Antes de mais nada, gostaria de começar esta review me desculpando pelo atraso. Já disse mais de uma vez que não gosto de reviews duplas e só recorro ao formato em último caso. Além do quê, é sempre melhor discutir os episódios enquanto eles ainda estão frescos na memória. Mas como tive um contratempo na semana passada, não tive opção a não ser usar deste recurso.
Existem dois eixos que um bom contador de histórias deve se preocupar: A forma e o conteúdo. Existem histórias que vêm embaladas em um lindo pacote, mas que quando você abre não há nada dentro. Existem histórias cujos conteúdos são verdadeiras pérolas, mas vêm embaladas em um pacote feio. Se o contador só se preocupa com o conteúdo, a história fica técnica, enciclopédica. Se o contador, porém só se preocupa com a forma, fica rebuscada e vazia. Existem histórias, porém, que conseguem aliar um bom conteúdo com uma boa forma de se contar, e isso, caros leitores Fargo sabe fazer muito bem.
Uma das coisas que mais se elogia na série é justamente sua forma. Apresentando trabalhos praticamente perfeitos em planos, fotografia, roteiro, maquiagem e mais diversas partes que compõe um produto audiovisual, Fargo se destaca também em suas histórias. Embora tenha temáticas recorrentes que aparecem em todas as temporadas, a forma de se contar a história é completamente diferente, auxiliando o conteúdo. Com isso, mesmo as temáticas sendo parecidas, nunca temos a sensação de que estamos vendo a mesma série de novo. Mortes, máfia, erros e mal-entendidos são recorrentes, mas elas servem apenas como artifício para desenvolver sua verdadeira temática. Na primeira temporada, tínhamos um fracassado que tenta ser alguém na vida, na segunda um casal em busca de seus sonhos e nesta, uma rivalidade fraternal tomando rumos cada vez maiores (e mais imprevisíveis).
Mais um acerto da série até aqui é no desenvolvimento de seus personagens. Durante as três temporadas ela conseguiu nos fazer torcer (para o bem ou para o mal) por praticamente todos seus personagens principais. Alguns levam mais tempo, outros a conexão é quase imediata. Levou quase meia temporada, mas já me importo com Gloria tanto quanto Emmit, Ray, Varga, Nikki e até mesmo Sy. De modo que não estranhamos completamente os personagens sendo apresentados como uma alegoria de uma ópera infantil, mesmo não conhecendo tal ópera. Emmit e Ray são o pássaro e o pato respectivamente (ambas aves, porém muito diferentes entre si). Sy é o avô (figura ranzinza, mas também cautelosa, a voz da razão), os capangas de Varga como os caçadores (que pegam em armas e fazem o trabalho sujo), Nikki é a gata (animal sinuoso, dúbio) e Gloria é Pedro (figura central que involuntariamente corre atrás de problemas), e claro, o Varga como o Lobo, a figura típica da vilania em histórias infantis. Sim, os arquétipos estão todos aí. Sem emburrecer a plateia, Noah Hawley nos informa o papel de cada um dentro da trama, ou melhor, reforça, porque a esta altura já sabemos exatamente quem é quem e seu lugar na trama.
O andamento da trama até o momento também agrada. Sem se arrastar demais, mas também sabendo se segurar nos momentos-chave, a cadência é muito bem administrada, e até o momento a temporada não soa monótona nem corrida. A trama da investigação de Ennis deu um salto com a ajuda da oficial Winnie Lopez, que trouxe a peça final para que Gloria pudesse terminar seu quebra-cabeças. O difícil agora será provar a teoria, ainda mais com seu chefe babaca em seu caminho. Enquanto essa trama se desenvolve a passos largos, a rivalidade dos Stussy e o problema de Emmit com a ocupação em sua empresa ficam um pouco mais contidos, causando o contratempo correto para o andamento do plot como um todo.
Nesse episódio não tem como não elogiar as atuações, principalmente de Ewan McGregor e do Davis Thewlis. Ewan conduz muito bem seus dois personagens, ambos são bem distintos entre si. Postura, olhar, até o jeito de falar. Mesmo quando Ray se passa por Emmit há uma sólida diferença entre eles. Thewlis é possivelmente o melhor vilão da série, desbancando, em minha humilde opinião, o frio Lorne Malvo da primeira temporada. Ele tem presença, rouba a cena só para ele. O personagem é desconcertantemente perturbador. E eloquente! Como gosta de falar, nosso amigo Varga. E nesse episódio é que pudemos ter uma dimensão exata de sua ameaça. A história se passa em 2010, e o cara já usa a tecnologia de variadas formas para obter informações privilegiadas, incluindo as redes sociais. Crise na economia americana e tecnologia são temas sagazmente discutidos aqui. Além disso, aquele discurso sobre posses e riqueza, ternos baratos e viagens de classe econômica ajudaram a dar uma boa dimensão do caráter do personagem: Você quase não leva a sério o personagem devida sua aparência e forma como ele fala. Ele é subestimado, mas agora entendemos que ele quer ser subestimado. E quem ganha com isso é o público: Boas histórias, bons personagens e boas formas de apresentar este conteúdo.
