Onde o protagonismo não tem vez.
Eu tenho minha doze, você tem sua pasta. Tudo no jogo, cara”
– Omar
Na primeira temporada de The Wire tínhamos dois “protagonistas”, se realmente podemos assim chamá-los, que tinham mais tempo de tela e dominavam a trama nos dois lados de Baltimore: policiais e traficantes. Nesse ponto da segunda temporada McNulty e D’Angelo rapidamente se tornaram um peso morto. Um está na prisão e não irá sair de lá tão cedo, outro foi exilado de seu departamento pelo próprio chefe e tem plena e justificada certeza de que não sairá de seu trabalho na guarda costeira tão cedo. As engrenagens da série giraram e os dois personagens ficaram pelo caminho.
Entretanto, não é assim nesse episódio. All Prologue com certeza entraria numa lista dos 10 melhores episódios de The Wire, pois há algo nele muito diferente do que a série geralmente nos apresenta. Cada temporada nos conta uma história por completo, e seus pedaços episódicos são peças dentro de uma trama complexa. É o extremo oposto de um procedural, de forma que é difícil algum episódio específico se destacar no meio dos outros. Não é o que ocorre aqui. All Prologue é na verdade um epílogo da primeira temporada, e certamente um dos pontos altos da série.
McNulty tenta reatar com sua ex-esposa, mas suas alfinetadas durante o jantar a dois mostram que Elena não esqueceu dos motivos pelos quais ela se separou do policial. D’Angelo tenta se separar do seu passado, mas não consegue e perde sua vida como consequência. Ele, todavia, estava ciente disso: na brilhante cena da biblioteca ele assume que não há como apagar as manchas do passado. The Wire é feita de trilhos, os mesmos nos quais McNulty e Bunk vão se embebedar nesse episódio. Os personagens possuem caminhos pré-definidos, que estiveram lá desde antes que eles nasceram e que são impossíveis de se desviar.
Exemplos disso não faltam, e cada um toma uma forma diferente: para Greggs é a paixão pelo trabalho policial, para Ziggy são as gerações de antepassados que sempre trabalharam no porto e que agora o forçam a fazer o mesmo, para Frank o desejo de trazer algum progresso ao porto de Baltimore. Desejos, paixões, obrigações e heranças, todas elas ajudam a traçar o seu caminho durante a vida e quando ele está definido é dificílimo escapar. Andar nos trilhos é estável e aconchegante, para que mudar o curso se as consequências são tão desagradáveis?
É nesse ponto que The Wire consegue abordar temas que The Sopranos, a série que sempre a manteve na sombra, nunca conseguiu. Em nenhum momento no decorrer de seis temporadas a série de Anthony Soprano mostrou alguém efetivamente mudando. O mundo da máfia é estratificado, sólido e muito confortável. Quando alguém decidia mudar de rumo, assumir uma nova vida, todos nós sabíamos que no fundo era tudo uma enorme mentira. Em The Wire a mudança é realmente possível. Ela traz duras consequências, é raríssima, mas a oportunidade de vê-la ocorrer em tela é maravilhosa. Larry Gilliard Jr. fez um trabalho magistral como D’Angelo, e sua mudança é profunda e emocionante. O personagem carregou para o túmulo uma convicção plena, e tomou uma decisão dificílima quando tinha um caminho muito mais fácil como alternativa.
A cena de sua execução é também um dos momentos que fica para a memória de qualquer fã da série. Stringer consegue um contato em Washington que possui um primo dentro da prisão na qual D’Angelo está. Contornando Avon o personagem age por pura cautela. Dee iria entregar sua família? Não. Mas Bell não quer correr esse risco, principalmente quando seu alvo começa a se distanciar dos Barksdale. E então temos aquela cena horripilante na biblioteca, fria e pontiaguda como todas as mortes importantes de The Wire. Sem nenhuma intenção de elevar o drama e a emoção, essas cenas são tão impactantes justamente por isso.
É assim que nesse ponto da história chegamos a algo extraordinário para o mundo das séries. Um dos protagonistas está isolado, o outro morto. David Simon confia em seu enorme elenco, e tem razões para isso, mas mesmo assim é extremamente audacioso fazer o que ele faz. Mas pensam que essa é o único acontecimento memorável de All Prologue? Se enganam.
Em uma cena que talvez seja a mais prazerosa de se assistir da série inteira Omar vai ao tribunal para testemunhar contra Bird. Michael K. Williams é pura marra e estilo, com uma identidade tão única e apaixonante que nos deixa de queixo caído, mesmerizados com seu jogo de cintura. Despojado e livre como se estivesse com sua famosa doze em mãos, ele fala o que bem entende à promotora e a Levy e subverte todos os conceitos de moralidade. Não há muito o que falar desse momento, é pura emoção. Aproveite.
Outras observações importantes:
– Esse é o primeiro episódio no qual o caso do porto realmente começa a andar, onde podemos ver as peças se encaixando com a elegância que só The Wire possui. Greggs procura pelas garotas de programa russas (com a extrema desconfiança de sua companheira), Beadie e Lester começam a decifrar o contrabando de contêineres no porto e a dupla dinânima Carver e Herc patrulham os pontos de venda de drogas perto da região, onde sabemos que Ziggy e Nick fizeram e farão negócios. Lá vem a artilharia pesada.
– A esperteza de Nick é bem evidente nesse episódio, tanto que é percebida e louvada por Vondas. Ele usa seu contato com os gregos para resolver o problema de Ziggy sem possibilidade de retaliações e de forma muito mais vantajosa, enquanto que recebe o pagamento pelos produtos químicos metade em dinheiro metade em heroína: uma parte para sossegar seu primo e ganhar mais dinheiro, a outra para garantir o lucro caso a venda da droga não dê certo.
– Após a passagem espalhafatosa de Omar pelo tribunal, ainda temos o prazer de ver o Juiz Phelan entrar na brincadeira e soltar os cachorros para cima de Levy e Bird. Depois de ser contornado pelos Barksdale no julgamento de D’Angelo e ter recusado ajuda a McNulty no momento da investigação em que ele mais precisava deve ser realmente muito bom poder trazer um pouco de justiça (ou menos a sensação dela) para o tribunal. Phelan já é experiente o suficiente para saber que ela é uma ilusão que raramente se torna verdadeira.






















