A cereja do bolo de uma temporada quase perfeita.

Depois da desoladora notícia de que Fargo só retornará para uma nova temporada em 2017 (ao que parece, está pegando a moda de uma temporada a cada quase dois anos), a season finale só poderia ter um sabor agridoce, pois ao mesmo tempo em que vemos o encerramento natural de um ciclo, agora teremos que esperar muito mais tempo para o início do próximo.

De forma geral, Palindrome teve um ritmo muito mais lento que os dois episódios anteriores, porém ele foi importante não só para “encerrar” a história, como para conectar com eventos da primeira, mostrando que elas estão interligadas de forma muito mais incisiva que apenas a repetição dos personagens Solverson. Contendo alguns easter eggs da primeira temporada, o título do episódio se mostra, novamente, bastante sagaz nesse sentido.

Mesmo tendo um ritmo um tanto arrastado na segunda metade do episódio, a primeira parte foi muito interessante, se mantendo no ritmo dos antecessores. Toda a sequência da perseguição ao som de Black Sabbath só coroa a ótima trilha sonora que a temporada apresentou, de longe uma das melhores dos últimos tempos. Um pouco antes disso, a sequência em que mostra toda a família Gerhardt morta (incluindo Simone, para quem ainda tinha dúvidas) dá um peso à temática da guerra das máfias, demonstrando o clima do episódio como um todo.

O encerramento do arco de Peggy e Ed também foi uma decisão mais do que acertada. Se Palindrome serve principalmente para conectar as duas temporadas, serve também para encerrar de forma bastante poética a vida do casal. Ed morre dentro daquilo que ele sempre mais quis: um açougue. A conversa tida entre o casal foi bastante providencial, pois desde o atropelamento de Rye eles ainda não tinham conversado de fato. É interessante também notar que Ed aponta uma característica muito peculiar de sua esposa, pedindo para ouvir o que ele tem a dizer a parar de falar um pouco. Achei até maldade da parte de alguns comentários que li na internet sobre a morte do açougueiro: que ele “largou os bets” porque a Peggy não calava a boca. Obviamente não foi isso, mas se vermos a cara dele quando ela começa a delirar, que parece, parece. E depois de tantos episódios falando, falando e falado, alguém finalmente conseguiu fazer ela se calar: parabéns pro Lou, que conseguiu colocar a moça no seu devido lugar. Sei que muitos irão discordar de mim, mas pra mim Peggy foi uma das melhores personagens da temporada. Se por um lado ela às vezes se mostra irritante, por outro é uma personagem muito bem construída, é muito mais complexa do que aparenta a princípio e o melhor de tudo, foi muito bem interpretada por Kirsten Dunst. Sério, ela tem que levar algum prêmio por sua atuação, será um pecado se isso não acontecer.

Outro ponto a se destacar foi Hanzee. Não só pelas cenas do índio, mas pelas consequências e revelações. Se alguém ainda estava achando forçado de alguma forma o capanga dos Gerhardt “tocar o f*#@” e sair matando meio mundo, cada vez mais tenho a certeza de que tudo foi planejado desde o começo. Além dos pontos discutidos na review passada, as dicas que a série foi nos colocando desde a première, temos mais alguns pontos interessantes. Caso alguém ainda não tenha se ligado, a nova identidade que Hanzee recebeu foi de Moses Tripoli, que na primeira temporada era o chefe da máfia de Fargo, e que é morto por Lorne Malvo em uma das cenas mais antológicas da primeira temporada (atrás apenas da cena do elevador, na minha opinião). Além disso, as crianças conversando por sinais no campo de baseball também não estão ali por acaso, se tratam de Mr. Wrench e Mr. Numbers, assassinos contratados por Moses para darem um jeito em Malvo.

Moses
Moses Tripoli na 1ª temporada de Fargo

E eis que me enganei sobre Betsy. Eu realmente achei que moça tinha batido as botas pelo câncer no episódio passado, mas ainda não foi dessa vez. Repito que mesmo as cenas que parecem mais desconexas há um motivo. Nesse episódio foi o sonho de Betsy, acompanhada de um pequeno monólogo. Trata-se, na verdade, de uma referência ao filme “Arizona Nunca Mais” com Nicolas Cage, filme de Joel Coen. Mesmo na season finale a série ainda nos entrega referências aos filmes e cenas para nos tirar do lugar comum e nos fazer perguntar o que exatamente estamos vendo em cena.

Apresentando um início de temporada irregular, mas conseguindo se manter nos eixos em toda a segunda metade, Fargo encerra seu segundo ano com muita qualidade e nos fazendo torcer para que venha logo a terceira temporada. Teremos mais de um ano de hiatus, mas se a qualidade se manter valerá a pena. Espero que tenham gostado da cobertura, e se tudo der certo, nos veremos novamente em 2017.

Em tempo 1: Foi explicado os símbolos que Betsy viu no escritório de seu pai, e nada tinha a ver com alienígenas, afinal de contas.

Em tempo 2: Ben Schimidt, o policial irresponsável que deveria ter cuidado de Ed e Peggy, também reaparece na temporada anterior: é o chefe meio babaca do Gus.

Em tempo 3: O mito de Sísifo foi novamente citado, dessa vez por Lou.

Em tempo 4: Indispensável fazer ao menos um comentário sobre a pequena, mas já nostálgica aparição dos personagens da temporada anterior: Molly, Gus, Lou e a filha do gus cujo nome não lembro.

Em tempo 5: Achei que a temporada mostraria como Lou acabou manco. Isso não aconteceu.

Em tempo 6: A frase que Hanzee fala para seu contato, sobre a cabeça num saco, matar e ser morto, é repetida por Moses na primeira temporada.

Em tempo 7: Assim como Hanzee, Moses, lá na primeira temporada, também usava cabelo comprido, num rabo de cavalo. Pode ser só uma coincidência, mas falem a verdade, se tratando de Fargo, que pensa em absolutamente todos os detalhes, vocês acreditam realmente nisso?

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