Em The Narrow Escape Problem, Fargo consegue aliar boa trama, bom desenvolvimento de personagens e consolidar a temporada pouco antes de sua metade. Esperemos que a qualidade se mantenha e se possível, se eleve ainda mais daqui por diante.
Em tempo 1 : O início do episódio foi narrado por Billy Bob Thornton, que, como dito mais acima, interpretou Lorne Malvo na primeira temporada. Lembrando que na temporada passada tivemos um episódio narrado por Martin Freeman, que interpretou Lester também na primeira temporada.
Em tempo 2: O episódio apresentou referências às temporadas passadas citando Bemiji e Luverne, cidades em que aconteceram boa parte das histórias nas temporadas 1 e 2 respectivamente.
Em tempo 3: No episódio, é feita uma alusão dos personagens da série com os da ópera infantil Pedro e o Lobo. Ray é apresentado como o pato, e Varga como o Lobo. Na ópera, o lobo come o pato. Será uma dica do que vem pela frente?
Em tempo 4: Absolutamente nenhum aparelho com qualquer tipo de sensor funciona com a Gloria. Fargo, você tinha minha curiosidade, agora você tem minha atenção.
Em tempo 5: Varga sofre de bulimia? Por essa eu não esperava. Mas pode explicar seus dentes podres, já que a doença (caso seja isso mesmo o que ele tem) pode deixar os dentes com aquela aparência devido ao vômito auto induzido.
3×05 – The House of Special Purpose

Depois de apresentar um de seus melhores episódios, Fargo tinha a difícil tarefa de manter The House of Special Purpose no mesmo nível do anterior, ou quem sabe até mesmo superar. E a série conseguiu manter a qualidade sem muitas dificuldades. Fargo é assim, pode demorar um pouco para engrenar, mas quando isso acontece, não há mais o que pare. Parece ser o caso aqui.
O episódio já começa acertando ao inverter a lógica dos acontecimentos. Começando com a esposa do Emmit achando um envelope e vendo seu conteúdo, para depois mostrar como esse conteúdo foi feito. A rivalidade entre os irmãos está atingindo níveis cada vez mais altos, e logo deve explodir para as vias de fato, que em se tratando de Fargo, não deverá terminar nada bem.
Sem querer ser repetitivo, mas já sendo, novamente me vejo obrigado a elogiar as atuações. McGregor e Thewlis já estão ficando carimbados, por isso não vou me ater muito a eles, mas nesse episódio também se ressaltou bastante Michael Stuhlbarg, que esteve incível – destaco aqui a cena da tomada do escritório e do espancamento da Nikki – e da própria Mary Elizabeth Winstead, que teve uma sensível melhora em relação aos episódios anteriores.
Aliás, as duas cenas que destaquei do Michael Stuhlberg foram justamente as que mais chamaram a atenção em The House of Special Purpose. A primeira, da tomada do escritório de Sy, pelas coisas típicas em Fargo: O clima de tensão no ar, diálogos com voltas imensas antes de chegar no centro da questão (lembrando por vezes os diálogos típicos do Tarantino) e as atuações. A direção de Dearbhla Walsh contribui bastante para a dinâmica da cena, mostrando planos detalhes da boca de Sy e buscando inclusive ângulos que não são óbvios, como o destaque na xícara que será urinada sendo filmada por debaixo da mesa. Isso também garante a autoridade máxima para Varga, que acaba sendo pego (não por acaso) em um ângulo contra-plongée típico no cinema de que está dominando o ambiente. E de que melhor forma os animais demarcam seus territórios senão pela urina? A forma como ele coage Sy nos dá mais uma vez a dimensão de seu poder. A outra cena de destaque também vale muito pela direção, que desta vez opta por nos fazer algo que esperamos o oposto em Fargo: Não mostrar uma cena de violência. Focar apenas na expressão de horror de Sy enquanto Nikki é espancada só reforça o quanto as atuações foram importantes neste episódio.
A série volta a mostrar também o mesmo equilíbrio que no episódio anterior no andamento das tramas paralelas: Agora que a disputa entre Ray e Emmit atingiram um novo nível que gerou consequências para os dois lados, a trama da investigação da Gloria dá uma recuada. Tivemos a confirmação de que Gloria e Winnie trocaram figurinhas e com isso montaram o quebra-cabeça da morte de Ennis, mas fora isso pouco foi avançado, graças ao chefe cretino da Gloria, que como imaginamos, barrou os avanços da policial. Interessante que enquanto as tramas estão separadas os episódios buscam evidenciar mais uma do que a outra, mas não tenho dúvidas de que logo elas deverão convergir.
Apresentando mais um ótimo episódio, Fargo consegue manter a qualidade de seu predecessor, apresentando boas tramas intercaladas aliadas a excelentes atuações. A temporada chega na metade e de agora em diante as tramas devem se encontrar e deixar ainda muitos corpos espalhados por Minnesota.
Em tempo 1: Apesar de muitos diferentes entre si, Ray e Emmit agem da mesma forma, na defensiva, quando acuados diante de um interrogatório.















