Gostem ou não dessa season premiere, uma coisa é fato: finalmente Falling Skies resolveu arriscar.

A superficialidade do roteiro de Falling Skies sempre me irritou. A série constantemente desperdiçava oportunidades de fazer escolhas insólitas, preferindo seguir pela estrada da obviedade. O season finale da temporada passada deixou claro esse defeito da série, criando expectativas que no fundo, qualquer espectador com o mínimo de malícia, perceberia que não iriam se realizar.

Tudo isso pode ser entendido se olharmos a partir da perspectiva dos produtores: temporadas curtas, futuro incerto, personagens mal construídos, vilões que não faziam o requisito (tivemos que aguentar Karen fazendo poker face por 3 anos), tudo em Falling Skies não era suficientemente bom ou ruim, e isso pode ser um grande problema para uma série que está a três anos no ar. Quando a primeira temporada foi concluída, minha reação foi: ok, na próxima eles vão desenvolver a trama com mais solidez. E então veio a segunda temporada e nada, a terceira e nada, e aqui chegamos.

Falling Skies nunca soube desenvolver um bom season finale, ao contrário de todas estreias de temporada, que de alguma forma, sempre se saíram de maneira satisfatória. Por isso mesmo, é preciso analisar cada nova trama com cuidado, verificando o potencial (que cá entre nós, a série é mestre em frustrar) e entendendo o que realmente mudou, e o que ganhou uma “pincelada” apenas para passar a impressão de algo novo.

A cena que deu início a Ghost in the Machine foi excelente. Os efeitos especiais estavam incrivelmente superiores aos da temporada passada, a câmera se movimentando passava a impressão de desestabilização, e tudo foi muito bem dirigido (a execução do roteiro foi outro problema apresentado diversas vezes no último ano). Essa cena foi o berço de uma nova trama que estava para se estabelecer, ela vem como um recurso para separar os personagens, jogar para longe qualquer resquício de paz, e apresentar novas ameaças.

A partir disso ocorre um salto temporal de 4 meses, onde nos deparamos com Tom, preso, cabelo raspado, e várias informações na parede. Com essa mudança a série passa a nos apresentar a situação de cada personagem, cada nova localidade, e é claro, cada nova ameaça. Anne se tornou a nova “Tom Mason”, ou seja, a personagem pé no saco, que acha que está no comando e pode sair gritando com todo mundo como se ela fosse a madame e todo o resto a empregadinha, com a justificativa de “sou mãe, quero encontrar minha filha”.

Já Ben, como de praxe, está mais perdido que amendoim em boca de banguela, e esse plot merece uma atenção especial: Falling Skies criou uma China Town pacífica, com direito a filha de protagonista com cabelo branco, muito hormônio do crescimento, e Lourdinha zen. Observem que os produtores a-do-ram trollar a atriz que interpreta Lourdes: numa temporada ela era a boa enfermeira cristã, apaixonada por Hal, depois virou a antagonista louca da vida, com direito a verme no cérebro e tudo mais, e agora ela é a Lourdinha do bem, da luz, do branco, da paz.

Esse plot é tão sem noção, que me admira o risco que a série resolveu tomar ao inseri-lo. Finalmente Falling Skies resolveu nos entregar algo que não seja o arroz com feijão de cada dia, e por mais chances que eu tenha de me frustrar com essa trama, fico feliz ao ver a série fugir do usual.

Já a trama de Matt, além de interessante parece promissora. Sempre gostei desse lado “histórico” que o roteiro tenta passar, até porque o protagonista é um professor de história. É claro que por ser um plot com crianças é provável que tudo seja abordado de uma maneira bem didática (e pouco convincente, já que os atores mirins de Falling Skies estão longe de ser os melhores interpretes do mundo). De qualquer maneira, estou curioso para descobrir qual o real objetivo por trás dessa “reeducação”.

Com Hal e Pope as coisas continuaram na mesma, e aqui cabe uma pergunta: Eles pretendem manter o último como o “egoísta” da história até quando? Já passou da hora do personagem crescer um pouco dentro da trama, lembrando que na season 3 ele foi pessimamente utilizado. Os personagens em Falling Skies, como um todo, evoluíram pouco, mas sem dúvidas Pope é aquele que menos foi desenvolvido ao longo dos 3 anos, e isso vai causando um cansaço no telespectador.

Falling Skies por muito tempo teve medo de arriscar, e é por isso que é notável o contraste entre essa season premiere e o season finale que foi ao ar no ano passado. É como se os produtores tivessem sentado e decidido: “olha, está tudo errado, vamos arrumar, mesmo que cause certa estranheza inicial no público”. Isso fica notável nos efeitos, que estão superiores, nas tramas que parecem mais complexas e promissoras, e é claro, nos riscos que o roteiro resolveu tomar. Se disso tudo vai surgir algo bom, é a grande dúvida, mas eu estou bastante curioso para descobrir o que esse quarto ano tem para oferecer.

Observação nº 1: Essa será a primeira temporada da série com mais de 10 episódios, no total serão 12.

Observação nº 2: Perceberam como os Volm foram jogados para escanteio nesse início de temporada? Amém.

Observação nº 3: Não esperava Tom como o mascarado, mas confesso que achei meio “forçado” quando ocorreu a revelação.

Observação nº 4: Quando Hal disse “Isso é definitivamente melhor que o Brasil” eu interpretei como uma mensagem subliminar dos roteiristas para “Essa premiere é definitivamente melhor que o finale da season passada”.

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