forma que nenhum showrunner consegue. As cenas entre Wesley e Fred são lindas de doer, a maneira como a música triste desaparece na última cena entre os dois e deixa espaço apenas para o último apelo de Fred, o quarto escuro, mas com uma pequena fonte de luz ao fundo, o foco sempre colocando o sofrimento de Fred em primeiro plano e a belíssima atual de Amy Acker fazem que essas cenas causem uma emoção sobrenatural no espectador.
** Passion, The Body (ambos de Buffy) e Os Vingadores são exemplos disso.
O episódio ainda fustiga os seus personagens de uma maneira que machuca mais do que todas as lutas que eles enfrentaram. Todos são unidos pelo medo de perder a amiga, mas existem outros sentimentos individuais para cada um. Lorne, aquele que normalmente se posiciona como o sábio do grupo, perde o controle e tem o ataque de fúria que era previsível. Spike deve sua vida aquela pessoa e ver o personagem sofrer tanto por um personagem que não tem como nome “Buffy” é doloroso, além disso, sua postura de confiança de que eles conseguirão salvá-la traz ainda mais angústia quando é de conhecimento nosso de que a situação é irreversível. Angel sempre foi a pessoa que mais precisava daquilo que Fred representava para a série e sua atitude de não arriscar o mundo para salvá-la não vem de si mesmo, e sim da tristeza que abalaria Fred se ela soubesse que foi responsável pela morte de milhares de pessoas. Wesley era Wesley, o saco de pancadas da série que leva a pancada final e tem seu espírito completamente destruído.
A construção do episódio em si transmite aflição. Começa-se com um flashback que amplia ainda mais aquela imagem de menina do interior de Fred, a vemos com Wesley reafirmando o relacionamento enquanto matam coisas feitas, as brigas de Angel e Spike sobre o possível duelo entre homens das cavernas e astronautas*** e uma brincadeira de Gunn com Wesley, tudo simples com aquele humor de Angel que contribui bastante para que o episódio funcione****.
*** Aproveitem os comentários para debater qual deles venceria. A questão é de fundamental importância para o desenvolvimento do episódio.
**** A grande ironia é que “A Hole In The World” é um dos episódios mais engraçados de Angel. Além da já citada discussão e a pegadinha que Gunn faz com Wesley, observa-se várias piadas rápidas ao longo do episódio que vão desaparecendo à medida que a situação de Fred piora, como o comentário dela sobre estar arrodeada por homens. Angel com uma espada atravessando o corpo também é uma imagem bem incrível.
São episódios como “A Hole In The World” que definem o amor que nós temos pela televisão. Todo o episódio traz uma proposta que ninguém quer aceitar, mas somos obrigados a passar por aquilo porque sabemos que nas próximas semanas Joss Whedon e sua equipe de roteiristas vão capitalizar na dor que sentimos aqui. Os inícios de temporada das séries de Whedon sempre são complicados, com exceção de Firefly. Existe certa indecisão sobre aquilo que ele quer mostrar, mas quando tudo vai se afunilando ele consegue fazer o que quer com uma maestria imprescindível e entregar episódios que conseguem funcionar tanto dentro do seu próprio universo como na construção geral da temporada, como é esse sensacional “A Hole In The World”. O que parece ser uma despedida acaba sendo um novo começo, sai a doce Fred e entra Illyria, a realidade contida na metáfora da história dos astronautas e homens das cavernas.
***
Calendário Flashback:
27/05 – The Body (Buffy the Vampire Slayer)
29/05 – Algum episódio de Deadwood. (Contribuição especial do colega Guilherme Inojosa)
03/06 – The Chinese Restaurant (Seinfeld)
10/06 – The One with the Blackout (Friends)
17/06 – Mr. Monk and The Kid (Monk)
24/06 – Bad Moon Rising (Everybody Loves Raymond)
01/07 – Afternoon Delight (Arrested Development)
08/07 – Blink (Doctor Who)
15/07 – Pilot (Friday Night Lights)
22/07 – Out of Gas (Firefly)
Dicas dos leitores que não foram encaixadas no calendário até agora: My Name Is Earl, Jericho, Six Feet Under, Dollhouse, Battlestar Galactica e Grey’s Anatomy.
Algumas séries indicadas eu não assisti, por isso não estão no parágrafo anterior, mas continuem enviando dicas aí nos comentários que estou de olho.
Até semana que vem!
Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios. Espero que vocês gostem.












