Uma das maiores qualidades de Fargo está na forma como a série consegue criar tensões mesmo em cenas (ou episódios) que aparentemente não está acontecendo nada de importante. E se o episódio passado nos trouxe bastante ação para acelerar o ritmo da narrativa, Aporia se apoia quase que inteiramente nestas tensões. Os diálogos e interpretações são tão bem construídos que tentar desvendar qualquer desfecho é apenas um exercício criativo que nos ajuda ainda mais na fruição da obra, pois ela pode terminar de qualquer forma, sem necessariamente ser previsível, o que é ótimo.
Por se tratar do episódio que antecede a season finale (e possivelmente o fim da própria série), a jogada mais óbvia seria acelerar ainda mais o episódio para aguardarmos o desenlace na semana que vem. Ao invés disso, Fargo aproxima todos os conflitos a um ponto central para que tenhamos o fechamento no próximo episódio. E a forma como ele conduz a narrativa nos aproxima ainda mais dos personagens, transformando cada personagem em uma peça de xadrez dentro do tabuleiro que é a trama. E com essa jogada, a verdadeira força dos personagens surgem, alguns sendo reforçados em conformidade com o que vimos desde o início da temporada, como o Emmit não passando de um mero peão, e outros ascendendo em importância e firmeza, como Nikki, que já se torna uma espécie de Rainha Branca, se considerarmos Varga como o Rei Preto.
Analogias de xadrez à parte, todo relacionamento apresentado no decorrer da temporada se trata de um jogo de poder, puramente político – mesmo o relacionamento de Nikki e Ray, que mesmo assumindo como verdadeiro o amor entre os dois, tinha essa configuração – e no final vence aquele que tiver a melhor estratégia. E toda estratégia precisa de uma vantagem. Que é exatamente o que Nikki consegue com a sensacional cena do roubo do caminhão. Incrível como a personagem emergiu de coadjuvante ao papel central, ofuscando o verdadeiro protagonista, mesmo com o ótimo trabalho de Ewan McGregor.

Aliás, as atuações neste episódio voltam a ser destaque entre todos do núcleo central. A confissão de Emmit teve peso graças à performance de McGregor, que consegue acentuar cada palavra, pausa e respiro nos momentos certos. Carrie Coon também foi bem, conseguindo passar cada estágio vivido por Gloria, da empolgação por fechar o caso à decepção ao final por perceber que nem sempre o bem vence o mal. Mary Elizabeth Winstead consegue imprimir mais camadas à Nikki Swango, e é possível ver todos os sentimentos da personagem, mesmo aqueles que estão mais escondidos, como a dor pela morte do Ray. David Thewlis continua tão bem quanto o restante da temporada, mas mesmo ele apresenta novas facetas à Varga, mostrando como o personagem reage quando está encurralado.
Do ponto de vista do roteiro, fica claro que Noah Hawley sabia exatamente onde ele queria que cada personagem estivesse nesse ponto da trama. O sentimento da maioria dos personagens ao final do episódio é de frustração, pois quase ninguém conseguiu o que queria. Emmit quer pagar pelo que fez, e mesmo confessando seu crime, não consegue seu objetivo. Varga é roubado e subestimando Nikki, fica sem conseguir recuperar seus dados. Gloria também se sente frustrada por estar de mãos atadas e não conseguir prender o verdadeiro assassino. Os personagens se sentem encurralados e sem meios de conseguirem atingir seus objetivos, e existe um nome para isso: “Aporia”. Então quando dizemos que nada em Fargo acontece por acaso, sacadas como essa nos fazem reforçar este argumento.
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Brincando com as expectativas e apresentando (mais) um excelente episódio, Fargo põe as cartas na mesa e nos prepara para o embate final entre esses personagens, nos fazendo torcer cada vez mais para que este final de temporada não signifique o final da série.
Em tempo 1: A melhor cena do episódio sem dúvidas foi o encontro entre Varga e Nikki. Tensão bem construída e interpretações na medida certa.
Em tempo 2: Esse foi o episódio dos quotes:
“O maior truque que o diabo já fez foi convencer o mundo que ele não existia”. Emmit Stussy, citando um ditado.
“O problema não é que existe mal no mundo. O problema é que existe o bem. Do contrário, quem se importaria?” V. M. Varga, filosofando.
Em tempo 3: Gloria se sentia deslocada em um mundo dominado por objetos tecnológicos. Agora que ela se “reconectou”, os sensores funcionaram.
Em tempo 4: Gostaria de agradecer ao leitor “willian_as”, que na review passada postou um comentário conectando o personagem Yuri àquele flashback que abre a temporada na Alemanha Oriental. Eu não fiz a conexão simplesmente porque não me toquei na hora, falha minha. Obrigado e continuem acrescentando informações importantes quando a review deixar passar, pois isto ajuda a enriquecer ainda mais a experiência de acompanhar a série. 😉















